Aula de redação

Alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para essa culpa? Eu negociei com muita gente de elite. É pura festa.

OI!
POSSO me sentar? Desculpem-me, mas não pude deixar de ouvir a
conversa… É que esse assunto muito me interessa. Como vocês sabem,
negociei cocaína no Brasil e no exterior por seis anos, entre 1989 e
1995. Nesse período, consumi quantidades industriais de drogas -LSD,
haxixe, cocaína, ecstasy, álcool, cigarros, cogumelos, maconha etc.
Hoje, posso dizer com tranqüilidade que estou fora de tudo isso. Mas
não foi fácil.
Fui preso em 1995. Fiquei quatro meses na Polícia
Federal da praça Mauá, no Rio de Janeiro, até sair o resultado do meu
julgamento. Na sentença, a juíza me condenou a dois anos de internação
em um manicômio judiciário no complexo Frei Caneca, também no Rio.
As
pessoas que lá nunca estiveram dizem que foi mole, que a sentença foi
baixa etc. Mas não é assim. Basta olhar o nosso sistema prisional -há
exemplos trágicos muito recentes- para entender que, no Brasil, nem
mesmo um único dia na prisão é “mole”. Aquela é uma realidade sobre a
qual ninguém pode falar de fora.
Fui condenado a quatro anos de
prisão. Se fosse cumprir essa sentença, poderia sair em um ano e meio
com bom comportamento. A juíza substituiu a pena para dois anos no
manicômio. Lá, você tem que se recuperar, porque, se não tiver uma
série de pareceres positivos, a sua pena é renovada tantas vezes
quantas o juiz achar conveniente.
São duas situações diferentes,
na PF e no manicômio. Naquela, a vida com pessoas em constante crise de
abstinência e com problemas de espaço e convivência. Neste, o convívio
com pessoas que tinham graves problemas psicológicos e eram, em alguns
casos, bastante violentas.
Na primeira situação, em que não
entravam drogas, as pancadarias eram constantes entre os presos e era
quase impossível não se envolver.
No manicômio, por sua vez, tive
o “privilégio” de conviver na mesma cela com pessoas que haviam matado
seus pais, assassinado o próprio filho com pauladas e até com
psicopatas famosos, como um que matava crianças -foram 14- e comia seus
órgãos depois que elas estavam mortas.
Além da violência, algo que
me impressionou foi que, pelo menos na época, o segredo de Justiça para
quem fizesse denúncias -tipo delação premiada- não passava de promessa
vazia. Na PF, fui colocado na cela de uma facção por (ainda bem!) não
ter denunciado ninguém. Uma pessoa que tinha feito denúncias acabou
sendo espancada -o depoimento do cara foi entregue na íntegra a mim e
às pessoas que estavam na cela comigo.
É, meu amigo, só quem não
sabe nada da prisão é que pode dizer que minha sentença foi “mole”. E
só quem não sabe nada de criminalidade pode achar que apontar a classe
média consumidora de drogas como responsável pela violência nos centros
urbanos vai ajudar em alguma coisa.
Sei que “Tropa de Elite” ajudou a levantar essa questão; mas, segundo consta, foi de forma não intencional.
Será
que alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para
essa culpa? Alguém tem a ilusão de que o consumidor de drogas possa
estar preocupado se está ou não alimentando a violência? Eu negociei
com muita gente de elite. É pura festa, meu amigo. Pura festa.
Sabe,
é fácil encontrar culpados, mas nós precisamos é de soluções. Se é para
falar de culpa, bem, a sociedade como um todo tem responsabilidade por
quem elege para administrar o dinheiro dos nossos impostos.
Mas
não é só neguinho da elite que não tá nem aí. O jovem pobre e criminoso
também não está preocupado com isso -e tem lá os seus motivos.
Ele
faz parte de uma parcela da população que, além de ser massacrada pela
miséria, ainda é esculachada pela polícia, enganada por políticos e
jogada na marginalidade mesmo quando não é bandida, pois marginal é
aquele que não participa da comunidade, aquele que é excluído. Esses
cidadãos, que são os mais combatidos e que não têm direito a cela
especial, são mais vítimas do que culpados.
Sinceramente? A cocaína e o ecstasy são problemas, sim, mas não são os mais graves que temos neste país.
Aliás,
por falar em drogas, quer tomar um “drink”? Então… Temos o álcool,
que, se não me engano, aparece em primeiro lugar na lista de
destruição: homicídios, acidentes automobilísticos fatais, demolição
familiar, violência doméstica… A cocaína aparece em quinto ou sexto
lugar na lista de ocorrências com morte.
Temos ainda a fome, a
falta dӇgua, a falta de terra, a falta de vergonha na cara dessa corja
que depena o país. A bem da verdade, quem dera nossos maiores problemas
fossem os ecstasys que a rapaziada toma nas festas e que estão na mídia
o tempo todo.

JOÃO GUILHERME ESTRELLA, 46, é cantor,
compositor e produtor. Em sua história real foram baseados o livro e o
filme “Meu Nome Não É Johnny”.

Os artigos publicados com
assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao
propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e
de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
debates@uol.com.br

 
 
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Leia todos os textos, inclusive, os que estão nos links.

Escreva uma dissertação cujo tema seja a desorganização das pessoas.

Manifesto pela bagunça

Pasme! Ser desorganizado não é problema. O caos é producente e economiza
tempo e dinheiro de profissionais e empresas
Por Mariana Lemann, de Nova York

Um tema tão trivial como a bagunça virou tema de um livro lançado no
início do ano nos Estados Unidos. Em A Perfect Mess (“Uma perfeita
bagunça”), da editora Hardcover, Eric Abrahamson e David Freedman
desafiam o senso comum de que a desordem prejudica a vida pessoal,
profissional e os negócios. Eric é professor de gestão da escola de
negócios da Universidade Columbia, em Nova York. David é jornalista das
áreas de ciências e negócios. Apoiados em estudos científicos que
comprovam que sistemas complexos, como o cérebro, funcionam melhor na
desordem, eles defendem que pessoas desorganizadas são mais eficientes e
perdem menos tempo. De Boston, David falou a VOCÊ S/A. Veja os
principais tópicos da conversa.

O custo de ser organizado
“Para ser organizado, você deve investir recursos como tempo e dinheiro.
De uma forma ou de outra, você gastará algo e, geralmente, esse algo é
mais custoso do que a maioria das pessoas pensam. Elas ignoram o fato de
que são necessários recursos e esforços para ser e manter-se organizado.
Quando você se permite ser um pouco desorganizado, você recupera
recursos, economiza tempo, dinheiro e libera pessoas que trabalham na
sua empresa para se dedicar a outras atividades.”

Quebrando a fantasia
“No início dos anos 90, conversando com um físico que estava estudando
como a desordem pode melhorar um circuito eletrônico, percebi que os
cientistas estavam encontrando na natureza exemplos de sistemas que
trabalham melhor quando desorganizados. Um desses sistemas é o cérebro
humano. Quando me dei conta disso, comecei a me perguntar se essa
premissa também seria verdadeira na vida das pessoas e das organizações.
E comecei a derrubar um mito.”

Ordem x caos
“Há benefícios oriundos da organização. Mas esses benefícios tendem a
diminuir quanto maior o grau de organização, até o ponto que o benefício
já não existe mais e se torna um problema. A maioria de nós conhece
alguém que, de tão obcecado por organização, torna-se ineficiente.”

O estigma do bagunceiro
“Pessoas desorganizadas são tratadas como ineficientes, incapazes de
estabelecer prioridades ou encontrar o tempo para se organizar ou com
dificuldade em encontrar coisas. Isso não é verdade. Na maioria dos
casos, o oposto é verdadeiro. Grosso modo, pessoas desorganizadas são
mais eficientes e perdem menos tempo com detalhes bobos.”

Desordem e criatividade
“Ser criativo significa ser capaz de pensar de maneira nova, pensar
sobre coisas inesperadas. A questão é onde encontrar idéias inesperadas.
O ambiente caótico é mais estimulante. Ele possibilita mais conexões. O
processo de buscar algo numa pilha de papéis é extremamente estimulante.”

Os exemplos reais
“Um exemplo de desordem é a livraria The New England Mobile Book, de
Boston, aqui nos Estados Unidos. Lá, não há nenhuma ordem na disposição
dos livros. O que é economizado com catalogadores e bibliotecários é
repassado em descontos. Outro exemplo é o restaurante canadense
Confusion, que mistura diferentes culinárias em um ambiente desordenado.
Até o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, não segue uma
agenda.”

Como lidar com o chefe certinho
“Se o seu chefe é um maníaco por organização, com tolerância zero para
bagunça, creio que você tem um problema sério. Há muitas maneiras pelas
quais chefes são inadequados, e essa é uma delas. Então essa é uma das
decisões que as pessoas precisam tomar — definir se querem ficar no
trabalho ou procurar outro. Ser natural e eficientemente bagunçado pode
ser incompatível com um chefe obcecado por organização. É uma situação
delicada, talvez sem solução.”

Encontre o equilíbrio
“Para quem é desorganizado e não consegue contornar a situação é
importante buscar ajuda de especialistas para diagnosticar distúrbios
como déficit de atenção, obsessão compulsiva, depressão ou mal de
Alzheimer. Para o desorganizado que não apresenta distúrbios, aconselho
que não tente uma transformação drástica. Pense em fazer pequenas
mudanças para evitar a ansiedade. Para o organizado: saiba que a
organização extrema não é produtiva. Tente ser um pouco mais
descontraído, e assim notará que tudo tende a ser menos rígido e melhor.”

Retirado de
http://poupaclique.ig.com.br/externo.html?url=http://vocesa.abril.ig.com.br/edicoes/0107/aberto/evolucao/mt_232002.shtml

http://cultural.colband.com.br/jornal/not_zoom.asp?idNot=164&idCat=3

http://www.scribd.com/doc/190883/Manifesto-pela-bagunca

Revista Adusp Janeiro 2008

A Câmara dos Deputados, reunindo

cerca de 30 entidades da sociedade

civil. No horizonte, a primeira grande

Conferência Nacional de Comunicação,

marcada para 2008. O

objetivo comum desses movimentos

é instituir o interesse público na

definição das políticas de comunicação,

incluindo as concessões de

canais de rádio e TV.3

O contexto em que tudo isso está

acontecendo é o de uma transformação

profunda, ainda em progressão

veloz, no modo de produção

e no mercado da comunicação.

A passagem dos sinais analógicos

para os digitais permite multiplicar

por até dez o número de canais no

espectro eletromagnético. A Internet

eclodiu como uma nova e poderosa

mídia, além de ferramenta

de trabalho. E mal se passaram alguns

anos, os aparelhos celulares

já podem ser definidos como mais

uma nova mídia, um modo portátil

de ver o mundo e interagir com as

outras mídias.

Além dos cinco jornais de

referência nacional, de

grande visibilidade, mas que

substituíram o jornalismo

factual pela ideologia pura,

o mercado editorial se

enriquece, se diversifica,

graças aos baixos custos

de produção que a Internet

tornou possíveis

Esse conjunto de novos meios

muda por completo o panorama

da comunicação social. Pela primeira

vez, as tecnologias, além de

democratizarem a comunicação,

barateiam custo, descentralizam a

produção. Pela primeira vez, surge

uma tecnologia que dá, a cada ser

humano minimamente inserido numa

sociedade moderna, o direito de

informar, como distinto do direito

de ser informado. Essa é a mais importante

dimensão da Internet.

O barateamento dos custos explica

a explosão de revistas de pequena

circulação hoje no Brasil,

inclusive revistas temáticas de alto

padrão editorial, em todos os campos

do conhecimento e da atividade

humana. Além dos cinco jornais

de referência nacional, de grande

visibilidade, mas que substituíram

o jornalismo factual pela ideologia

pura, descolando-se do sentimento

popular, o mercado editorial se

enriquece a cada dia, se diversifica,

se fragmenta, graças aos baixos

custos do novo modo de produção,

circulação e acesso, desbloqueados

pela Internet.

Os grandes grupos tentam manter

o domínio de mercado através

do controle dos canais de comercialização,

das megafusões e da prática

do super-sinergismo pelo qual

veículos diferentes do mesmo conglomerado

promovem-se uns aos

outros, e da insistência no conceito

de “pirataria”.4 Trata-se, no entanto

de uma ação reativa, que não consegue

frear o desenvolvimento das

forças produtivas da comunicação,

hoje movidas por uma exuberância

tecnológica que torna difícil manter

o padrão anterior de controle. A

nova tecnologia é intrinsecamente

libertária e desconcentradora.

O governo Lula é mais sensível

às demandas dos setores organizados

dos trabalhadores e de

minorias secularmente excluídas.

Por isso mesmo, é hostilizado fortemente

pelas elites tradicionais e,

em conseqüência, pela mídia convencional,

que na América Latina

tem raízes oligárquicas, perfil elitista

e cultura autoritária. Procurando

proteger seus flancos, Lula

firmou, primeiro, um pacto estratégico

com o capital financeiro.

Depois, firmou outro, com a Rede

Globo, valendo-se do poder de retaliação

adquirido pela chegada ao

poder. O governo cobra da Globo

um mínimo de isenção.

As decisões de partir para o recadastramento

e para a formação

de uma rede pública de TV sugerem

o esgotamento do acordo de

convivência com a Globo. Não são

apenas o resultado das lutas pela

redemocratização dentro do aparelho

de Estado. O próprio executivo

convenceu-se de que na campanha

da reeleição a Globo violou as

regras mínimas de isenção, retomando

a postura de querer ditar

os destinos do país em vez de se

limitar a reportá-los.

No contexto ideológico está a

maior fraqueza do campo popular.

O panorama é contraditório,

desafiando uma definição. Na face

visível das manifestações políticas

e culturais parece prevalecer o valor

neoliberal, do “cada um por si,

Deus por todos”. Mas, nas águas

mais profundas, os valores dominantes

são os do “politicamente

correto”, tolerância e pluralismo,

86

Janeiro 2008 Revista Adusp

defesa da paz, da solidariedade humana

e da preservação da natureza;

repúdio às agressões e à guerra

contra o Iraque.

A luta pela democratização

da informação parece

atrair movimentos dos mais

diversos matizes. O momento

é promissor, mas basta o

governo usar tudo isso para

renegociar seu pacto com

a Globo, e muito do que se

conseguiu será perdido

A sociedade, sacudida por fenômenos

como a Internet e a liberação

total de costumes, parece se

revitalizar na própria tragédia, nos

seus roteiros de violência e desemprego.

O contingente de jovens nas

universidades cresce exponencialmente.

Em toda a América Latina

os movimentos sociais tomaram a

iniciativa, mudando de modo significativo

a correlação de forças e o

panorama político.

No Brasil, o quadro não é de

anomia e sim de uma ebulição ainda

sem rumo. Muitos movimentos

sociais no Brasil movem-se por

agendas setoriais estanques que

não falam entre si, e o maior partido

político de esquerda demora em

reelaborar suas idéias para tornálas

compatíveis com o atual estado

das forças produtivas e visões de

mundo da juventude. O governo só

agora começa a elaborar um projeto

nacional. A luta pela democratização

da informação parece

atrair movimentos dos mais diversos

matizes. Não só por sua função

instrumental e por atender direitos

difusos, que beneficiam a todos,

como por implicar necessariamente

numa luta pela democratização do

aparelho de Estado. O momento

é promissor, mas basta o governo

usar tudo isso para renegociar seu

pacto com a Globo, e muito do que

se conseguiu será perdido.

Nossa principal frente de atuação

deve se dar em torno da regulação

do novo espectro eletromagnético

ampliado pela digitalização.

Essa luta movimenta os pesos pesados

da indústria da comunicação.

Também está no centro das

propostas temáticas da comissão

autodenominada Pró-Conferência,

que vem se reunindo periodicamente

para preparar a Conferência

de 2008. Os desafios colocados

para todos, em especial para as

forças populares, é enorme, mesmo

porque as variáveis tecnológicas

ainda estão em movimento

de redefinição. O próprio caráter

das novas tecnologias, que pulverizaram

o espectro e popularizaram

o acesso à informação, mas ao

mesmo tempo propiciam a convergência

de plataformas e serviços,

dificulta a aplicação de conceitos

clássicos, como os de concentração

de mercado, monopólio, oligopólio

e cartel.

Durante a conferência preparatória,

ocorrida em setembro em

Brasília, a Frente Nacional Pela

Democratização da Comunicação

defendeu o conceito de uma rede

pública e única com garantia de

acesso universal a todos os sinais

(som, imagem e dados) e que ao

mesmo tempo otimize o uso socialmente

relevante das diferentes plataformas

tecnológicas de comunicação.

Trata-se de inverter a lógica

mercantil da Lei Geral das Telecomunicações

de 1997, baixada com

o objetivo de privatizar tudo, e que

subordinou até mesmo os sistemas

públicos à lógica do mercado. Seu

pretexto principal era o de que a

privatização e competição entre

grupos incrementaria o fluxo da

livre informação, mas aconteceu o

contrário.

Como conseguir que na definição

de uma nova Lei Geral das Telecomunicações

prevaleça a ótica

do interesse público? O recadastramento

é um bom começo, porque

vai nos desvendar quem são

os reais concessionários no Brasil.

Mas dada a correlação de forças no

Congresso, a complexidade técnica,

e a tendência do governo de ceder

em áreas que não considera estratégicas,

para obter apoio em outras

áreas, é muito difícil conseguir-se

uma mudança tão profunda.

É prioritário desenvolver o ativismo

dentro do Conselho Consultivo

de revisão da Lei Geral das

Telecomunicações, anunciado pelo

ministro Hélio Costa. É possível

nesse âmbito focar uma agenda mínima

factível; alguns princípios por

uma nova regulação democrática,

que independam da forma como se

completará a transição tecnológica.

Um rol de especificações bem

claras. Tais como: (a) controle púbico

do processo de concessões do

espectro; (b) abertura do espectro

a entidades da sociedade civil; (c)

87

Revista Adusp Janeiro 2008

impedir por normas claras o monopólio

regional e o monopólio cruzado;

(d) subordinar a concessão à

apresentação de projetos editoriais

harmônicos com políticas públicas

previamente acordadas em fóruns

legítimos e democráticos; (e) regras

claras de operação, limitando

tempo de propaganda, obrigando

tempo mínimo de noticiário e taxa

mínima de ocupação com produção

nacional e regional.

Nosso trabalho de crítica e

acompanhamento de mídia

já conseguiu forçar dirigentes

da mídia convencional a

uma explicação pública de

suas práticas. Mas é pouco,

frente ao fosso que separa a

prática jornalística no Brasil

dos princípios éticos autoproclamados

pelo jornalismo

A constituição da rede pública

de TV é hoje a nossa segunda mais

importante frente de luta, mesmo na

perspectiva de declínio relativo da

importância da TV no futuro próximo

frente à Internet.5 O movimento

pela democratização da informação

tem uma estratégia clara para entrar

na briga pela definição do caráter

da rede pública? Parece que não.

As definições vêm se dando aos pedaços,

tentando por um lado acomodar

disputas internas de grupos

palacianos e por outro, não assustar

o campo conservador. Daí o cuidado

extremo na formação de seu corpo

dirigente e de seu conselho, formados

por quadros do próprio sistema

dominante. Procura-se a legitimidade

mimetizando. “Na crise surge

uma grande variedade de sintomas

mórbidos”, disse Gramsci nos seus

Cadernos do Cárcere. A crise consiste

precisamente no fato de que “o

velho está morrendo, e o novo ainda

não consegue nascer”.

Vamos torcer e trabalhar para

que a TV pública não seja apenas

mais um “sintoma mórbido”, mais

um apêndice culturalmente melhorado

do sistema de comunicação

de massa mercantil. É preciso que

ela tenha peso no processo de formação

da agenda nacional e se guie

por princípios de pluralidade, radicalidade

jornalística e republicanismo.

Não é impossível tirar o projeto

de TV pública de seu invólucro

defensivo e burocrático. A explosão

criativa do cinema nacional mostra

que há vida além da Rede Globo

e da Globosat. Que há uma nova

geração de artistas e intelectuais

querendo falar e tendo o que falar.

Eles deveriam estar no cerne da rede

pública de TV.

Nossa terceira frente de luta é

a interna, na esfera da ética jornalística.

Nosso trabalho de crítica e

acompanhamento de mídia já conseguiu

forçar dirigentes da mídia

convencional a uma explicação pública

de suas práticas. Mas é pouco,

frente ao fosso que separa a prática

jornalística no Brasil dos princípios

éticos auto-proclamados pelo jornalismo.

Não por acaso, o Brasil é o

país em que há mais processos contra

jornalistas, em termos relativos,

por crimes de imprensa.6

As entidades de acompanhamento

de mídia podem aumentar muito

sua capacidade de intervenção, alargando

a brecha já aberta, se optarem

por críticas tópicas mais imediatas,

em cima de episódios específicos.

Ao mesmo tempo podem robustecer

sua ação, aumentar em muito

sua legitimidade, intensificando seus

contatos com a academia, que faz

estudos mais metódicos, mas num

tempo de maturação mais lento.

A frente da ética é difícil porque

muitos jornalistas tiram o corpo, alegando

que “são os patrões que mandam

fazer assim”. Os sindicatos e a

Fenaj contribuíram para essa dissociação,

criando um “código de ética

dos jornalistas”, que não é negociado

com o patronato e muito menos

por eles subscrito. Além disso, o código

de ética dos jornalistas brasileiros

é meramente simbólico, porque

a maioria dos jornalistas o ignora e

os comitês de ética dos sindicatos só

funcionam nos casos de defesa de

interesses corporativos. Não punem

as violações da ética profissional.

Também tratam indiferentemente

jornalistas e assessores de imprensa.

Nessa esfera deveríamos encetar

uma campanha por etapas, que conseguisse

num primeiro momento,

seja através de acordos coletivos de

trabalho ou por lei do Congresso,

a implantação da cláusula de consciência

nas redações. Uma cláusula

que proteja o jornalista contra

punições por motivos de opinião.

Seria interessante também impedir

a prática do anonimato, que já é

vedado pela Lei de Imprensa, mas

praticado amplamente. Instituir a

assinatura das matérias como prática

obrigatória.

88

Janeiro 2008 Revista Adusp

Não se pode culpar o patronato

por defender seus interesses.

Foi para isso que se criaram

grandes jornais de referência

nacional, que pautam a mídia

eletrônica. Pode-se, isso sim,

culpar a esquerda, por até hoje

não ter lançado um grande

jornal de referência nacional

Finalmente, a grande pergunta:

o que fazer com a mídia oligárquica

impressa? Não há nada a fazer, exceto

criar mídias impressas do campo popular.

Se nos meios eletrônicos devem

prevalecer critérios claros de neutralidade

política, já que são concessões

do poder público, nos meios impressos

o princípio geral é a liberdade total de

alinhamento ideológico e mesmo partidário,

incidindo apenas as restrições

da Lei de Imprensa, que tipifica crimes

de injúria, calúnia e difamação.

É válido o esforço de desconstrução

do discurso da mídia porque pode

colocar na defensiva os promotores

da mentira ou do golpe. Mas não

se pode culpar o patronato por defender

seus interesses. Foi para isso

que criaram grandes jornais de referência

nacional, que pautam a mídia

eletrônica. Pode-se, isso sim, culpar

os movimentos sociais e centrais sindicais,

ou partidos que se dizem de

esquerda, por não terem lançado até

hoje um grande jornal de referência

nacional que defenda os interesses

populares e nacionais. Que se contraponha

à mídia impressa oligárquica.

Muitos fatores explicam os recorrentes

fracassos dos projetos de

mídia impressa da esquerda. Em

primeiro lugar, o sectarismo, que

dificulta a colaboração entre grupos

de extrações ideológicas diferentes,

seja na produção ou na distribuição.

Os veículos tornam-se instrumentos

de disputa interna ou externa. Esse

foi o mecanismo que enterrou quase

toda a imprensa alternativa nos anos

1970. No mundo sindical, em que o

lançamento de um jornal nacional

poderia até mesmo economizar recursos,

ao consolidar grande número

de pequenos jornais, predomina

a atomização, a subordinação das

ações de comunicação aos interesses

políticos do grupo dirigente ou limitando-

as às lutas locais da categoria.

As dezenas de jornaizinhos e revistas

produzidas pelos sindicatos

exercem alguma influência na base

social, mas não conseguem quebrar

o monopólio da formação da agenda

dos grandes veículos oligárquicos de

comunicação de massa. Para isso, o

movimento popular também teria

que ter um grande veículo de comunicação

de massa, e que se dirigisse

aos grandes temas nacionais. Mas poderia

o campo popular desempenhar

esse papel, se também ele não é portador

de um projeto nacional, apenas

de pautas setoriais e corporativas?

Jornais eletrônicos na Internet são

a nova oportunidade do campo popular,

pelo seu baixo custo e modernidade

intrínseca. A dinâmica está na

Internet. Se eu fosse hoje fazer um

projeto de um jornal de influência nacional,

optaria por um site na Internet,

de alto padrão jornalístico, capaz de

gerar sua própria reportagem, com

uma coluna analítica e interpretativa e

uma janela de TV Web, para debates.

Uma espécie de UOL de esquerda: é

o que se deveria tentar hoje no Brasil,

com os recursos disponíveis. Seria o

melhor projeto do ponto de vista da

relação custo-benefício, além de se

situar na vanguarda tecnológica.

Notas

1 Entre eles, Observatório Brasileiro de Imprensa, Observatório Brasileiro de Mídia, Observatório

Brasileiro do Direito à Informação, Monitor de Mídia; Boletins da FNDC, da

Epcom e da Intervozes, “Vermelho” (PCdoB), Carta Maior, Rede Nacional de Jornalistas

Populares; Blog do Professor Chaparro.

2 Até hoje, sindicatos têm que alugar espaço em tevês ou emissoras de rádio para veicular seus

pontos de vista. É o que faz a Corrente Sindical Classista, do PCdoB, especialmente na

Bahia. A CUT em São Paulo fez um convênio com a Rádio 9 de Julho, da Cúria, para

transmitir o seu programa “Bom Dia Trabalhador”.

3 Essa concessões são o exemplo extremo da ilegalidade e apropriação do espaço público por

interesses privados. Durante sucessivos governos serviram de moeda de troca em barganhas

políticas e hoje 51 deputados e 27 senadores controlam, direta ou indiretamente,

emissoras de rádio ou Tevê. Entrevista do professor Venício Lima à Rede Nacional de

Jornalistas Populares, julho de 2006.

4 Um exemplo de megafusão é da AOL com a Time-Warner em 2000, com valor de mercado estimado

então em US$ 350 bilhões. Um exemplo de tentativa de controle da distribuição é

a compra da Chinaglia pela Dinap, este ano, dando origem à distribuidora Treelog S/A. Se

for aprovada pelo Cade, a nova empresa terá domínio de praticamente 100% do mercado,

criando-se um problema gravíssimo de monopólio num setor vital da sociedade.

5 Esse declínio já é notável hoje, com a perda de 3,6 pontos de audiência pela Rede Globo, sem

ganho significativo das outras redes. Dados de setembro de 2007 em relação a outubro de

2006. Conforme Daniel Castro in Folha de S. Paulo.

6 Relatório da ONG “Artigo 19”, da Inglaterra. Conforme “Vermelho”, site do PCdoB, 19/10/07.

Sobre o autor

Bernardo Kucinski, físico, jornalista, é professor

titular (aposentado) da Escola de Comunicações e Artes

da USP. Autor de vários livros, entre os quais Jornalistas

e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa

(Scritta, 1991) e Jornalismo na era virtual: ensaios sobre

o colapso da razão ética (Perseu Abramo/Unesp, 2005).

Sobre o texto

Originalmente apresentado para discussão na mesa “Os

Observatórios de Mídia e Democracia”, do Fórum Internacional

Mídia, Poder e Democracia, realizado em Salvador de

12 a 14 de novembro de 2007, promovido pela Faculdade

de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Observatório

Brasileiro de Mídia e outras entidades.

89

Revista Adusp Janeiro 2008

Se achar melhor leia aqui.

http://www.adusp.org.br/revista/42/rev42.pdf

…………………………………………………………………………….

A (r)evolução é urgente, necessária e está em pleno curso. Tentar freá-la é impossível, os modelos tradicionais de produção e disseminação de informação e cultura caíram por terra, o conteúdo colaborativo é um fato, necessita de ajustes e melhorias, porém sua solidificação é inevitável, a idéia do “povo falando por si” é forte demais para ser ignorada.

Houve um tempo em que o povo realmente precisava de pessoas intelectualmente preparadas para protestar, mostrar sua realidade. Os pequenos-burgueses, com seus violões, iam à favela, ao morro, chegavam na periferia e, arrebatados de uma grande dó, cantavam essa realidade em suas bossas, em seus sambas sofisticados, salvando (ou tentando salvar) o povo da miséria, da falta de expectativas.
Depois de algum tempo, o povo descobriu que poderia se manifestar por si próprio, seja por meio dos sambas populares, dos acordes furiosos do punk rock ou da batida forte do rap. Descobriu que era o mais adequado para expressar suas opiniões sobre situações reais, já que vivenciava aquilo tudo no seu dia-a-dia.”

Continue aqui

http://www.cultura.gov.br/site/2008/01/20/web-20-andrew-keen-e-a-democratizacao-da-informacao/

………………………………………………………………..

Uma das grandes contribuições que as
tecnologias da informação e comunicação
podem oferecer no relacionamento entre
o governo e a população é (teoricamente) uma
administração pública mais transparente e eficaz
para a prestação de serviços, sobretudo os serviços
de informação. A administração pública vem
seguindo o exemplo do setor privado e se beneficia
do enorme potencial das novas tecnologias para
melhorar sua eficácia. Não só melhorando o
funcionamento interno das instituições públicas,
como também o relacionamento entre as diferentes
administrações e a interação com os cidadãos e
empresas (FERNÁNDEZ MOLINA, 2005).

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http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/624/1478

Indios on line

http://www.indiosonline.org.br/


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Falar sobre povos indígenas, num primeiro momento, diz respeito à idéia de preservação desses grupos que durante séculos foram dizimados e roubados. Mas, com a invasão à cultura dos índios e a ligação dos mesmos a uma vida agitada, movida pela cobrança de mais conhecimentos e preparo para enfrentar o mercado, hoje é difícil localizá-lo como um grupo que ainda mantém seus costumes e tradições. É claro que ainda existem uns poucos isolados na mata que não foram atingidos totalmente pela “cultura dos brancos” e que têm como meta ser o que são. Assim, para os que se podem chamar de “legítimos” e os “misturados” brasileiros estão sendo levadas as novas tecnologias, principalmente no que tange a um computador ligado à Internet. Mas, até que ponto isso é realmente uma forma de inclusão digital? Será que é necessário levar mais um ser invasor a estes povos e modificar as suas vidas?
Normalmente, numa comunidade que tem seus costumes e tradição, sobreviventes de uma organização de seus mestres, chefes e pajés, a cultura é passada, em muitos casos, oralmente, e por modos e comportamentos ensinados e usados por todos. É o caso de grupos que ainda mantêm seus rituais em momentos tristes e alegres da tribo. E que se sentem violentados com costumes impostos como o dever de saber ler, escrever e viver dos “brancos”. Algo que já foi bastante discutido, porém que ainda se mantém vivo nas tribos.
Imagine o índio “puro” em sua essência que ainda não teve um contato prolongado com os “brancos”, mas vive isolado nas matas, e, de repente, por iniciativa de uma ONG e de estudiosos interessados em “preservar” e divulgar essa cultura para outros (que não têm o mesmo objetivo de seus habitantes – uma vez que a linguagem do “branco” não faz parte da cultura indígena) invade a tribo com uma máquina moderna capaz de mostrar o mundo lá fora e poder divulgar a vida daquele grupo. Será que isso ajudaria “realmente” na preservação da cultura desse povo ou seria mais um ingrediente para modificá-la?
Na matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 26 de outubro de 2000, por Léo Castro, registra-se que 500 índios da Reserva Xapecó, em Ipuaçu (SC), ganharam do governo do Estado a escola “Cacique Vanhkrê” num formato de oca com um ginásio de esportes, que parece um tatu, e um centro cultural, em forma de tartaruga. Além disso, resolveram informatizar a escola, garantindo o acesso à Internet. Dar a impressão de estar numa tribo. Mas, ao mesmo tempo, com o espírito que é preciso vencer e ser como um “branco” a confusão passa a invadir a inteligência dos mesmos, pois a cultura do povo capitalista destoa de um grupo que aprende que não é preciso ter dinheiro para viver. Para aqueles que não foram tão agredidos culturalmente, a terra, a floresta e a comunidade são essenciais para a vida indígena.
Analisando as matérias e textos jornalísticos disponibilizados nas últimas semanas, percebe-se que há uma mobilização em “incluir digitalmente” o índio brasileiro. Com o projeto “Rede Povos da Floresta” do Comitê para Democratização da Informática (CDI) e da StarOne, uma das maiores empresas de soluções via satélite no Brasil, foram conectadas na rede mundial de computadores as aldeias Ashaninka e Yawanawa, localizadas no Acre, e a Sapucay, no Rio de Janeiro. A conexão é via satélite, sendo que os computadores são movidos pela energia solar. Além disso, os índios recebem um treinamento, se tornando responsáveis pelos equipamentos, pela tecnologia e pelo acesso à internet. A inclusão digital dos povos tem o apoio de ONGs indigenistas, como a Comissão Pró-Índio do Acre (
http://www.cpiacre.org.br). A meta é fazer com que eles tenham contato com outros grupos e divulguem sua cultura. Incluir digitalmente o índio brasileiro é algo que ainda causa muita polêmica, porém não se pode ignorar o fato que muitos apenas nasceram numa tribo e vivem misturados com um povo que, muitas vezes, não conhece e ignora sua cultura. Os nascidos e jogados num lugar diferente acabam incorporando o modo de ser e de viver do outro – mesmo que lhe seja estranho, e assim transforma-se num índio pós-moderno que ainda tem suas raízes, mas quer viver como os que lhe conquistaram e dizimaram seus familiares. Se, alguns já não podem mais manter a cultura de seus antepassados, uma vez que têm uma identidade mista, então que estes, pelo menos, sejam inseridos como cidadãos que têm direitos e deveres como um outro qualquer da sociedade brasileira. A terra, independente de colonização, é um direito que tenta resgatar um pouco da dignidade roubada, porém a Internet somente deve ser dada se estes realmente quiserem, pois no mundo virtual a realidade mistura todos e acaba mexendo na identidade de seus navegantes. por Profª Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo SETE PONTOS


http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/8/indios.htm

Voltando à baila

Não deixe de ler os vários textos deste link:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/brasileirosrepatriados/

Olhem estes links

O primeiro é fundamental.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Globaliza%C3%A7%C3%A3o

Educar para uma civilização planetária

Ubiratan D’Ambrosio *

Este é um roteiro para estimular e orientar as reflexões que farei sobre a possibilidade de uma visão humanística da educação reflexiva, conciliando o que chamamos as ciências exatas e a tecnologia com o que costumamos chamar ciências humanas. Como fruto de uma excessiva especialização e um certo deslumbramento com os assombrosos avanços das ciências e da tecnologia, criou-se a imagem de duas culturas: as ciências e tecnologias e as humanidades. Essa dicotomia é falsa e a sobrevivência da civilização no planeta Terra depende de reconhecer esse equívoco.

Cenários sócio-político-econômicos para o século

Um século é um período longo. No decorrer deste século deve haver o surgimento de uma nova ordem social, política e econômica. Estamos vivendo esse processo, embora muitas vezes se tenha a impressão de ser impossível mudar.

É evidente a fragilidade da atual organização da sociedade, na qual os excluídos logo serão a maioria da população. É necessário reverter o quadro, indo em direção à não-existência de excluídos. Em outros tempos, o confinamento e a eliminação eram as práticas para lidar com a presença incômoda de indesejáveis. Hoje, essas soluções são impraticáveis e as sociedades deverão evoluir para permitir que todos se beneficiem da civilização moderna. Muitos dizem que sou um otimista ingênuo. Há indicadores dessa tendência. A análise da história da humanidade mostra a irreversibilidade dessa tendência, embora esse não seja um processo linear. Há altos e baixos. Sem dúvida, estamos vivendo um momento de baixa. Mas essa análise não pode ser feita num período curto de tempo.

Sobre a educação

O sistema político funciona ancorado em duas bases: legal (Constituição, leis, códigos, normas, regulamentos e semelhantes) e representativo (Executivo eleito, parlamentares eleitos e, cada vez mais, cargos burocrático-administrativos preenchidos por eleição ou concurso – que é uma variante de eleição). Os resultados nesse processo de escolha para a gestão da sociedade dependem, em grande parte, de educação.

A educação atual está tendo como grandes objetivos a inclusão das populações no mercado de consumo e alguns indivíduos, selecionados, no setor de produção. Surgem marginais e excluídos, graças à ineficiência da educação. Desses marginais e excluídos, que crescem em número, surgirão os elementos capazes de mudar a sociedade. O progresso “corre por fora”, a reação se organiza no sistema.

Sobre a economia

A economia baseada no capital e no sistema de produção capitalista só pode prosseguir com melhoria de poder aquisitivo por maior número de indivíduos. O capital, que cresce baseado num sistema de juros, acarreta má distribuição de riquezas. A produção, que com o desenvolvimento tecnológico aumenta e ao mesmo tempo gera desemprego, gera uma contradição insustentável entre emprego e salário. Indicadores dessa contradição são os chamados salário-desemprego, renda mínima e as permanentes argumentações a favor do aumento de salário-mínimo como necessário para aumentar o poder aquisitivo. Simplesmente, o aumento da produção não pode se dar sem aumento de consumo. Em outras palavras, sem aumento de poder aquisitivo e de capacidade de consumir, o capitalismo não se sustenta. Salário está diretamente ligado a poder aquisitivo. Educação está diretamente ligada à vontade e à capacidade de consumir.

A questão maior a ser resolvida é: “combinar menos horas de trabalho com mais empregos e maior poder aquisitivo”. As teorias econômicas conhecidas são incapazes de lidar com essas contradições. Indicadores dessa incapacidade são os desencontros e desmandos de propostas de escolas econômicas diferentes. Uma nova economia se faz necessária. Provavelmente substituindo capital por produção participativa.

O futuro

Em 1993 foi criado o Instituto de Estudos do Futuro, como resultado de um grande evento internacional “Educação do Futuro/Educação para a Paz” realizado em 1992 no Memorial da América Latina, em São Paulo. A Comissão Organizadora decidiu, após o evento, manter-se ativada, analisando e fazendo avançar as idéias e propostas ali apresentadas. A forma de se manter ativada foi a criação de um Instituto, sem sede permanente, sem quadros permanentes, sem fins lucrativos, aberto a todas as posições ou opiniões expressas em caráter pessoal, jamais preocupado em algo que representa consenso, exceto o fato de todas as posições e opiniões terem como objetivo atingir paz para a humanidade, paz em todas as suas dimensões: paz interior, paz social, paz ambiental e paz militar. Pretende-se agir como a consciência daqueles que têm poder de decisão.

Não há como propor um modelo substitutivo dos modelos vigentes, em qualquer área. É possível procurar, num enfoque transdisciplinar, entender a condição humana, as condições da sociedade e da economia, sugerindo medidas para atingir a paz total, nas suas dimensões cósmica, planetária, social e individual. Acredito na possibilidade de um futuro com dignidade para toda a humanidade.

As mudanças profundas são o resultado de um processo. Não há mais possibilidades de grandes revoluções. Os meios de informação, de comunicação, de transporte, isto é, a globalização efetiva, tornam inviável uma revolução radical. Além do que revolução significa uma substituição de poder e, como a história nos ensina, o novo poder entra no mesmo comportamento. O poder, no sentido tradicional, é inviável na globalização. A transição para um novo modelo, na linha daquele sugerido acima, está ocorrendo. Há evidentes indicadores dessa transição. É uma transição lenta. Num momento avança um pouco, há um progresso, logo vem a reação e há um regresso. Mas o regresso nunca elimina todos os ganhos do progresso. O saldo é positivo e esse saldo, acumulado, é o que define o novo cenário. A transformação é permanente. Aqueles que têm poder de decisão deveriam ser capazes de antecipar o que será o saldo residual inevitável, isto é, o novo cenário, e incorporar esse novo na sua prática de hoje. Em outras palavras, perceber o futuro. É nisso que os estudos do futuro, como uma especialidade acadêmica, pode ajudar. É ingênuo o líder (político, dirigente, educador) que não busca essa ajuda.

A depredação do hábitat

Há inúmeros estudos técnicos sobre a possibilidade de reversão do quadro de degradação e destruição ambiental que estamos vivendo. Mas os processos, embora tecnicamente conhecidos e relativamente simples, são longos, mais que o período que os torna atrativos para os políticos. Como dependem de decisão política, esses processos não são deslanchados. Mas serão inevitáveis ações ambientais decisivas. Por exemplo, a contradição entre a qualidade e suntuosidade dos edifícios que estão sendo construídos nas marginais torna intolerável o convívio das empresas ali instaladas com o rio poluído. Terá que ser resolvido. Ao se resolver isso, estará sendo encaminhada a solução dos problemas que afetam as populações marginais nas cercanias do rio. O empecilho é uma legislação arcaica, um Judiciário lento e inoperante, e quadros políticos muito vulneráveis.

Haverá condições de evitar a catástrofe? Acredito que sim e estamos próximos à conjugação de interesses da economia com o fortalecimento dos poderes públicos, o que tornará possível corrigir o quadro atual. O caminho mais seguro continua sendo a educação. Mas obviamente uma outra educação, de caráter transdisciplinar, objetivando criatividade e crítica. Quando falo em educação, estou me referindo à educação de crianças, jovens e adultos, incluindo daqueles já em posição de decisão. Nessa educação, tanto de crianças como de jovens e adultos, o papel da mídia é fundamental.

A ciência e os cientistas estão ainda presos aos modelos cartesianos e newtonianos, já desgastados e evidentemente incapazes de lidar com a complexidade do mundo moderno. Há um grande progresso com novos estudos no mundo científico, que surgiram na última metade do século XX, sob denominações as mais diversas: teoria das catástrofes, teoria do caos, teoria de sistemas, complexidade, transdisciplinaridade. Aos poucos, essas teorias vão se incorporando ao mundo acadêmico. É o progresso. A reação se organiza e cientistas tradicionais tentam barrar esses avanços. É o regresso. Mas, como eu disse acima, o saldo é positivo, e se notam grandes transformações no mundo acadêmico e escolar. E, como conseqüência, o cotidiano, as empresas e os sistemas de produção vão avançando com relação à imobilidade e à reação do mundo acadêmico.

Ainda sobre a educação

Um indicador da inocuidade das reações e protestos do mundo acadêmico e dos setores mais conservadores é a grande expansão dos sistemas privados de educação, que prosperam porque respondem mais rapidamente às demandas do mundo atual, sobretudo respondendo às necessidades dos setores empresarial e de produção. Sobretudo na educação superior, o discurso dominante, de uma qualidade arcaica, vai se esvaziando. Parece intolerável o convívio do mundo fora da escola e do mundo escolar. O exemplo dado acima, de poluição de rios, serve também para descrever os problemas da educação. Embora sabendo o que deve ser feito, o processo é longo, mais que o período atrativo para políticos. O apego ao tradicional se manifesta, sobretudo, nos mecanismos de credenciamento e de avaliações (“provões”) alimentados pelo Ministério de Educação. São mecanismos arcaicos e insustentáveis que, além de retardar o progresso, dão uma aura, falsificadora, de seriedade no lidar com os problemas educacionais.

O salto de conhecimento para o qual o homem está se preparando para dar, ainda que inconscientemente, é resultado de toda a sua evolução biológica e intelectual.

A evolução biológica e intelectual continua. Comportamentos e conhecimentos estão em permanente evolução e, como não pode deixar de ser, são contextualizados, inseridos na totalidade em que estamos imersos. Hoje dispomos de poderosíssimos instrumentos materiais e intelectuais para captar informações de uma vastíssima porção da realidade, processar essa informação e compartilhar o resultado desse processamento praticamente com toda a humanidade. Hoje cada indivíduo pode compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos com um número surpreendente de outros indivíduos espalhados pelo planeta. Esse número deve crescer, chegando eventualmente a atingir toda a humanidade. Inconscientemente, estamos incorporando esse compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos na nossa evolução biológica e intelectual. Estamos, inconscientemente, chegando à civilização planetária.

Inúmeras evidências nos são dadas pela história e servem de base para minhas críticas e observações sobre o presente. A análise do passado serve de apoio para minhas reflexões otimistas sobre o futuro.

NOTAS:

* Professor Emérito da UNICAMP.

Leia e faça sua dissertação. É preciso extrair trechos deste texto e citá-los.

De início, parece-nos oportuno delimitar o cerne de nossa explanação, e neste aspecto, é não só oportuno, mas também bastante coerente, demonstrar que estaremos partindo de uma impositiva primeira complexidade, que se perfaz na evidência de que uma proposta dissertativa sobre a “corrupção ou corrução”, forçosamente nos reporta a uma observação do elemento humano sob uma ótica dual: ação-reação, pois, o homem é, num só tempo, agente e objeto desta decomposição que contrafaz seu caráter.

Conceitualmente, a corrupção pode ser entendida como atentado ou transgressão às normas, princípios e valores, tantos os jurídicos quanto os sociais. Em verdade, retrata uma violação mediata ou imediata ao organismo como um todo, configurando-se sempre em uma lesão (delito jurídico ? vício ou falta moral). Retrata uma conduta gravosa, independentemente de sua ordem: social, econômica ou político-estatal.

Bárbara Barris White, docente da Universidade de Oxford, define a corrupção atribuindo aos seus efeitos uma proporção abrangente; assim dizendo: “A corrupção não se restringe ao suborno, sem que se estenda à invasão fiscal, à exploração do trabalho, e distorça a ética que deve reger uma sociedade”. [1] (tradução nossa)

Assim, entendida como algo inserto na órbita da natureza humana, e, aqui não trataremos de questionar, argumentar ou refutar a existência ou não de uma peculiar natureza humana, daí porque, aceitaremos como incontestável sua existência, ou, até mesmo sua sobrevivência ante a interatividade cultural. Assim, a marcha de nosso pensamento filosófico prossegue, e nesta trajetória tentaremos aclarar a concepção do que é; qual sua origem e causa; como se revela; e ainda, de que forma a “corrupção” transforma o homem.

Em sua representação denotativa, a corruptibilidade evidencia algo corrompido, desmoralizado, desacreditado, podre, estragado, pervertido, desnaturado, ou ainda, decomposto. Novamente aqui, ao adentrarmos à análise semântica dos verbos transitivos, em tempo particípio e adjetivos “pejorativos” que descrevem a literalidade da palavra corrupção; nos deparamos, uma vez mais, com caráter dúplice da questão, porque todos estes signos revelam ao mesmo tempo “ação-processo”, donde saltam percepção e dedução lógicas: o corrupto dilacera com os objetivos, interesses e valores sócio-culturais, e em contrapartida, faz ruir em si mesmo a estrutura edificada de uma unidade social, de um ser participativo e elementar à consciência coletiva.

Em face destas constatações primeiras, ou, porque não dizer, primárias, a partir das quais trataremos de discorrer sobre o que corrompe o homem.

Partindo do ano 410 da Era Cristã, encontramos na narrativa do teólogo e filósofo Santo Agostinho, a expressão: “Dentro de cada homem há uma guerra civil”. Assim, em sua obra, Santo Agostinho pontua a necessidade de que o homem socializado possua um temor reverencial, o que por ele foi denominado como: “virtude civil”, que nada mais é, senão um sentimento humano voltado a Deus e, por ele apontado como o ingrediente basilar do caráter, ou seja, o que leva o homem à não “decair” e a afastar-se dos três maiores pecados: ânsia por dinheiro e bens materiais; desejo [2] de poder e o desejo sexual. Santo Agostinho nos fala em pecados, todavia, não é de suma importância o modo como que nomeamos a fraqueza do caráter humano: pecado, paixão, vício ou hábito, quando sua manifestação é que se impõe relevante.O mal generalizado que atinge a sociedade é que deve ser considerado em sua integralidade.

Distante de Santo Agostinho cronologicamente, porém, tão próximo no que tange à observação da natureza humana, está Kant. Em “Idea for a General History, Kant compara: ambição, desejo de Poder e inveja aos três maiores flagelos da humanidade ? guerra, fome e peste. Do mesmo modo, Schwantes reconhece a fragilidade do caráter humano; sua tendência nata à deformação e, atribui à crise moral o sintoma mais flagrante da ausência generalizada de caráter. E afirma:

São parasitos os que exploram a sociedade para benefício próprio, os que vivem à custa do Estado sem nada produzir, os que vegetam em lastimosa ociosidade. Tais indivíduos são como células cancerosas que roubam a vitalidade do organismo social. [3]

Por seu turno, Jean-Jacques Rousseau, munido de sua antropologia filosófica, afirmou: “Homem nasce bom e sem vícios, porém, a sociedade civilizada o corrompe”. Talvez, não possa ser tomada como uma assertiva válida esta que nos é colocada por Rousseau, ao considerarmos que o seu modelo de homem ideal é aquele em estado “in natura”, ou seja, primitivo e desconhecedor das desigualdades sociais; alheio à razão, assim eqüidistante de todos os vícios. Contudo, ele o descreve como detentor de algo que foi denominado como “sentimento de piedade” diante do sofrimento alheio. Todavia, ao nosso ver, tal estágio humano não configura que haja uma falta de agressividade, ou então, ausência de maldade no contexto da natureza humana, e sim uma apatia cultivada pela ignorância selvagem. Sob tal aspecto, comungamos da exposição de Lúcia Santaella, naquela em que define a nossa existência sígnica, como algo que está necessariamente pautado pelo agir, reagir, interagir, e fazer, que são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo, a interação dialógica, ao nível da ação, do homem com sua historicidade. [4] Ou seja, houve para a humanidade um instante histórico e preciso, em que o homem deixou de ser simplesmente um primata e tornou-se o “Homo Sapiens”.

Diferentemente de Rousseau, Thomas Hobbes em “Leviatã”, publicado em 1650, nos sugere uma idéia antagônica, descreve um ser humano que, por natureza, é mau, sendo controlado (freado em suas paixões e vícios) por meio do medo institucionalizado, imposto pela sociedade em que está inserido. Decerto, Hobbes esboça-nos uma natureza humana feroz e destrutiva (“homo homini lupus ) [5], afastada do “valor social”, aquém do bem comum.

Mais tarde, Edgar Morin decifra este processo de hominização [6], traçando uma a uma as etapas de seu desenvolvimento, e nos leva a aportar em uma tensa realidade, a de que a “igualdade” social, está repleta de desigualdades, umas são de fato, outras de direito, porém, ambas geram intolerâncias, antipatias, brigas, disputas. Morin sugere que das desigualdades e distinções nasce o poder político, que é a existência de uma dominação pré-constituída, que posteriormente, viria ser o Estado. Assim, através da obra de Morin, traçamos um paralelo com o Estado Moderno, de forma que, tal e qual foi no período da “hominização”, a vida social requer organização e cooperação de todos, contudo, o modelo coletivista onde tudo é bem de todos, possui um sistema de repartição de riquezas “mais ou menos” igualitários, com vantagem, sem dúvida, em favor do chefe. [7]

Necessariamente, para nós, a corrupção é um processo dicotômico: intrínseco e extrínseco, pois, inicia-se no caráter e se exterioriza na sociedade, tornando-se uma patologia cultural, incidente e inafastável. Rui Barbosa ilustra a questão da corrupção política, primeiramente, aponta a política como:“ciência cujo único dogma inalterável é o dos princípios furta-cores, com um matiz para os nossos amigos e outro, oposto, para aqueles que não o são”. [8] E nos fala do homem corrupto, como aquele que põe em senzala sua dignidade e caráter, todavia, ao mesmo passo, o descreve como um ser servil e confinado, longe da luz, do vento e oxigênio que tudo limpam e regeneram. Por fim, caracteriza a corruptibilidade como um círculo vicioso, de fluxo incessante; assim nos diz:

Cada um dos que vão chegando, se aduba dos outros; com eles se cruza e recruza, novas espécies lhe surgem do coito sutil; há hibridação em hibridação, de multiplicação em multiplicação, um mundo incalculável de malignidades se enxameia […] os antigos colaboram com os recentes; do ajuntamento de uns e outros se vem gerando novos, pelo concurso destes com aqueles, crescem ao infinito, em número, em diversidade, em virulência aos contágios, as infecções, as pestes”. [9]

De posse das considerações traçadas por Rui Barbosa, somos capazes de fazer uma ilação espontânea, a corrupção sugere a pré-existência de um “Poder”. O Poder possui muitas faces, e estas suas faces não descaracterizam suas feições objetivas e obstinadas, que na maioria das vezes, resulta sempre numa tendência de acúmulo de poderio econômico. Assim, vemos que o Poder se estabelece pela necessidade basilar de comando de uma sociedade pré-estabelecida, no entanto, não se restringe a tal liderança, o mando pelo mando não faz sentido, e por isto, tem objetivos mais extensos, ou seja, de angariar “riquezas”. Sim, a história da humanidade nos tem demonstrado que desde o início das civilizações, durante todo o escorço do tempo, que o alvo do poder é atingir substancialidade patrimonial para aquele que o detém.

Segundo Federico Trillo, em sua obra: “El poder político en los dramas de Shakespeare” (1999), transmite a idéia de que Shakespeare em seus dramas sempre faz a narrativa do Poder como algo que atrae, que subjuga e provoca, noutras palavras, como uma força maldita. E, acrescenta, que nos dramas Shakespearianos o Poder tem a mesma característica e objetivo da Política. A obra de Shakespeare demonstra esta “paixão” como um lado sombrio do homem. Pois, o Poder, explica Trillo:

É uma paixão reveladora de todas as sombras de um caráter e capaz, com o tempo de evidenciar o resto dos caracteres. Assim o veria há dois mil e quinhentos anos a Antígona de Sófocles, quando considerava impossível conhecer a alma, os sentimentos e o pensamento de nenhum homem até que não se o tenha visto na aplicação das leis e no exercício do poder”. [10] (tradução nossa)

De tal maneira, em todas e por todas as formas, a primeira compreensão pertinente, é a de que a sociedade não sobrevive sem o Estado, e o Estado não permanece sem governo, e ainda, que este governo tem necessariamente que ter autoridade e, que esta autoridade se funda em Poder. Lembramo-nos que estes foram os preceitos e prescrições de Maquiavel em o “Príncipe”, como conquistar, manter e ampliar o poder.

Mas, nos salta de imediato uma indagação: O que realmente corrompe o homem?

Cremos que esta perquirição requeira, a priori, uma outra análise: A do caráter humano. O que é o caráter? Caráter significa o conjunto de traços que singularizam o ser humano através das formas de seu comportamento. É o que torna individual o seu modo de ser. Segundo Theódule-Armand Ribot, pode ser definido como “conjunto de qualidades afetivas e ativas que distinguem um homem de outro”. No mesmo sentido, John Dewey nos ensina: “Um homem pode denunciar-se em um olhar ou em gesto. O caráter pode ser lido por meio dos atos do indivíduo”. [11] Por conta disto, caráter se revela como a interpretação dos hábitos de um indivíduo, é também o lado voluntário e sentimental de sua personalidade. Conforme Kretschmer, o caráter revela as predisposições hereditárias desenvolvidas em interatividade com o mundo exterior.

Desta forma, nos parece lógico que em nossa questão nuclear, a corrupção seja uma manifestação inata do caráter individual do homem. Sendo assim, ele não é corrompido, ao contrário, é quem corrompe. Todavia, percebemos claramente que corromper ou ser corrompido envolve um poder de decisão, há nesta “ação”, independentemente de ser ela ativa ou passiva, um antecedente de escolha, ou seja, um livre arbítrio. O homem é conduzido pelo que pensa, e seus atos racionais ou irracionais são impulsionados e geram um “agir” no mudo fático, e é também conduzido por esta singularidade que norteia seus pensamentos.

Segundo Mondin existe singularidade em todas as expressões do agir humano, existe também uma vontade interna dirigida à transcendência, noutras palavras, já não está voltada somente à cognição do exterior, mas sim, para o universo cognoscível do interior, para o próprio homem; este, em tudo o que faz, diz, pensa, quer, deseja, demonstra sempre uma tentativa de superar a si mesmo. [12]

Com estas palavras de Mondin, correlacionamos o agir humano, com a conduta adequada, politicamente correta, socialmente benéfica, e desta feita, atingimos o hemisfério da ética. Assim, imbuídos pela certeza de que a índole humana pode ser decomposta ou deformada, precisamos, socialmente, possuir um mecanismo de contenção destas paixões destrutivas e virulentas. Devemos transformá-las em um valor social produtivo. Shaftesbury nos orienta sob esta questão:

Se a inclinação para [a aquisição de riqueza] for modesta e em grau razoável; se não ocasionar nenhuma busca apaixonada ? não há nada nesse caso que não seja compatível com a virtude, e mesmo adequado e benéfico à sociedade. Mas se com o tempo transforma-se numa real “paixão”, o dano e o mal que faz ao público não são maior do que aquele que cria para a própria pessoa”. [13]

François La Rochefoucauld, em uma dissecação pormenorizada da natureza humana, revelou que é preciso mais que uma atitude de repreensão ou recriminação às paixões humanas, é preciso e necessário mobilizá-las. Conquanto, nos diz que a tarefa de controlar, pela força, se necessário, as piores manifestações e as mais perigosas conseqüências das paixões, é incumbência do Estado. [14] Porém, como viabilizar o propósito de La Rochefoucauld, quando o celeiro das paixões, dos interesses privados, das vantagens e privilégios pessoais é o próprio Estado?

Notadamente, a corrupção é um mal sócio-cultural, o que não significa que estejamos fadados à sua permanência, tampouco, que não possamos extirpá-lo. Concluímos, apontando a moralidade e transparência política como os dois caminhos a ser encontrados e percorridos. Porém, só uma sociedade consciente de seus direitos de cidadania, ciente de seu poder político e com aprimorado poder de escolha, conseguirá deitar passos nesse sentido.

http://www.direitonet.com.br/artigos/x/22/23/2223/