Publicado por: profa red em: Julho 6, 2008
– Há homens que rejeitam a mulher durante a gravidez dela. Você saberia me explicar a causa?
- Não sei quantificar, mas o bebê é uma ameaça ao idílio exclusivo. Também as mudanças físicas da mulher gestante são desagradáveis para alguns. Outros têm medo do que os espera. Um pai certa vez me queixou que uma criança tão pequena era capaz de encher a casa toda e mudar todos os hábitos da família. Quanto ele via os cuidados que a mãe dispensava dia e noite à criança, ficava enciumado e carente, com nostalgia de sua própria infância. Outro fator é a alteração dos hábitos do casal sobre saídas e horas de sono. O caso mais marcante que já vi em casal casado foi de um pai que, ao voltar da maternidade, pegou suas coisas e nunca mais voltou. Mas diariamente se sabe de mulheres que engravidam e o companheiro some, não ‘assume’. Nesse caso, pesam fatores emocionais, censura sobre a mãe solteira (ainda hoje) e dificuldades econômicas.
- A preocupação da grávida com ela mesma, com a estética, o fato de não querer engordar…Isso não a priva do contato mais intenso com o filho? O que tem a dizer, Dra. Relva?
- As novelas mostram muito isso: a mãe saindo da maternidade com a babá uniformizada, levando o bebê no colo, o bebê assim totalmente desvinculado da mãe. Provavelmente não será amamentado. E a pressão interna e externa pela boa forma é imensa e generalizada na sociedade. Inglesas disseram recentemente – li na BBC – que a beleza das celebridades lhes dá vontade de morrer. A ditadura da beleza é dura, não tem escapatória, o espelho da madrasta as advertirá com a mesma crueldade do relógio.
Sobre um bom contato com o filho e para exercer a maternagem, ela tem que pegar o primeiro livro de pediatria para as mães, o do dr. Holt, e fazer tudo ao contrário: pegar no colo, amamentar em livre demanda, ou seja, prestar mais atenção à natureza. Claro que sem perder a elegância jamais!
- Quem toma conta do corpo da grávida? Ela ou a indústria dos medicamentos? Quando é que ela é sujeito e não objeto? Como deve fazer para, ainda que se beneficie das modernidades da medicina, consiga ser dona de seu corpo?
- O corpo da mulher e, conseqüentemente, o da grávida é um latifúndio, loteado pelo sistema de saúde e seus especialistas, pela indústria farmacêutica, pela indústria da moda “mamãe bebê” e pelas inúmeras publicações sobre o antigamente chamado estado interessante. Como diz Octavio Paz: [a mulher] “nunca é dona de si. Seu ser se divide entre o que é realmente e a imagem que faz de si. Uma imagem que lhe foi impressa por família, classe, escola, amigas, religião e amante. Sua feminilidade nunca se expressa, porque se manifesta por meio de formas inventadas pelo homem.”
mensagens