Publicado por: profa red em: Setembro 26, 2008
|
Alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para essa culpa? Eu negociei com muita gente de elite. É pura festa. OI! JOÃO GUILHERME ESTRELLA, 46, é cantor, Os artigos publicados com |
Publicado por: profa red em: Setembro 26, 2008
Um tema tão trivial como a bagunça virou tema de um livro lançado no
início do ano nos Estados Unidos. Em A Perfect Mess (“Uma perfeita
bagunça”), da editora Hardcover, Eric Abrahamson e David Freedman
desafiam o senso comum de que a desordem prejudica a vida pessoal,
profissional e os negócios. Eric é professor de gestão da escola de
negócios da Universidade Columbia, em Nova York. David é jornalista das
áreas de ciências e negócios. Apoiados em estudos científicos que
comprovam que sistemas complexos, como o cérebro, funcionam melhor na
desordem, eles defendem que pessoas desorganizadas são mais eficientes e
perdem menos tempo. De Boston, David falou a VOCÊ S/A. Veja os
principais tópicos da conversa.
O custo de ser organizado
“Para ser organizado, você deve investir recursos como tempo e dinheiro.
De uma forma ou de outra, você gastará algo e, geralmente, esse algo é
mais custoso do que a maioria das pessoas pensam. Elas ignoram o fato de
que são necessários recursos e esforços para ser e manter-se organizado.
Quando você se permite ser um pouco desorganizado, você recupera
recursos, economiza tempo, dinheiro e libera pessoas que trabalham na
sua empresa para se dedicar a outras atividades.”
Quebrando a fantasia
“No início dos anos 90, conversando com um físico que estava estudando
como a desordem pode melhorar um circuito eletrônico, percebi que os
cientistas estavam encontrando na natureza exemplos de sistemas que
trabalham melhor quando desorganizados. Um desses sistemas é o cérebro
humano. Quando me dei conta disso, comecei a me perguntar se essa
premissa também seria verdadeira na vida das pessoas e das organizações.
E comecei a derrubar um mito.”
Ordem x caos
“Há benefícios oriundos da organização. Mas esses benefícios tendem a
diminuir quanto maior o grau de organização, até o ponto que o benefício
já não existe mais e se torna um problema. A maioria de nós conhece
alguém que, de tão obcecado por organização, torna-se ineficiente.”
O estigma do bagunceiro
“Pessoas desorganizadas são tratadas como ineficientes, incapazes de
estabelecer prioridades ou encontrar o tempo para se organizar ou com
dificuldade em encontrar coisas. Isso não é verdade. Na maioria dos
casos, o oposto é verdadeiro. Grosso modo, pessoas desorganizadas são
mais eficientes e perdem menos tempo com detalhes bobos.”
Desordem e criatividade
“Ser criativo significa ser capaz de pensar de maneira nova, pensar
sobre coisas inesperadas. A questão é onde encontrar idéias inesperadas.
O ambiente caótico é mais estimulante. Ele possibilita mais conexões. O
processo de buscar algo numa pilha de papéis é extremamente estimulante.”
Os exemplos reais
“Um exemplo de desordem é a livraria The New England Mobile Book, de
Boston, aqui nos Estados Unidos. Lá, não há nenhuma ordem na disposição
dos livros. O que é economizado com catalogadores e bibliotecários é
repassado em descontos. Outro exemplo é o restaurante canadense
Confusion, que mistura diferentes culinárias em um ambiente desordenado.
Até o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, não segue uma
agenda.”
Como lidar com o chefe certinho
“Se o seu chefe é um maníaco por organização, com tolerância zero para
bagunça, creio que você tem um problema sério. Há muitas maneiras pelas
quais chefes são inadequados, e essa é uma delas. Então essa é uma das
decisões que as pessoas precisam tomar — definir se querem ficar no
trabalho ou procurar outro. Ser natural e eficientemente bagunçado pode
ser incompatível com um chefe obcecado por organização. É uma situação
delicada, talvez sem solução.”
Encontre o equilíbrio
“Para quem é desorganizado e não consegue contornar a situação é
importante buscar ajuda de especialistas para diagnosticar distúrbios
como déficit de atenção, obsessão compulsiva, depressão ou mal de
Alzheimer. Para o desorganizado que não apresenta distúrbios, aconselho
que não tente uma transformação drástica. Pense em fazer pequenas
mudanças para evitar a ansiedade. Para o organizado: saiba que a
organização extrema não é produtiva. Tente ser um pouco mais
descontraído, e assim notará que tudo tende a ser menos rígido e melhor.”
Publicado por: profa red em: Setembro 26, 2008
A Câmara dos Deputados, reunindo
cerca de 30 entidades da sociedade
civil. No horizonte, a primeira grande
Conferência Nacional de Comunicação,
objetivo comum desses movimentos
é instituir o interesse público na
definição das políticas de comunicação,
O contexto em que tudo isso está
acontecendo é o de uma transformação
A passagem dos sinais analógicos
para os digitais permite multiplicar
por até dez o número de canais no
espectro eletromagnético. A Internet
eclodiu como uma nova e poderosa
de trabalho. E mal se passaram alguns
já podem ser definidos como mais
uma nova mídia, um modo portátil
de ver o mundo e interagir com as
da comunicação social. Pela primeira
barateiam custo, descentralizam a
produção. Pela primeira vez, surge
uma tecnologia que dá, a cada ser
humano minimamente inserido numa
sociedade moderna, o direito de
informar, como distinto do direito
de ser informado. Essa é a mais importante
O barateamento dos custos explica
a explosão de revistas de pequena
inclusive revistas temáticas de alto
padrão editorial, em todos os campos
do conhecimento e da atividade
humana. Além dos cinco jornais
de referência nacional, de grande
visibilidade, mas que substituíram
o jornalismo factual pela ideologia
pura, descolando-se do sentimento
popular, o mercado editorial se
enriquece a cada dia, se diversifica,
se fragmenta, graças aos baixos
custos do novo modo de produção,
circulação e acesso, desbloqueados
Os grandes grupos tentam manter
do controle dos canais de comercialização,
veículos diferentes do mesmo conglomerado
outros, e da insistência no conceito
de “pirataria”.4 Trata-se, no entanto
de uma ação reativa, que não consegue
forças produtivas da comunicação,
hoje movidas por uma exuberância
tecnológica que torna difícil manter
o padrão anterior de controle. A
nova tecnologia é intrinsecamente
libertária e desconcentradora.
O governo Lula é mais sensível
às demandas dos setores organizados
minorias secularmente excluídas.
Por isso mesmo, é hostilizado fortemente
em conseqüência, pela mídia convencional,
tem raízes oligárquicas, perfil elitista
e cultura autoritária. Procurando
firmou, primeiro, um pacto estratégico
Depois, firmou outro, com a Rede
Globo, valendo-se do poder de retaliação
poder. O governo cobra da Globo
As decisões de partir para o recadastramento
de uma rede pública de TV sugerem
convivência com a Globo. Não são
apenas o resultado das lutas pela
redemocratização dentro do aparelho
de Estado. O próprio executivo
convenceu-se de que na campanha
da reeleição a Globo violou as
regras mínimas de isenção, retomando
os destinos do país em vez de se
maior fraqueza do campo popular.
desafiando uma definição. Na face
visível das manifestações políticas
e culturais parece prevalecer o valor
neoliberal, do “cada um por si,
Deus por todos”. Mas, nas águas
mais profundas, os valores dominantes
correto”, tolerância e pluralismo,
defesa da paz, da solidariedade humana
repúdio às agressões e à guerra
A sociedade, sacudida por fenômenos
revitalizar na própria tragédia, nos
seus roteiros de violência e desemprego.
universidades cresce exponencialmente.
os movimentos sociais tomaram a
iniciativa, mudando de modo significativo
anomia e sim de uma ebulição ainda
sociais no Brasil movem-se por
agendas setoriais estanques que
não falam entre si, e o maior partido
político de esquerda demora em
reelaborar suas idéias para tornálas
compatíveis com o atual estado
das forças produtivas e visões de
mundo da juventude. O governo só
agora começa a elaborar um projeto
nacional. A luta pela democratização
atrair movimentos dos mais diversos
matizes. Não só por sua função
instrumental e por atender direitos
difusos, que beneficiam a todos,
como por implicar necessariamente
numa luta pela democratização do
é promissor, mas basta o governo
usar tudo isso para renegociar seu
pacto com a Globo, e muito do que
Nossa principal frente de atuação
deve se dar em torno da regulação
do novo espectro eletromagnético
Essa luta movimenta os pesos pesados
propostas temáticas da comissão
autodenominada Pró-Conferência,
que vem se reunindo periodicamente
de 2008. Os desafios colocados
para todos, em especial para as
forças populares, é enorme, mesmo
porque as variáveis tecnológicas
de redefinição. O próprio caráter
das novas tecnologias, que pulverizaram
mesmo tempo propiciam a convergência
dificulta a aplicação de conceitos
clássicos, como os de concentração
de mercado, monopólio, oligopólio
Durante a conferência preparatória,
Brasília, a Frente Nacional Pela
defendeu o conceito de uma rede
pública e única com garantia de
acesso universal a todos os sinais
(som, imagem e dados) e que ao
mesmo tempo otimize o uso socialmente
relevante das diferentes plataformas
mercantil da Lei Geral das Telecomunicações
o objetivo de privatizar tudo, e que
subordinou até mesmo os sistemas
públicos à lógica do mercado. Seu
pretexto principal era o de que a
privatização e competição entre
grupos incrementaria o fluxo da
livre informação, mas aconteceu o
Como conseguir que na definição
de uma nova Lei Geral das Telecomunicações
do interesse público? O recadastramento
os reais concessionários no Brasil.
Mas dada a correlação de forças no
Congresso, a complexidade técnica,
e a tendência do governo de ceder
em áreas que não considera estratégicas,
áreas, é muito difícil conseguir-se
É prioritário desenvolver o ativismo
Telecomunicações, anunciado pelo
ministro Hélio Costa. É possível
nesse âmbito focar uma agenda mínima
factível; alguns princípios por
uma nova regulação democrática,
que independam da forma como se
completará a transição tecnológica.
claras. Tais como: (a) controle púbico
espectro; (b) abertura do espectro
a entidades da sociedade civil; (c)
impedir por normas claras o monopólio
regional e o monopólio cruzado;
apresentação de projetos editoriais
harmônicos com políticas públicas
previamente acordadas em fóruns
legítimos e democráticos; (e) regras
tempo de propaganda, obrigando
tempo mínimo de noticiário e taxa
mínima de ocupação com produção
já conseguiu forçar dirigentes
prática jornalística no Brasil
dos princípios éticos autoproclamados
A constituição da rede pública
de TV é hoje a nossa segunda mais
importante frente de luta, mesmo na
perspectiva de declínio relativo da
importância da TV no futuro próximo
frente à Internet.5 O movimento
pela democratização da informação
tem uma estratégia clara para entrar
na briga pela definição do caráter
da rede pública? Parece que não.
As definições vêm se dando aos pedaços,
palacianos e por outro, não assustar
o campo conservador. Daí o cuidado
extremo na formação de seu corpo
dirigente e de seu conselho, formados
por quadros do próprio sistema
dominante. Procura-se a legitimidade
uma grande variedade de sintomas
mórbidos”, disse Gramsci nos seus
Cadernos do Cárcere. A crise consiste
precisamente no fato de que “o
velho está morrendo, e o novo ainda
que a TV pública não seja apenas
mais um “sintoma mórbido”, mais
um apêndice culturalmente melhorado
de massa mercantil. É preciso que
ela tenha peso no processo de formação
por princípios de pluralidade, radicalidade
jornalística e republicanismo.
Não é impossível tirar o projeto
de TV pública de seu invólucro
defensivo e burocrático. A explosão
criativa do cinema nacional mostra
que há vida além da Rede Globo
e da Globosat. Que há uma nova
geração de artistas e intelectuais
querendo falar e tendo o que falar.
Eles deveriam estar no cerne da rede
Nossa terceira frente de luta é
a interna, na esfera da ética jornalística.
acompanhamento de mídia já conseguiu
convencional a uma explicação pública
de suas práticas. Mas é pouco,
frente ao fosso que separa a prática
jornalística no Brasil dos princípios
éticos auto-proclamados pelo jornalismo.
país em que há mais processos contra
jornalistas, em termos relativos,
As entidades de acompanhamento
sua capacidade de intervenção, alargando
a brecha já aberta, se optarem
por críticas tópicas mais imediatas,
em cima de episódios específicos.
Ao mesmo tempo podem robustecer
sua legitimidade, intensificando seus
contatos com a academia, que faz
estudos mais metódicos, mas num
tempo de maturação mais lento.
A frente da ética é difícil porque
muitos jornalistas tiram o corpo, alegando
que “são os patrões que mandam
fazer assim”. Os sindicatos e a
Fenaj contribuíram para essa dissociação,
dos jornalistas”, que não é negociado
por eles subscrito. Além disso, o código
de ética dos jornalistas brasileiros
a maioria dos jornalistas o ignora e
os comitês de ética dos sindicatos só
funcionam nos casos de defesa de
interesses corporativos. Não punem
as violações da ética profissional.
Também tratam indiferentemente
jornalistas e assessores de imprensa.
Nessa esfera deveríamos encetar
uma campanha por etapas, que conseguisse
seja através de acordos coletivos de
trabalho ou por lei do Congresso,
a implantação da cláusula de consciência
que proteja o jornalista contra
punições por motivos de opinião.
Seria interessante também impedir
a prática do anonimato, que já é
vedado pela Lei de Imprensa, mas
praticado amplamente. Instituir a
assinatura das matérias como prática
Não se pode culpar o patronato
eletrônica. Pode-se, isso sim,
culpar a esquerda, por até hoje
Finalmente, a grande pergunta:
o que fazer com a mídia oligárquica
impressa? Não há nada a fazer, exceto
criar mídias impressas do campo popular.
Se nos meios eletrônicos devem
prevalecer critérios claros de neutralidade
política, já que são concessões
do poder público, nos meios impressos
o princípio geral é a liberdade total de
alinhamento ideológico e mesmo partidário,
incidindo apenas as restrições
da Lei de Imprensa, que tipifica crimes
de injúria, calúnia e difamação.
É válido o esforço de desconstrução
do discurso da mídia porque pode
colocar na defensiva os promotores
da mentira ou do golpe. Mas não
se pode culpar o patronato por defender
seus interesses. Foi para isso
que criaram grandes jornais de referência
eletrônica. Pode-se, isso sim, culpar
os movimentos sociais e centrais sindicais,
esquerda, por não terem lançado até
hoje um grande jornal de referência
nacional que defenda os interesses
populares e nacionais. Que se contraponha
Muitos fatores explicam os recorrentes
mídia impressa da esquerda. Em
primeiro lugar, o sectarismo, que
dificulta a colaboração entre grupos
de extrações ideológicas diferentes,
seja na produção ou na distribuição.
Os veículos tornam-se instrumentos
de disputa interna ou externa. Esse
foi o mecanismo que enterrou quase
toda a imprensa alternativa nos anos
1970. No mundo sindical, em que o
lançamento de um jornal nacional
poderia até mesmo economizar recursos,
de pequenos jornais, predomina
a atomização, a subordinação das
ações de comunicação aos interesses
políticos do grupo dirigente ou limitando-
as às lutas locais da categoria.
As dezenas de jornaizinhos e revistas
exercem alguma influência na base
social, mas não conseguem quebrar
o monopólio da formação da agenda
dos grandes veículos oligárquicos de
comunicação de massa. Para isso, o
movimento popular também teria
que ter um grande veículo de comunicação
aos grandes temas nacionais. Mas poderia
esse papel, se também ele não é portador
de um projeto nacional, apenas
de pautas setoriais e corporativas?
Jornais eletrônicos na Internet são
a nova oportunidade do campo popular,
pelo seu baixo custo e modernidade
intrínseca. A dinâmica está na
Internet. Se eu fosse hoje fazer um
projeto de um jornal de influência nacional,
optaria por um site na Internet,
de alto padrão jornalístico, capaz de
gerar sua própria reportagem, com
uma coluna analítica e interpretativa e
uma janela de TV Web, para debates.
Uma espécie de UOL de esquerda: é
o que se deveria tentar hoje no Brasil,
com os recursos disponíveis. Seria o
melhor projeto do ponto de vista da
relação custo-benefício, além de se
situar na vanguarda tecnológica.
1 Entre eles, Observatório Brasileiro de Imprensa, Observatório Brasileiro de Mídia, Observatório
Brasileiro do Direito à Informação, Monitor de Mídia; Boletins da FNDC, da
Epcom e da Intervozes, “Vermelho” (PCdoB), Carta Maior, Rede Nacional de Jornalistas
Populares; Blog do Professor Chaparro.
2 Até hoje, sindicatos têm que alugar espaço em tevês ou emissoras de rádio para veicular seus
pontos de vista. É o que faz a Corrente Sindical Classista, do PCdoB, especialmente na
Bahia. A CUT em São Paulo fez um convênio com a Rádio 9 de Julho, da Cúria, para
transmitir o seu programa “Bom Dia Trabalhador”.
3 Essa concessões são o exemplo extremo da ilegalidade e apropriação do espaço público por
interesses privados. Durante sucessivos governos serviram de moeda de troca em barganhas
políticas e hoje 51 deputados e 27 senadores controlam, direta ou indiretamente,
emissoras de rádio ou Tevê. Entrevista do professor Venício Lima à Rede Nacional de
Jornalistas Populares, julho de 2006.
4 Um exemplo de megafusão é da AOL com a Time-Warner em 2000, com valor de mercado estimado
então em US$ 350 bilhões. Um exemplo de tentativa de controle da distribuição é
a compra da Chinaglia pela Dinap, este ano, dando origem à distribuidora Treelog S/A. Se
for aprovada pelo Cade, a nova empresa terá domínio de praticamente 100% do mercado,
criando-se um problema gravíssimo de monopólio num setor vital da sociedade.
5 Esse declínio já é notável hoje, com a perda de 3,6 pontos de audiência pela Rede Globo, sem
ganho significativo das outras redes. Dados de setembro de 2007 em relação a outubro de
2006. Conforme Daniel Castro in Folha de S. Paulo.
6 Relatório da ONG “Artigo 19”, da Inglaterra. Conforme “Vermelho”, site do PCdoB, 19/10/07.
Bernardo Kucinski, físico, jornalista, é professor
titular (aposentado) da Escola de Comunicações e Artes
da USP. Autor de vários livros, entre os quais Jornalistas
e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa
(Scritta, 1991) e Jornalismo na era virtual: ensaios sobre
o colapso da razão ética (Perseu Abramo/Unesp, 2005).
Originalmente apresentado para discussão na mesa “Os
Observatórios de Mídia e Democracia”, do Fórum Internacional
Mídia, Poder e Democracia, realizado em Salvador de
12 a 14 de novembro de 2007, promovido pela Faculdade
de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Observatório
Brasileiro de Mídia e outras entidades.
http://www.adusp.org.br/revista/42/rev42.pdf
…………………………………………………………………………….
http://www.cultura.gov.br/site/2008/01/20/web-20-andrew-keen-e-a-democratizacao-da-informacao/
http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/624/1478
http://www.indiosonline.org.br/
Falar sobre povos indígenas, num primeiro momento, diz respeito à idéia de preservação desses grupos que durante séculos foram dizimados e roubados. Mas, com a invasão à cultura dos índios e a ligação dos mesmos a uma vida agitada, movida pela cobrança de mais conhecimentos e preparo para enfrentar o mercado, hoje é difícil localizá-lo como um grupo que ainda mantém seus costumes e tradições. É claro que ainda existem uns poucos isolados na mata que não foram atingidos totalmente pela “cultura dos brancos” e que têm como meta ser o que são. Assim, para os que se podem chamar de “legítimos” e os “misturados” brasileiros estão sendo levadas as novas tecnologias, principalmente no que tange a um computador ligado à Internet. Mas, até que ponto isso é realmente uma forma de inclusão digital? Será que é necessário levar mais um ser invasor a estes povos e modificar as suas vidas?
Normalmente, numa comunidade que tem seus costumes e tradição, sobreviventes de uma organização de seus mestres, chefes e pajés, a cultura é passada, em muitos casos, oralmente, e por modos e comportamentos ensinados e usados por todos. É o caso de grupos que ainda mantêm seus rituais em momentos tristes e alegres da tribo. E que se sentem violentados com costumes impostos como o dever de saber ler, escrever e viver dos “brancos”. Algo que já foi bastante discutido, porém que ainda se mantém vivo nas tribos.
Imagine o índio “puro” em sua essência que ainda não teve um contato prolongado com os “brancos”, mas vive isolado nas matas, e, de repente, por iniciativa de uma ONG e de estudiosos interessados em “preservar” e divulgar essa cultura para outros (que não têm o mesmo objetivo de seus habitantes – uma vez que a linguagem do “branco” não faz parte da cultura indígena) invade a tribo com uma máquina moderna capaz de mostrar o mundo lá fora e poder divulgar a vida daquele grupo. Será que isso ajudaria “realmente” na preservação da cultura desse povo ou seria mais um ingrediente para modificá-la?
Na matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 26 de outubro de 2000, por Léo Castro, registra-se que 500 índios da Reserva Xapecó, em Ipuaçu (SC), ganharam do governo do Estado a escola “Cacique Vanhkrê” num formato de oca com um ginásio de esportes, que parece um tatu, e um centro cultural, em forma de tartaruga. Além disso, resolveram informatizar a escola, garantindo o acesso à Internet. Dar a impressão de estar numa tribo. Mas, ao mesmo tempo, com o espírito que é preciso vencer e ser como um “branco” a confusão passa a invadir a inteligência dos mesmos, pois a cultura do povo capitalista destoa de um grupo que aprende que não é preciso ter dinheiro para viver. Para aqueles que não foram tão agredidos culturalmente, a terra, a floresta e a comunidade são essenciais para a vida indígena.
Analisando as matérias e textos jornalísticos disponibilizados nas últimas semanas, percebe-se que há uma mobilização em “incluir digitalmente” o índio brasileiro. Com o projeto “Rede Povos da Floresta” do Comitê para Democratização da Informática (CDI) e da StarOne, uma das maiores empresas de soluções via satélite no Brasil, foram conectadas na rede mundial de computadores as aldeias Ashaninka e Yawanawa, localizadas no Acre, e a Sapucay, no Rio de Janeiro. A conexão é via satélite, sendo que os computadores são movidos pela energia solar. Além disso, os índios recebem um treinamento, se tornando responsáveis pelos equipamentos, pela tecnologia e pelo acesso à internet. A inclusão digital dos povos tem o apoio de ONGs indigenistas, como a Comissão Pró-Índio do Acre (http://www.cpiacre.org.br). A meta é fazer com que eles tenham contato com outros grupos e divulguem sua cultura. Incluir digitalmente o índio brasileiro é algo que ainda causa muita polêmica, porém não se pode ignorar o fato que muitos apenas nasceram numa tribo e vivem misturados com um povo que, muitas vezes, não conhece e ignora sua cultura. Os nascidos e jogados num lugar diferente acabam incorporando o modo de ser e de viver do outro – mesmo que lhe seja estranho, e assim transforma-se num índio pós-moderno que ainda tem suas raízes, mas quer viver como os que lhe conquistaram e dizimaram seus familiares. Se, alguns já não podem mais manter a cultura de seus antepassados, uma vez que têm uma identidade mista, então que estes, pelo menos, sejam inseridos como cidadãos que têm direitos e deveres como um outro qualquer da sociedade brasileira. A terra, independente de colonização, é um direito que tenta resgatar um pouco da dignidade roubada, porém a Internet somente deve ser dada se estes realmente quiserem, pois no mundo virtual a realidade mistura todos e acaba mexendo na identidade de seus navegantes. por Profª Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo SETE PONTOS
http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/8/indios.htm
Voltando à baila
Publicado por: profa red em: Setembro 26, 2008
Não deixe de ler os vários textos deste link:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/brasileirosrepatriados/
Publicado por: profa red em: Setembro 25, 2008
Publicado por: profa red em: Setembro 25, 2008
Ubiratan D’Ambrosio *
Este é um roteiro para estimular e orientar as reflexões que farei sobre a possibilidade de uma visão humanística da educação reflexiva, conciliando o que chamamos as ciências exatas e a tecnologia com o que costumamos chamar ciências humanas. Como fruto de uma excessiva especialização e um certo deslumbramento com os assombrosos avanços das ciências e da tecnologia, criou-se a imagem de duas culturas: as ciências e tecnologias e as humanidades. Essa dicotomia é falsa e a sobrevivência da civilização no planeta Terra depende de reconhecer esse equívoco.
Cenários sócio-político-econômicos para o século
Um século é um período longo. No decorrer deste século deve haver o surgimento de uma nova ordem social, política e econômica. Estamos vivendo esse processo, embora muitas vezes se tenha a impressão de ser impossível mudar.
É evidente a fragilidade da atual organização da sociedade, na qual os excluídos logo serão a maioria da população. É necessário reverter o quadro, indo em direção à não-existência de excluídos. Em outros tempos, o confinamento e a eliminação eram as práticas para lidar com a presença incômoda de indesejáveis. Hoje, essas soluções são impraticáveis e as sociedades deverão evoluir para permitir que todos se beneficiem da civilização moderna. Muitos dizem que sou um otimista ingênuo. Há indicadores dessa tendência. A análise da história da humanidade mostra a irreversibilidade dessa tendência, embora esse não seja um processo linear. Há altos e baixos. Sem dúvida, estamos vivendo um momento de baixa. Mas essa análise não pode ser feita num período curto de tempo.
Sobre a educação
O sistema político funciona ancorado em duas bases: legal (Constituição, leis, códigos, normas, regulamentos e semelhantes) e representativo (Executivo eleito, parlamentares eleitos e, cada vez mais, cargos burocrático-administrativos preenchidos por eleição ou concurso – que é uma variante de eleição). Os resultados nesse processo de escolha para a gestão da sociedade dependem, em grande parte, de educação.
A educação atual está tendo como grandes objetivos a inclusão das populações no mercado de consumo e alguns indivíduos, selecionados, no setor de produção. Surgem marginais e excluídos, graças à ineficiência da educação. Desses marginais e excluídos, que crescem em número, surgirão os elementos capazes de mudar a sociedade. O progresso “corre por fora”, a reação se organiza no sistema.
Sobre a economia
A economia baseada no capital e no sistema de produção capitalista só pode prosseguir com melhoria de poder aquisitivo por maior número de indivíduos. O capital, que cresce baseado num sistema de juros, acarreta má distribuição de riquezas. A produção, que com o desenvolvimento tecnológico aumenta e ao mesmo tempo gera desemprego, gera uma contradição insustentável entre emprego e salário. Indicadores dessa contradição são os chamados salário-desemprego, renda mínima e as permanentes argumentações a favor do aumento de salário-mínimo como necessário para aumentar o poder aquisitivo. Simplesmente, o aumento da produção não pode se dar sem aumento de consumo. Em outras palavras, sem aumento de poder aquisitivo e de capacidade de consumir, o capitalismo não se sustenta. Salário está diretamente ligado a poder aquisitivo. Educação está diretamente ligada à vontade e à capacidade de consumir.
A questão maior a ser resolvida é: “combinar menos horas de trabalho com mais empregos e maior poder aquisitivo”. As teorias econômicas conhecidas são incapazes de lidar com essas contradições. Indicadores dessa incapacidade são os desencontros e desmandos de propostas de escolas econômicas diferentes. Uma nova economia se faz necessária. Provavelmente substituindo capital por produção participativa.
O futuro
Em 1993 foi criado o Instituto de Estudos do Futuro, como resultado de um grande evento internacional “Educação do Futuro/Educação para a Paz” realizado em 1992 no Memorial da América Latina, em São Paulo. A Comissão Organizadora decidiu, após o evento, manter-se ativada, analisando e fazendo avançar as idéias e propostas ali apresentadas. A forma de se manter ativada foi a criação de um Instituto, sem sede permanente, sem quadros permanentes, sem fins lucrativos, aberto a todas as posições ou opiniões expressas em caráter pessoal, jamais preocupado em algo que representa consenso, exceto o fato de todas as posições e opiniões terem como objetivo atingir paz para a humanidade, paz em todas as suas dimensões: paz interior, paz social, paz ambiental e paz militar. Pretende-se agir como a consciência daqueles que têm poder de decisão.
Não há como propor um modelo substitutivo dos modelos vigentes, em qualquer área. É possível procurar, num enfoque transdisciplinar, entender a condição humana, as condições da sociedade e da economia, sugerindo medidas para atingir a paz total, nas suas dimensões cósmica, planetária, social e individual. Acredito na possibilidade de um futuro com dignidade para toda a humanidade.
As mudanças profundas são o resultado de um processo. Não há mais possibilidades de grandes revoluções. Os meios de informação, de comunicação, de transporte, isto é, a globalização efetiva, tornam inviável uma revolução radical. Além do que revolução significa uma substituição de poder e, como a história nos ensina, o novo poder entra no mesmo comportamento. O poder, no sentido tradicional, é inviável na globalização. A transição para um novo modelo, na linha daquele sugerido acima, está ocorrendo. Há evidentes indicadores dessa transição. É uma transição lenta. Num momento avança um pouco, há um progresso, logo vem a reação e há um regresso. Mas o regresso nunca elimina todos os ganhos do progresso. O saldo é positivo e esse saldo, acumulado, é o que define o novo cenário. A transformação é permanente. Aqueles que têm poder de decisão deveriam ser capazes de antecipar o que será o saldo residual inevitável, isto é, o novo cenário, e incorporar esse novo na sua prática de hoje. Em outras palavras, perceber o futuro. É nisso que os estudos do futuro, como uma especialidade acadêmica, pode ajudar. É ingênuo o líder (político, dirigente, educador) que não busca essa ajuda.
A depredação do hábitat
Há inúmeros estudos técnicos sobre a possibilidade de reversão do quadro de degradação e destruição ambiental que estamos vivendo. Mas os processos, embora tecnicamente conhecidos e relativamente simples, são longos, mais que o período que os torna atrativos para os políticos. Como dependem de decisão política, esses processos não são deslanchados. Mas serão inevitáveis ações ambientais decisivas. Por exemplo, a contradição entre a qualidade e suntuosidade dos edifícios que estão sendo construídos nas marginais torna intolerável o convívio das empresas ali instaladas com o rio poluído. Terá que ser resolvido. Ao se resolver isso, estará sendo encaminhada a solução dos problemas que afetam as populações marginais nas cercanias do rio. O empecilho é uma legislação arcaica, um Judiciário lento e inoperante, e quadros políticos muito vulneráveis.
Haverá condições de evitar a catástrofe? Acredito que sim e estamos próximos à conjugação de interesses da economia com o fortalecimento dos poderes públicos, o que tornará possível corrigir o quadro atual. O caminho mais seguro continua sendo a educação. Mas obviamente uma outra educação, de caráter transdisciplinar, objetivando criatividade e crítica. Quando falo em educação, estou me referindo à educação de crianças, jovens e adultos, incluindo daqueles já em posição de decisão. Nessa educação, tanto de crianças como de jovens e adultos, o papel da mídia é fundamental.
A ciência e os cientistas estão ainda presos aos modelos cartesianos e newtonianos, já desgastados e evidentemente incapazes de lidar com a complexidade do mundo moderno. Há um grande progresso com novos estudos no mundo científico, que surgiram na última metade do século XX, sob denominações as mais diversas: teoria das catástrofes, teoria do caos, teoria de sistemas, complexidade, transdisciplinaridade. Aos poucos, essas teorias vão se incorporando ao mundo acadêmico. É o progresso. A reação se organiza e cientistas tradicionais tentam barrar esses avanços. É o regresso. Mas, como eu disse acima, o saldo é positivo, e se notam grandes transformações no mundo acadêmico e escolar. E, como conseqüência, o cotidiano, as empresas e os sistemas de produção vão avançando com relação à imobilidade e à reação do mundo acadêmico.
Ainda sobre a educação
Um indicador da inocuidade das reações e protestos do mundo acadêmico e dos setores mais conservadores é a grande expansão dos sistemas privados de educação, que prosperam porque respondem mais rapidamente às demandas do mundo atual, sobretudo respondendo às necessidades dos setores empresarial e de produção. Sobretudo na educação superior, o discurso dominante, de uma qualidade arcaica, vai se esvaziando. Parece intolerável o convívio do mundo fora da escola e do mundo escolar. O exemplo dado acima, de poluição de rios, serve também para descrever os problemas da educação. Embora sabendo o que deve ser feito, o processo é longo, mais que o período atrativo para políticos. O apego ao tradicional se manifesta, sobretudo, nos mecanismos de credenciamento e de avaliações (“provões”) alimentados pelo Ministério de Educação. São mecanismos arcaicos e insustentáveis que, além de retardar o progresso, dão uma aura, falsificadora, de seriedade no lidar com os problemas educacionais.
O salto de conhecimento para o qual o homem está se preparando para dar, ainda que inconscientemente, é resultado de toda a sua evolução biológica e intelectual.
A evolução biológica e intelectual continua. Comportamentos e conhecimentos estão em permanente evolução e, como não pode deixar de ser, são contextualizados, inseridos na totalidade em que estamos imersos. Hoje dispomos de poderosíssimos instrumentos materiais e intelectuais para captar informações de uma vastíssima porção da realidade, processar essa informação e compartilhar o resultado desse processamento praticamente com toda a humanidade. Hoje cada indivíduo pode compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos com um número surpreendente de outros indivíduos espalhados pelo planeta. Esse número deve crescer, chegando eventualmente a atingir toda a humanidade. Inconscientemente, estamos incorporando esse compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos na nossa evolução biológica e intelectual. Estamos, inconscientemente, chegando à civilização planetária.
Inúmeras evidências nos são dadas pela história e servem de base para minhas críticas e observações sobre o presente. A análise do passado serve de apoio para minhas reflexões otimistas sobre o futuro.
NOTAS:
* Professor Emérito da UNICAMP.
Publicado por: profa red em: Setembro 25, 2008
Leia e faça sua dissertação. É preciso extrair trechos deste texto e citá-los.
De início, parece-nos oportuno delimitar o cerne de nossa explanação, e neste aspecto, é não só oportuno, mas também bastante coerente, demonstrar que estaremos partindo de uma impositiva primeira complexidade, que se perfaz na evidência de que uma proposta dissertativa sobre a “corrupção ou corrução”, forçosamente nos reporta a uma observação do elemento humano sob uma ótica dual: ação-reação, pois, o homem é, num só tempo, agente e objeto desta decomposição que contrafaz seu caráter.
Conceitualmente, a corrupção pode ser entendida como atentado ou transgressão às normas, princípios e valores, tantos os jurídicos quanto os sociais. Em verdade, retrata uma violação mediata ou imediata ao organismo como um todo, configurando-se sempre em uma lesão (delito jurídico ? vício ou falta moral). Retrata uma conduta gravosa, independentemente de sua ordem: social, econômica ou político-estatal.
Bárbara Barris White, docente da Universidade de Oxford, define a corrupção atribuindo aos seus efeitos uma proporção abrangente; assim dizendo: “A corrupção não se restringe ao suborno, sem que se estenda à invasão fiscal, à exploração do trabalho, e distorça a ética que deve reger uma sociedade”. [1] (tradução nossa)
Assim, entendida como algo inserto na órbita da natureza humana, e, aqui não trataremos de questionar, argumentar ou refutar a existência ou não de uma peculiar natureza humana, daí porque, aceitaremos como incontestável sua existência, ou, até mesmo sua sobrevivência ante a interatividade cultural. Assim, a marcha de nosso pensamento filosófico prossegue, e nesta trajetória tentaremos aclarar a concepção do que é; qual sua origem e causa; como se revela; e ainda, de que forma a “corrupção” transforma o homem.
Em sua representação denotativa, a corruptibilidade evidencia algo corrompido, desmoralizado, desacreditado, podre, estragado, pervertido, desnaturado, ou ainda, decomposto. Novamente aqui, ao adentrarmos à análise semântica dos verbos transitivos, em tempo particípio e adjetivos “pejorativos” que descrevem a literalidade da palavra corrupção; nos deparamos, uma vez mais, com caráter dúplice da questão, porque todos estes signos revelam ao mesmo tempo “ação-processo”, donde saltam percepção e dedução lógicas: o corrupto dilacera com os objetivos, interesses e valores sócio-culturais, e em contrapartida, faz ruir em si mesmo a estrutura edificada de uma unidade social, de um ser participativo e elementar à consciência coletiva.
Em face destas constatações primeiras, ou, porque não dizer, primárias, a partir das quais trataremos de discorrer sobre o que corrompe o homem.
Partindo do ano 410 da Era Cristã, encontramos na narrativa do teólogo e filósofo Santo Agostinho, a expressão: “Dentro de cada homem há uma guerra civil”. Assim, em sua obra, Santo Agostinho pontua a necessidade de que o homem socializado possua um temor reverencial, o que por ele foi denominado como: “virtude civil”, que nada mais é, senão um sentimento humano voltado a Deus e, por ele apontado como o ingrediente basilar do caráter, ou seja, o que leva o homem à não “decair” e a afastar-se dos três maiores pecados: ânsia por dinheiro e bens materiais; desejo [2] de poder e o desejo sexual. Santo Agostinho nos fala em pecados, todavia, não é de suma importância o modo como que nomeamos a fraqueza do caráter humano: pecado, paixão, vício ou hábito, quando sua manifestação é que se impõe relevante.O mal generalizado que atinge a sociedade é que deve ser considerado em sua integralidade.
Distante de Santo Agostinho cronologicamente, porém, tão próximo no que tange à observação da natureza humana, está Kant. Em “Idea for a General History, Kant compara: ambição, desejo de Poder e inveja aos três maiores flagelos da humanidade ? guerra, fome e peste. Do mesmo modo, Schwantes reconhece a fragilidade do caráter humano; sua tendência nata à deformação e, atribui à crise moral o sintoma mais flagrante da ausência generalizada de caráter. E afirma:
“São parasitos os que exploram a sociedade para benefício próprio, os que vivem à custa do Estado sem nada produzir, os que vegetam em lastimosa ociosidade. Tais indivíduos são como células cancerosas que roubam a vitalidade do organismo social. [3]
Por seu turno, Jean-Jacques Rousseau, munido de sua antropologia filosófica, afirmou: “Homem nasce bom e sem vícios, porém, a sociedade civilizada o corrompe”. Talvez, não possa ser tomada como uma assertiva válida esta que nos é colocada por Rousseau, ao considerarmos que o seu modelo de homem ideal é aquele em estado “in natura”, ou seja, primitivo e desconhecedor das desigualdades sociais; alheio à razão, assim eqüidistante de todos os vícios. Contudo, ele o descreve como detentor de algo que foi denominado como “sentimento de piedade” diante do sofrimento alheio. Todavia, ao nosso ver, tal estágio humano não configura que haja uma falta de agressividade, ou então, ausência de maldade no contexto da natureza humana, e sim uma apatia cultivada pela ignorância selvagem. Sob tal aspecto, comungamos da exposição de Lúcia Santaella, naquela em que define a nossa existência sígnica, como algo que está necessariamente pautado pelo agir, reagir, interagir, e fazer, que são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo, a interação dialógica, ao nível da ação, do homem com sua historicidade. [4] Ou seja, houve para a humanidade um instante histórico e preciso, em que o homem deixou de ser simplesmente um primata e tornou-se o “Homo Sapiens”.
Diferentemente de Rousseau, Thomas Hobbes em “Leviatã”, publicado em 1650, nos sugere uma idéia antagônica, descreve um ser humano que, por natureza, é mau, sendo controlado (freado em suas paixões e vícios) por meio do medo institucionalizado, imposto pela sociedade em que está inserido. Decerto, Hobbes esboça-nos uma natureza humana feroz e destrutiva (“homo homini lupus ) [5], afastada do “valor social”, aquém do bem comum.
Mais tarde, Edgar Morin decifra este processo de hominização [6], traçando uma a uma as etapas de seu desenvolvimento, e nos leva a aportar em uma tensa realidade, a de que a “igualdade” social, está repleta de desigualdades, umas são de fato, outras de direito, porém, ambas geram intolerâncias, antipatias, brigas, disputas. Morin sugere que das desigualdades e distinções nasce o poder político, que é a existência de uma dominação pré-constituída, que posteriormente, viria ser o Estado. Assim, através da obra de Morin, traçamos um paralelo com o Estado Moderno, de forma que, tal e qual foi no período da “hominização”, a vida social requer organização e cooperação de todos, contudo, o modelo coletivista onde tudo é bem de todos, possui um sistema de repartição de riquezas “mais ou menos” igualitários, com vantagem, sem dúvida, em favor do chefe. [7]
Necessariamente, para nós, a corrupção é um processo dicotômico: intrínseco e extrínseco, pois, inicia-se no caráter e se exterioriza na sociedade, tornando-se uma patologia cultural, incidente e inafastável. Rui Barbosa ilustra a questão da corrupção política, primeiramente, aponta a política como:“ciência cujo único dogma inalterável é o dos princípios furta-cores, com um matiz para os nossos amigos e outro, oposto, para aqueles que não o são”. [8] E nos fala do homem corrupto, como aquele que põe em senzala sua dignidade e caráter, todavia, ao mesmo passo, o descreve como um ser servil e confinado, longe da luz, do vento e oxigênio que tudo limpam e regeneram. Por fim, caracteriza a corruptibilidade como um círculo vicioso, de fluxo incessante; assim nos diz:
“Cada um dos que vão chegando, se aduba dos outros; com eles se cruza e recruza, novas espécies lhe surgem do coito sutil; há hibridação em hibridação, de multiplicação em multiplicação, um mundo incalculável de malignidades se enxameia [...] os antigos colaboram com os recentes; do ajuntamento de uns e outros se vem gerando novos, pelo concurso destes com aqueles, crescem ao infinito, em número, em diversidade, em virulência aos contágios, as infecções, as pestes”. [9]
De posse das considerações traçadas por Rui Barbosa, somos capazes de fazer uma ilação espontânea, a corrupção sugere a pré-existência de um “Poder”. O Poder possui muitas faces, e estas suas faces não descaracterizam suas feições objetivas e obstinadas, que na maioria das vezes, resulta sempre numa tendência de acúmulo de poderio econômico. Assim, vemos que o Poder se estabelece pela necessidade basilar de comando de uma sociedade pré-estabelecida, no entanto, não se restringe a tal liderança, o mando pelo mando não faz sentido, e por isto, tem objetivos mais extensos, ou seja, de angariar “riquezas”. Sim, a história da humanidade nos tem demonstrado que desde o início das civilizações, durante todo o escorço do tempo, que o alvo do poder é atingir substancialidade patrimonial para aquele que o detém.
Segundo Federico Trillo, em sua obra: “El poder político en los dramas de Shakespeare” (1999), transmite a idéia de que Shakespeare em seus dramas sempre faz a narrativa do Poder como algo que atrae, que subjuga e provoca, noutras palavras, como uma força maldita. E, acrescenta, que nos dramas Shakespearianos o Poder tem a mesma característica e objetivo da Política. A obra de Shakespeare demonstra esta “paixão” como um lado sombrio do homem. Pois, o Poder, explica Trillo:
“É uma paixão reveladora de todas as sombras de um caráter e capaz, com o tempo de evidenciar o resto dos caracteres. Assim o veria há dois mil e quinhentos anos a Antígona de Sófocles, quando considerava impossível conhecer a alma, os sentimentos e o pensamento de nenhum homem até que não se o tenha visto na aplicação das leis e no exercício do poder”. [10] (tradução nossa)
De tal maneira, em todas e por todas as formas, a primeira compreensão pertinente, é a de que a sociedade não sobrevive sem o Estado, e o Estado não permanece sem governo, e ainda, que este governo tem necessariamente que ter autoridade e, que esta autoridade se funda em Poder. Lembramo-nos que estes foram os preceitos e prescrições de Maquiavel em o “Príncipe”, como conquistar, manter e ampliar o poder.
Mas, nos salta de imediato uma indagação: O que realmente corrompe o homem?
Cremos que esta perquirição requeira, a priori, uma outra análise: A do caráter humano. O que é o caráter? Caráter significa o conjunto de traços que singularizam o ser humano através das formas de seu comportamento. É o que torna individual o seu modo de ser. Segundo Theódule-Armand Ribot, pode ser definido como “conjunto de qualidades afetivas e ativas que distinguem um homem de outro”. No mesmo sentido, John Dewey nos ensina: “Um homem pode denunciar-se em um olhar ou em gesto. O caráter pode ser lido por meio dos atos do indivíduo”. [11] Por conta disto, caráter se revela como a interpretação dos hábitos de um indivíduo, é também o lado voluntário e sentimental de sua personalidade. Conforme Kretschmer, o caráter revela as predisposições hereditárias desenvolvidas em interatividade com o mundo exterior.
Desta forma, nos parece lógico que em nossa questão nuclear, a corrupção seja uma manifestação inata do caráter individual do homem. Sendo assim, ele não é corrompido, ao contrário, é quem corrompe. Todavia, percebemos claramente que corromper ou ser corrompido envolve um poder de decisão, há nesta “ação”, independentemente de ser ela ativa ou passiva, um antecedente de escolha, ou seja, um livre arbítrio. O homem é conduzido pelo que pensa, e seus atos racionais ou irracionais são impulsionados e geram um “agir” no mudo fático, e é também conduzido por esta singularidade que norteia seus pensamentos.
Segundo Mondin existe singularidade em todas as expressões do agir humano, existe também uma vontade interna dirigida à transcendência, noutras palavras, já não está voltada somente à cognição do exterior, mas sim, para o universo cognoscível do interior, para o próprio homem; este, em tudo o que faz, diz, pensa, quer, deseja, demonstra sempre uma tentativa de superar a si mesmo. [12]
Com estas palavras de Mondin, correlacionamos o agir humano, com a conduta adequada, politicamente correta, socialmente benéfica, e desta feita, atingimos o hemisfério da ética. Assim, imbuídos pela certeza de que a índole humana pode ser decomposta ou deformada, precisamos, socialmente, possuir um mecanismo de contenção destas paixões destrutivas e virulentas. Devemos transformá-las em um valor social produtivo. Shaftesbury nos orienta sob esta questão:
“Se a inclinação para [a aquisição de riqueza] for modesta e em grau razoável; se não ocasionar nenhuma busca apaixonada ? não há nada nesse caso que não seja compatível com a virtude, e mesmo adequado e benéfico à sociedade. Mas se com o tempo transforma-se numa real “paixão”, o dano e o mal que faz ao público não são maior do que aquele que cria para a própria pessoa”. [13]
François La Rochefoucauld, em uma dissecação pormenorizada da natureza humana, revelou que é preciso mais que uma atitude de repreensão ou recriminação às paixões humanas, é preciso e necessário mobilizá-las. Conquanto, nos diz que a tarefa de controlar, pela força, se necessário, as piores manifestações e as mais perigosas conseqüências das paixões, é incumbência do Estado. [14] Porém, como viabilizar o propósito de La Rochefoucauld, quando o celeiro das paixões, dos interesses privados, das vantagens e privilégios pessoais é o próprio Estado?
Notadamente, a corrupção é um mal sócio-cultural, o que não significa que estejamos fadados à sua permanência, tampouco, que não possamos extirpá-lo. Concluímos, apontando a moralidade e transparência política como os dois caminhos a ser encontrados e percorridos. Porém, só uma sociedade consciente de seus direitos de cidadania, ciente de seu poder político e com aprimorado poder de escolha, conseguirá deitar passos nesse sentido.
Publicado por: profa red em: Setembro 21, 2008
Felizmente passou-se o tempo em que ministros de Estado afirmavam ser mais barato comprar ciência e tecnologia prontas do exterior do que desenvolvê-las no país. Após a crise econômica que assolou a América Latina na década de 1990, ocasião em que um ministro argentino aconselhou cientistas a “lavarem pratos” como carreira, a ciência na região tem presenciado tempos melhores.
Nos últimos quinze anos, a produção científica latino-americana cresceu num ritmo superior ao dos países desenvolvidos. O número de artigos publicados em periódicos indexados ou com visibilidade internacional subiu de 7 mil, em 1990, para 18 mil, em 2004. No mesmo período, a formação de doutores em ciências e engenharias saltou de 1,6 mil para 7,8 mil. De acordo com o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, a produção científica brasileira teria atingido, em 2006, números que colocam nosso país na 15ª posição dos países que mais publicam artigos científicos.
Estranhamente, ao longo do período de 1990 a 2004, os investimentos em Ciência e Tecnologia (C&T) não acompanharam o crescimento do número de publicações. Nestes anos, as inversões brasileiras no setor permaneceram estagnadas em 1% do PIB, enquanto as dos norte-americanos correspondem a 2,4%. Ainda, os recursos recebidos pelos cientistas brasileiros, em média, neste período, seriam 75% menores que nos Estados Unidos.
O paradoxo gerado entre a limitação de recursos neste período e o crescimento vertiginoso da ciência na América Latina é discutido pelo biólogo Marcelo Hermes-Lima em artigo intitulado Para onde vai a América Latina?, publicado no periódico da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB Life) em abril de 2007. A análise do cientista apresenta uma realidade indigesta: trabalhos publicados por latino-americanos, estatisticamente, têm qualidade inferior e refletem alto custo humano.
Ao verificar o número de citações por artigo publicado, os trabalhos brasileiros teriam sido citados em média 4,7 vezes, em comparação com as publicações norte-americanas — que teriam rendido a média de 13 citações. Com este dado, é possível deduzir que a qualidade e, portanto, a visibilidade da pesquisa científica não estão intimamente relacionadas ao número de publicações do país, mas aos investimentos no setor. Afinal, o que justifica a falta de visibilidade das publicações nacionais? Não estamos produzindo ciência de qualidade?
Sem oportunidades no setor privado, cientistas permanecem em universidades, criando uma demanda cada vez maior por bolsas e investimentos de órgãos públicos. O modo pelo qual as instituições de fomento selecionam os pesquisadores que serão atendidos baseia-se em critérios estatísticos, dentre os quais o número de artigos publicados por período. É necessário publicar pelo menos dez artigos a cada três anos, a fim de manter uma bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em algumas áreas. É insustentável dedicar-se constantemente a pesquisas inovadoras e de grande impacto com a obrigação de manter tal quantidade de publicações.
Altas cobranças, baixos salários, dependência financeira em relação ao governo e dificuldade em comprar equipamentos necessários para pesquisa são fatores que, somados à burocratização, falta de agilidade na importação e alto custo de produtos e de insumos de pesquisas científicas, colocam muitos cientistas em posição nada competitiva, quando comparada às de países desenvolvidos.
Ainda que em condições desiguais, o cientista brasileiro tem sido responsável por pesquisas científicas bastante relevantes no contexto mundial. Um exemplo de conquista nacional nos últimos anos é o Biophor. Pigmento branco desenvolvido em 2005 a partir de nanopartículas de fosfato de alumínio, o material promete trazer novas perspectivas ao mercado mundial de tintas à base de água. A pesquisa foi conduzida pelo professor Fernando Galembeck, em uma parceria entre o Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a empresa Bunge. O material compete com o dióxido de titânio, substância atualmente empregada na confecção de tintas de cor branca. Dentre as vantagens do material desenvolvido no Brasil, constam a redução de preço – o valor é de 10 a 15% mais baixo que o dióxido de titânio –, a durabilidade e a facilidade de aplicação da tinta, além de poder ser produzido sem agredir o meio ambiente e sem gerar resíduos.
Um outro exemplo de como a ciência nacional permite o desenvolvimento de tecnologias que ganham mercado interno e externo, beneficiando o meio ambiente, é o motor bicombustível flex. O motor, desenvolvido em esfera nacional desde 1991, com apoio da Bosch, oferece flexibilidade na hora de escolher o combustível. Apesar de ser baseado em um projeto norte-americano, não sendo uma idéia completamente original, pesquisadores brasileiros tiveram o mérito de adaptá-lo à nossa realidade e de reduzir drasticamente seu custo de produção.
Como conseqüência do desenvolvimento de tecnologia nacional em motores flex, nove engenheiros brasileiros foram contratados pela General Motors para adequação da tecnologia ao território norte-americano. Mais do que nos alegrarmos pelo reconhecimento de nossos cientistas por países desenvolvidos, este acontecimento deve ser visto como um problema. Não basta que o Brasil invista em ciência, tecnologia e forme pessoas. É fundamental que haja mercado e demanda internos preparados para absorver a mão de obra altamente qualificada produzida, com condições salariais justas.
http://diplo.uol.com.br/2008-09,a2520
Publicado por: profa red em: Setembro 21, 2008
………………………………………………………………………….
Assassinatos cometidos por esquadrões da morte, por policiais e por milícias “contariam com o apoio significativo de parte da sociedade brasileira”, e as megaoperações realizadas pelas polícias brasileiras simplesmente não servem para nada. Essas são algumas das conclusões da Organização das Nações Unidas (ONU) que publicounesta segunda-feira (15) sua avaliação sobre a criminalidade no Brasil.
A conclusão do documento é alarmante: “viver sob o julgo das milícias formadas por policiais é tão perigoso como viver diante do crime organizado nos locais mais violentos do País.” No relatório divulgado nesta segunda (15) em Genebra, as Nações Unidas fazem quase 50 recomendações sobre como transformar a estratégia de combate ao crime no País. A avaliação é resultado da visita do relator da ONU contra execuções sumárias, Philip Alston, ao Brasil no fim de 2007. Ele apresentará o documento aos demais países da ONU em junho de 2009.
A entidade alertou que as políticas de segurança não estão dando resultados. Para piorar, constata que a política está intimamente envolvida com o crime e que conta com um esquema de proteção para evitar ser investigada pelos assassinatos.
Alston admite que o crime organizado “controla comunidades inteiras” no Brasil, impõe sua própria lei em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. “No Rio de Janeiro, o controle das facções é tão absoluto e a presença do Estado legítimo é tão ausente, que a polícia só consegue entrar ameaçando os traficantes com um confronto armado”, afirmou, confirmando a existência de um “poder paralelo”.
O problema, porém, é que a resposta do Estado está sendo equivocada e a população, cada vez mais intimidada pela violência, começa a aceitar execuções. Para a ONU, os assassinatos sumários “contam com o apoio de uma parte significativa da população, a qual teme as elevadas taxas de criminalidade”.
“O Brasil tem um dos mais elevados índices de homicídios do mundo, com mais de 48.000 pessoas mortas a cada ano”, alertou “As execuções extrajudiciais estão desenfreadas em algumas partes do País”, indicando que elas são cometidas inclusive pela polícia. Para o relator, “policiais participam de estruturas do crime organizado quando não estão em serviço.” Segundo ele, policiais contribuem, e não ajudam, praticando execuções em esforços ilegais para combater o crime.
Segundo a ONU, policiais em serviço são responsáveis por uma proporção significativa de todas as mortes no Brasil. E citou o exemplo de São Paulo, cujo número de mortos pela polícia aumentou nos últimos 3 anos, sendo que em 2007 os policiais em serviço mataram uma pessoa por dia. “No Rio de Janeiro, os policiais em serviço são responsáveis por quase 18% do número total de mortes, matando três pessoas a cada dia”, afirmou o documento.
Um exemplo da atuação indiscriminada da polícia ocorreu em São Paulo, em maio de 2006, diante da ofensiva da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A ONU alerta que a polícia teria matado na ocasião 124 suspeitos. “Mas não foram investigados como homicídios, mas atos de resistência. Isso é um cheque em branco para a polícia”, afirmou Alston, que conclui que 70% das mortes foram execuções.
Segundo ele, classificar os homicídios como atos de resistência seria uma pratica comum em todo o País e usada como argumento para justificar as mortes. O problema é que a classificação de resistência é feita pela própria policia, um verdadeiro incentivo à impunidade.
De acordo com o relatório, os locais de crimes ainda são adulterados pela polícia e raramente uma reconstituição do crime é feita. Em outros casos, a polícia é a única testemunha ouvida e o corporativismo prevalece nas investigações. “Uma investigação séria de homicídio é pouco provável”, constata.
‘BICOS’ – A ONU alerta também para uma tendência ainda mais preocupante: o envolvimento de policiais em grupos criminosos para participar de assassinatos. Um número cada vez maior de milícias está sendo formada por agentes do governo e usam as mesmas táticas de facções criminosas. De acordo com Alston, policiais compensam baixos salários com trabalhos de assassinos de aluguel. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, nada está sendo feito para evitar os ‘bicos’. A polícia é muito mal paga”, constata.
O relatório ainda aponta que muitos policiais estão envolvidos com corrupção e extorsão. O pior é que tudo isso seria tolerado pelo alto escalão. Segundo o documento, essas milícias formadas por policiais geram a mesma violência e insegurança nos locais que são controlados por facções criminosas. “As milícias operam em grande parte do Brasil, mas se tornaram um problema peculiar do Rio de Janeiro nos últimos 3 anos, onde se estima que aproximadamente 92 das 500 favelas da cidade estejam sob o controle desses grupos”, aponta a ONU.
“As milícias executam extrajudicialmente os suspeitos de serem traficantes ao forçar sua retirada da área, executam suspeitos de outros crimes, intimidam os moradores e ameaçam e matam aqueles que falarem contra a milícia ou que forem considerados aliados de outros grupos que almejam o controle”, destaca. Outro problema são os esquadrões da morte, também formado por policiais. Em Pernambuco, 70% dos homicídios causados por esses grupos ocorrem porque os mandantes e os assassinos sabem que ficarão impunes.
Não por acaso, homicídio é a principal causa de morte entre jovens de 15 a 44 anos. Segundo a ONU, a taxa triplicou em 20 anos. atingindo 30,4 pessoas para cada 100 mil habitantes em 2002. Em 2006, a taxa caiu para 25. Mesmo assim, ainda é três vezes maior do que a média mundial.
OPERAÇÕES – A entidade ainda alega que as operações realizadas nas favelas em 2007, como no complexo do Alemão, fracassaram e que a abordagem de guerra não funciona. “O governo disse que foi um sucesso. Mas na realidade, do ponto de vista de controle do crime, a operação foi um fracasso”, disse. “A polícia apreendeu 2 metralhadoras, 6 pistolas, 3 fuzis, 1 submetralhadora, 2.000 cartuchos, 300 quilos de drogas e uma quantidade não especificada de explosivos. Portanto, o número de pessoas mortas foi superior ao de armas apreendidas e, no dia seguinte, havia apenas uma presença mínima da polícia na favela. A facção continuava no local e no controle”, afirmou a ONU. Dezenove pessoas morreram, das quais 14 pelas costas e Alston acusa os policiais pelas execuções.
O problema, segundo ele, é que essas mortes são toleradas e até publicamente motivadas por representantes do alto escalão do governo. “O atual Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que por mais que a polícia se empenhe ao máximo para evitar as mortes, não se pode “fazer uma omelete sem quebrar os ovos”, disse.
“A percepção de que as operações policiais são planejadas com a finalidade de matar pobres, negros e jovens do sexo masculino surpreende por ser a corrente geral. A retórica oficial de “guerra”, a compra de equipamentos bélicos e os símbolos policiais servem apenas para fazer com que tais opiniões sejam aceitas por todos”, alertou. O fracasso das megaoperações ainda seriam “calados pela aprovação da classe média a tal tática de confrontamento”.
APOIO POPULAR – A ONU também conclui que parte da população, temendo uma escalada da violência, começa a apoiar medidas de extermínio. “As execuções extrajudiciais e a justiça dos vigilantes contam com o apoio de uma parte significativa da população, que teme as elevadas taxas de criminalidade e percebe que o sistema da justiça criminal é demasiado lento ao processar os criminosos”, aponta o relatório.
Alston ainda deixa claro que a classe política, em busca de votos, também adota uma postura dúbia. “Muitos políticos, ávidos por agradar um eleitorado amedrontado, falham ao demonstrar a vontade política necessária para refrear as execuções praticadas pela polícia”, disse.
“Essa atitude precisa mudar. Os Estados têm a obrigação de proteger os seus cidadãos, evitando e punindo a violência criminal”, defendeu a ONU. “No entanto, essa obrigação acompanha o dever do Estado de garantir o respeito ao direito à vida de todos os cidadãos, incluindo os suspeitos de terem cometido crimes”, disse. Para ele, o assassinato não é uma técnica aceitável nem eficaz de controle do crime.
“Os brasileiros não lutaram bravamente contra 20 anos de ditadura, nem adotaram uma Constituição Federal dedicada a restaurar o respeito aos direitos humanos apenas para que o Brasil ficasse livre para que os policiais matassem com impunidade, em nome da segurança”, concluiu.
REFORMA – A ONU pede uma reforma completa da polícia no Brasil e apela para que os políticos dêem demonstrações que não vão tolerar abusos. Entre as quase 50 receitas apresentadas hoje (15) pelas Nações Unidas, a entidade quer que cada disparo dado por um policial seja registrado, cada munição controlada e o fim do corporativismo.
“O escopo das reformas necessárias é assustador e intimidante, mas a reforma é possível e necessária”, apontou Alston. Um dos problemas centrais é o da impunidade de policiais No Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, apenas 10% dos homicídios chegam à Justiça. Em Pernambuco, a taxa é de aproximadamente 3%. Dos 10% que são julgados em São Paulo, estima-se que metade seja condenada. Esses números são ainda menores nos casos em que há o envolvimento de policiais.
Segundo a ONU, investigações de mortes cometidas por policiais não são feitas e as evidências são retiradas dos locais dos crimes. “Em Pernambuco, por exemplo, os promotores encontraram 2 mil inquéritos que haviam sido deixados em delegacias e não encaminhados ao Ministério Público sobre assassinatos. Os inquéritos ficaram nas delegacias mais de 20 anos – período superior ao prazo para a prescrição – e, portanto, não era mais possível levar os casos a julgamento”, alertou a ONU.
A entidade também destaca que o Instituto Médico-Legal (IML) não é suficientemente independente da polícia e pede sua total autonomia. Outro ataque é contra a lentidão do sistema judiciário. “Um sistema judicial moroso cria impunidade para os crimes graves. Esse problema é exacerbado pela tendência de alguns juízes de adiar os processos dos casos que implicam a polícia e outros atores poderosos, e por controlarem seus cartórios de modo a dar prioridade aos processos civis sobre os penais”, afirmou.
A ONU ainda pede mais controle em relação às atividades da policia. “Muitos policiais acusados de crimes graves não apenas aguardam o inquérito em liberdade como continuam exercendo normalmente as suas atividades. Isso possibilita ao policial intimidar testemunhas e aumenta a percepção da comunidade de que existe impunidade para os assassinos policiais e, em contrapartida, reduz a vontade das testemunhas de prestar depoimento”, afirma.
PRISÕES – A entidade também destaca que o abandono de internos nas prisões faz com que as facções se fortaleçam. “O fracasso do Estado em atender as necessidades básicas e a segurança dos internos motiva o crescimento de facções ao criar uma lacuna do poder onde as facções podem se apresentar como uma solução para conseguir benefícios para os internos. Isso não gera apenas violência excessiva nas prisões, mas como foi claramente demonstrado pelos eventos que ocorreram em São Paulo em maio de 2006, os efeitos vão muito além das paredes das penitenciarias”, ressaltou o relatório.
“Esforços mais amplos de controle do crime precisam levar em conta o papel chave que as penitenciárias têm no crescimento das facções e o fracasso do sistema prisional em restringir as atividades do crime organizado”, concluiu o documento lembrando que a população carcerária no País dobrou em dez anos.
“Às vezes, internos selecionados recebem mais poder sobre os outros presos do que os próprios agentes. Eles assumem o controle (às vezes brutal) da disciplina interna e da distribuição de comida, medicamentos e kits de higiene”, apontou “Essa prática muitas vezes resulta em líderes de facções controlando as prisões”, disse.
Fonte: AE
http://jc.uol.com.br/2008/09/15/not_179807.php
………………………………………………………………………………………….
| Chilenos lançam campanha contra violência policial |
| 11-Set-2008 | |
| Persistência de situações de abuso, uso desnecessário da força, brutalidade dos agentes policiais contra populações vulneráveis. Estas foram alguns das demandas apresentadas por organizações de direitos humanos do Chile em informes que servem de base para a campanha contra a violência policial “Alto lá!”, lançada dia 9 de setembro, em Santiago.A existência das situações de violência policial contra a população civil sob os governos democráticos tem aumentado. Entre 1990 e 2004 ingressaram na justiça militar 6.083 casos por violência policial imputáveis a carabineiros somente nas regiões IV, V, VI e Metropolitana. Tais denúncias, que apontam 405 casos anuais, têm aumentado de 164 casos em 1990 para a 476 em 2000, chegando a um total de 585 casos no ano de 2004.
Entre as recomendações do relatório estão: introduzir reformas integrais à justiça militar de maneira a adequá-la à evolução internacional dos direitos humanos; derrogar o decreto que regula as condições para o exercício do direito de reunião pacífica sem permissão prévia e sem armas; introduzir reformas legislativas em relação ao controle das atuações policiais. A campanha busca, além disso, sensibilizar a opinião pública sobre tais realidades e informar-lhes acerca dos direitos que lhe são garantidos, podendo ser visitada e aderida através do portal http://www.altoahi.cl/. A página web permitirá também denunciar outros fatos desta natureza, tanto em condição de afetado direto como de testemunha ou aportando informações pormenorizadas. |
Publicado por: profa red em: Setembro 20, 2008
Abuso passivo ou negligência
“A negligência da negligência”
Milhões de crianças jamais terminam a escola, não sabem ler, têm limitado acesso aos cuidados médicos, enchem as cadeias e são devastadas pelos crimes e drogas em um ambiente “afamiliar”.
Ocorre negligência infantil quando os responsáveis, em qualquer nível, pelas necessidades básicas da criança, deixam de cumpri-los.
Na sua forma mais branda pode ser encarada como uma falta de vigilância e segurança, estando exposta a maior risco de acidentes e intoxicações. Na sua forma mais grave, o paciente se apresenta com atraso de crescimento e retardamento do desenvolvimento como resultado de alimentação adequada ou ineficaz.
“A pobreza não é igual à negligencia”
Fatores de risco são similares aos encontrados nos casos de abuso. A maioria foi indesejada e procurou-se pouca assistência no pré-natal. Os pais não parecem preocupados com o atraso. Poucos cuidados médicos e vacinas atrasadas.
Essas crianças sorriem pouco, são apáticas e retraídas quando deixadas sozinhas. Apresentam mais interesse em objetos que em pessoas. Evitam contato com os olhos e se recusam a ser tocadas ou acariciadas.
Higiene precária, roupas sujas e assaduras de fralda. A maneira de confirmar é remover a criança deseu meio e observar o crescimento quando bem alimentada.
A lei pode ser útil para mudar o comportamento. Mais eficaz em solicitar limites de segurança para medicamentos, temperatura para aquecedores de água, segurança de brinquedos e dispositivos de segurança.
Abuso emocional
Associa-se a todas as outras, embora possa ocorrer isoladamente e variar desde a desatenção até a
rejeição ostensiva, expiação ou sujeição pelo terror. Por não deixar estigmas visíveis é muito difícil de se
documentar.
As vítimas podem se apresentar com ansiedade crônica grave, agitação, hiperatividade, depressão ou reações psicóticas ostensivas.
Muitas são socialmente retraídas, tem problemas em se relacionar e vão mal na escola. Uma baixa auto-estima é a regra.
mensagens