Aula de redação

O assunto é Cuba: ainda não há proposta

Posted on: abril 29, 2008

“Esqueça tudo que você já ouviu falar de Cuba. Especialmente, se tiver vindo da Rede Globo, Revista Veja, e outros veículos da grande imprensa.

Estive lá, em março, como convidada da 7º Muestra de Nuevos Realizadores, organizada pelo Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC), para exibir meu curta-metragem, Rapsódia do Absurdo, na seção internacional. O que vi apenas confirma a manipulação de sempre da informação.

Se a América Latina sempre foi um tema complicado para a grande imprensa, com sua constante desqualificação como espaço político e de idéias, imagine Cuba. Caso houvesse descentralização da informação, você ficaria surpreso em saber que a saída de Fidel Castro, por exemplo, repercutiu muito mais fora do que dentro de Cuba, onde a população vive seu processo político sem a histeria que vimos nos noticiários daqui.

Não se fala em retorno ao capitalismo e tentar entender Cuba a partir desse olhar é um erro. A opção pelo socialismo é firme. Fala-se em aperfeiçoá-lo a partir da própria experiência com as questões que preocupam o povo: a alimentação, o transporte, a moradia, o custo de vida e a liberdade, “problemas que existem em todas as partes do mundo,” dizem os cubanos ao avaliar sua realidade. E existem os inegáveis avanços no campo da educação, saúde e segurança, com índice de violência próximo de zero.

Em relação ao novo presidente, Raúl Castro, nada de grandes expectativas. O tempo dirá, afirmam.

Porém o mais interessante está acontecendo na área do audiovisual. Cuba não está e nem se sente fora do mundo. Cuba não é outro planeta como muita gente acredita.

Nos últimos anos, houve uma explosão da produção independente realizada por uma nova geração de cineastas, artistas e videomakers, facilitada pelas novas tecnologias da comunicação. Além de revelar uma geração de jovens disposta a debater de forma aberta questões como pobreza, homossexualismo e até prostituição, entendidas como universais; o fenômeno também está estimulando a discussão de novas relações de produção no seio da indústria cinematográfica cubana.

“Muitos têm dito que a globalização está anulando as identidades locais, mas o que vemos em Cuba é um fenômeno muito interessante. Os cubanos estão enfrentando um mundo cada vez mais globalizado em termos financeiros, tecnológicos e comportamentais, com a consciência de manter sua cultura”, afirma a professora norte-americana Ann Marie Stock, especialista em Cinema Cubano e América Latina, do College of William & Mary, em Williamsburg (Virginia).

Depois de ter lançado seu primeiro livro – Framing Latin American Cinema: Contemporary Critical Perspectives (edição esgotada) – sobre as perspectivas contemporâneas do cinemalatino-americano, ela está escrevendo A Location in Cuba (Uma Locação em Cuba) com a análise da produção audiovisual cubana desde 1990 até os dias atuais.

Com a crise econômica do cinema cubano, o ICAIC, a primeira instituição cultural criada pela Revolução Socialista, passou a legitimar a produção independente a partir da criação da Muestra de Nuevos Realizadores em 2000, para dar-lhe visibilidade e conectar-se com a nova geração de cineastas cubanos.

Na sua última edição, 35 curtas e longas de ficção trataram de temas como diversidade, imigração, sexualidade, vida urbana, transformação social, solidão, conflitos familiares, entre outros temas. 61 documentários falaram sobre a marginalização de desempregados, assentamentos ilegais, meio-ambiente, travestis, coveiros, grafiteiros cubanos, censura e outras estórias sobre gente comum e nomes da arte cubana. Outras 12 animações, de excelente qualidade, algumas com influência surrealista, trouxeram outros universos, poéticos e irreverentes, não menos críticos.

Muitos dos desafios enfrentados por esses jovens artistas são exatamente iguais aos nossos: a circulação do produto audiovisual independente e a velha discussão em torno da parceria com a televisão, o controle da mídia e as amplas possibilidades geradas pela internet.

“Muita gente fora de Cuba pensa que estamos iguais ao que éramos em 1959. Não é assim. Nossa realidade é muito complexa e esses jovens realizadores foram tratando de mergulhar cada vez mais dentro dela”, explica o cineasta Jorge Luis Sánchez, diretor do premiado longa-metragem El Benny e presidente da 7º Muestra de Nuevos Realizadores.

E acrescenta: “A arte é positiva para a sociedade, pois mobiliza, faz pensar. Acredito que a sociedade cubana pode se alimentar dessa força presente em alguns filmes, que mobilizam o espectador e transmitem a aspiração dos fundadores do Novo Cine Latinoamericano: o cinema é um ato liberalizador, um ato de mobilização e um ato de criar um espectador ativo.”

Além disso, existem experiências como a Televisão Serrana, um projeto comunitário com camponeses da Sierra Maestra, berço da Revolução, que produz documentários e programas sobre a realidade das montanhas. Exibidos em equipamentos portáteis de forma itinerante, transportados até em mulas e cavalos, seu conteúdo é sempre discutido ao final das sessões. A iniciativa promoveu transformações no desenvolvimento cultural e econômico da região. A comunidade participa de todas as etapas de produção. Esse ano, três de seus documentários – Armonía de Dos, Burlar el Silencio e Variaciones de la Primavera – foram exibidos na 7º Muestra do ICAIC.

“A criação da TV Serrana tem a ver com um fato existente em todos os países. A televisão mostra o que acontece nos grandes centros urbanos, principalmente nas capitais. É como se o resto não existisse. Mas as culturas locais, os camponeses das montanhas, o homem do campo, precisam estar presentes para compor a identidade nacional. Assim, a TV Serrana está reafirmando os valores culturais dessa comunidade, revelando a importância de suas idéias e sentimentos”, avalia o cineasta Daniel Diez, fundador da TV Serrana.

Apenas isso já é suficiente para revelar que existe muito mais entre o céu e a terra dessa controvertida ilha em relação àquilo que insiste em mostrar a nossa vã filosofia midiática.

A seguir, veja as entrevistas concedidas por Jorge Luis Sánchez, presidente da 7º Muestra, e Daniel Diez, fundador e idealizador da TV Serrana.

JORGE LUIS SÁNCHEZ

Por que o ICAIC criou a mostra?
O ICAIC criou essa mostra em 2000 a partir de uma crise econômica muito grande que houve em Cuba, nos anos 90. A produção da indústria cinematográfica estancou. Com o surgimento de novos cineastas, gente jovem, o ICAIC precisava reconectar-se com essas novas gerações de cineastas cubanos, formadas sobretudo por alunos da Escola Internacional de Cine, que estão fazendo um cinema independente da indústria. Portanto, desenhamos um espaço para que eles pudessem mostrar sua produção independente. E assim, o ICAIC podia saber onde estavam os novos talentos.

Qual a diferença da primeira mostra (2000) para esta última em 2008?
Eu penso que há uma diferença qualitativa. Naquele tempo, a indústria não conhecia esses jovens. Agora, já se passou um tempo em que a mostra foi catalisando esse movimento de novos realizadores e eles foram progredindo. Por exemplo, Pavel Giroud, diretor de La Edad de la Peseta, é filho da mostra. Ele participou da primeira, e hoje já está fazendo seu segundo longa de ficção. Esse Pavel não é o mesmo que participou da primeira edição, foi revolucionando e aperfeiçoando seu conhecimento. Esse processo está acontecendo com todos eles, sobretudo porque a mostra também vai se tornando mais exigente e estimula um permanente crescimento profissional.

E o que aconteceu com os conteúdos, com os temas abordados por eles?
Acredito que os conteúdos foram ficando cada vez mais conectados com a realidade. A realidade cubana é palpitante, em movimento, uma realidade que muda permanentemente. O que passa é que muita gente fora de Cuba pensa que estamos iguais ao que éramos em 1959. Não é assim. A realidade cubana é muito complexa e esses jovens realizadores foram tratando de mergulhar cada vez mais dentro dela, trazendo para a tela a sua problematização. Pelos filmes exibidos na mostra, você vê que existe sempre o interesse de que Cuba e a sua problemática sejam um referencial permanente.

O acesso às novas tecnologias como câmeras digitais e ilhas de edição portáteis deu impulso a essa produção? Esse processo está impactando a sociedade cubana?
Acredito que sim. Acredito que a arte é positiva para a sociedade em geral para mobilizá-la, fazê-la pensar. E as obras mais importantes, os filmes realmente com categoria artística, serão capazes disso. Para mim, o mais importante é o surgimento de uma geração interessada nos problemas de seu país. Não estão escondendo a cabeça dentro de um buraco na terra. Isso é muito saudável. Não só essa geração, mas os cineastas cubanos, porque eles não são os únicos que fazem cinema em Cuba, contribuem para estabelecer uma sintonia, uma determinada dinâmica que, quase sempre é impulsionada pela juventude por causa de seu ímpeto, sua energia. Eu acredito que a sociedade cubana pode se alimentar dessa força presente em vários filmes, que mobilizam o espectador e transmitem a aspiração dos fundadores do Novo Cine Latinoamericano de que o cinema é um ato liberalizador, um ato de mobilização e um ato de criar um espectador ativo.

A mostra garante a liberdade de expressão sem restrição de conteúdos?
Aqui não há restrição de conteúdos. Cada um fala sobre o que quer e assume sua responsabilidade. Nessa mostra, você viu todo tipo de coisa, desde filmes sobre travestis até a censura. A única limitação existente é a qualidade, que o trabalho seja feito com arte. Se o realizador é capaz de fazer um documentário ou uma ficção que una o diálogo estético com a comunicação de determinada idéia, a mostra será o seu espaço com o foco sempre voltado para a juventude.

Nem o governo ou o partido interfere?
Você viu alguma interferência aqui? Não há. Quem dirige a mostra é o ICAIC, instituição responsável pelo desenvolvimento do cinema de Cuba, que me delegou a função de presidente da mostra. Faço e falo o que eu entendo, o que acredito ser importante para fortalecer o cinema e a identidade de Cuba, para ajudar meu país.

Como circulam esses filmes pelos país?
Essa é uma batalha permanente que o ICAIC precisa ganhar. Estamos buscando mais espaços. Depois da mostra, os premiados são exibidos de novo e alguns são vistos também na televisão. Mas o problema da distribuição do produto audiovisual independente não está resolvido aqui, assim como em várias partes do mundo.

Os últimos fatos políticos, como a saída de Fidel e a eleição de Raúl como novo presidente, terão influência na produção de cinema?
A mudança de governo em Cuba não afeta e nem irá produzir mudanças nessa área. Acredito que as mudanças que ocorrerão no cinema cubano serão ditadas pela realidade audiovisual de Cuba e do resto do mundo. A mudança de presidente não tem influência sobre isso. Existe um desafio que se coloca para o cinema cubano que é redimensionar sua liderança histórica, do ICAIC nesse caso, dentro da nova realidade do audiovisual. Hoje, você pode fazer um filme em sua casa se tiver uma boa ilha de edição e uma câmera digital. Então, o ICAIC está justamente repensando, está em processo de repensar as novas relações de produção, que terão que existir necessariamente. Mas essa reflexão começou antes da mudança de governo. A mostra foi criada em 2000 e é o primeiro sinal de que algo estava acontecendo no audiovisual cubano protagonizado pelos mais jovens e como isso podia ir instalando-se dentro da estrutura de produção do ICAIC, porque em um determinado momento, essa estrutura de produção se modificará, se tornará mais flexível. De repente, eu posso co-produzir com o ICAIC ou o ICAIC pode comprar produção independente. E foi isso que aconteceu, antes da mudança de governo. No ano passado, o ICAIC comprou os direitos de um longa independente. Ou seja, nós estamos refletindo a respeito de novas formas de produção, nas quais é muito saudável que a indústria se reconheça e vá mudando com o tempo. Isso não tem nada a ver com a mudança de governo. É a realidade que está operando essas mudanças e a realidade é mais forte que qualquer outra coisa.

DANIEL DIEZ

Como surgiu a idéia da Televisão Serrana?
O surgimento da Televisão Serrana está relacionado com uma realidade existente em todos os países. A televisão reflete o que se passa nos grandes centros urbanos, principalmente nas capitais e o resto é como se não existisse. E isso é um grande problema. Quando não somos capazes de refletir todos os elementos que compõem a cultura de um país, a cultura sofre. Isso também acontece em Cuba. Naquele momento, hoje já é diferente, a realidade era somente o que acontecia na cidade de Havana e em algumas outras províncias, o que acontecia nas suas capitais. E eu sempre disse que a cultura cubana estava sofrendo, porque os elementos culturais que estão nas montanhas, no campo, ou em outras comunidades, têm a necessidade de estar presentes na tela da TV para compor a nossa realidade. Por isso, sempre defini a Televisão Serrana fundamentalmente como um projeto cultural, que tem a ver com a reafirmação de um grupo social, que entende ser importante para a cultura do nosso país. E além disso, a comunidade é grande produtora de café na região serrana. O país precisa reconhecer essas pessoas como membros da comunidade.

Essa foi a idéia que tive em 1986 e me chamaram de louco, porque eu vivo aquí em Havana e para concretizar o projeto, teria que largar tudo e ir morar na montanha. Eu sempre estive convencido de que era fundamental viver na montanha. Não se tratava de chegar, filmar a comunidade e ir embora. Era e é preciso mergulhar na realidade daqueles camponeses, no seu modo de vida, descobrir como sonham, como sofrem, como se divertem, para poder realmente revelá-los. Bom, tudo se iniciou em 86, até que a UNESCO se enamorou do projeto porque não existem muitos como ele no mundo, não é? E então concederam uma ajuda econômica para a aquisição dos equipamentos. Eu já havia morado na Sierra Maestra. Filmava documentários, voltava para Havana e ia de novo, por uns 5 anos. Em 1961, fui da Brigada de Alfabetização “Conrado Benítez” e estive nas montanhas alfabetizando os camponeses. Então, esse é um lugar pelo qual tenho um grande afeto, um grande carinho.

O governo da província de Granma, região onde eu enxerguei a possibilidade de fazer uma televisão como esta, também colaborou com infra-estrutura e a Televisão Cubana cedeu uns especialistas para treinar os jovens selecionados. E lá fomos nós, um grupo inicial de quatro companheiros aqui de Havana, que fizeram testes de aptidão, porque é preciso ter uma aptidão e uma atitude tremenda para viver nas montanhas e suportar aquela vida difícil. Nós selecionamos um grupo de jovens que não tinha nenhuma vinculação com os meios de comunicação e isso me agradou muito, porque eles estavam livres dos vícios. Tratei de vincular essa experiência com a que tive no ICAIC ao lado de Santiago Álvarez por 17 anos, um dos grandes documentaristas da América Latina. E do mundo, diria eu. E esse processo de criação foi apreendido por eles, mas não bastava formá-los artísticamente ou tecnicamente. Eles precisavam ser formados para realizar o trabalho comunitário e participativo. Porque um trabalho pode ser comunitário e não ser participativo. E assim começamos em janeiro de 93. Em junho, Federico Mayor Zaragoza, presidente da UNESCO, veio fazer a inauguração oficial. Construímos várias cabanas em um ponto intermediário das montanhas, aí íamos filmar e voltávamos para a sede da televisão, onde morávamos, para editar. É assim até hoje. Foi formada uma comunidade audiovisual, uma comunidade de criação de um mundo audiovisual nas montanhas. Para isso, é preciso estar enamorado e a consequência é que a obra é muito mais sólida.

Como os camponeses encararam essa proposta quando vocês chegaram?
Os camponeses te observam e te analisam muito. São desconfiados. E principalmente, diante de um grupo de jovens muito livres, cabeludos. As moças andavam de bermuda. Eles ficaram imaginando quais seriam nossas intenções e se iríamos perturbá-los, mas isso durou até descobrirem que estávamos ali para fazer algo que tinha a ver com eles. A Televisão Serrana não é transmitida por antena. É trabalho comunitário realmente. Nós montamos em mulas, cavalos, às vezes jipes, e levamos a obra realizada até as comunidades para exibi-la. Após a exibição, há uma discussão de onde surgem novas idéias para outros materiais. E assim se concretiza a fórmula ideal de emissor-receptor, receptor-emissor: existe um ciclo de volta. Eu não acredito que a decisão a respeito dos conteúdos da exibição deva ficar nas mãos dos especialistas. É a comunidade que deve dizer o que quer ver. Por isso, a Televisão Serrana lhes pertence, porque eles decidem o que ver de sua realidade, de seu mundo. Ali se vêem a sua vaca, os seus animais, seus rios, suas casas, seus filhos, suas vidas, tudo está ali, é parte deles.

Até hoje não se transmite por antena?
Não há possibilidade de transmitir como televisão. Nós só transmitimos dessa maneira que adotamos. Porque a televisão emite, mas não recebe. Recebe à sua maneira, tem sua lei. Mas somente quando uma pessoa pode opinar sobre o que vê é que é participativo. Por isso, a Televisão Serrana é participativa. Então, essa forma de difundir suas obras nunca será abandonada. A televisão está encravada na montanha, entre outras montanhas, seriam necessários muitos repetidores para montar um transmissor ali. Da forma como fazemos, estamos mais em contato com as pessoas. Os criadores, realizadores, técnicos, diretores, editores não se separam dos espectadores e isso é o importante.

Como é a participação da comunidade no processo de produção?
Hoje, todas as pessoas que trabalham na TVS são da comunidade, funciona como se fosse uma casa grande com muitos moradores. Existem a equipe de criação, os que trabalham na cozinha, os que atendem as cabanas. Cada um tem sua tarefa de cuidar dos animais, das mulas, que são uma forma de transporte importante para nós, da água, dos equipamentos. Essa relação nos dá a garantia de que, realmente, estamos falando da comunidade, não se pensa em outra coisa.

Qual foi o impacto dessa experiência nos camponeses?
O impacto maior foi nos jovens. Nós criamos, além da TVS, um centro de cultura, onde se formaram grupos de teatro, grupos infantis de artes plásticas com pintores convidados, onde se realizam exposições em museus itinerantes, oficinas de fotografía para toda a comunidade. Isso transforma a comunidade em um espectador mais sábio, capaz de dar opiniões mais interessantes. O povo da Sierra Maestra é muito introvertido. Isso os ajudou a mudar, a ser mais abertos, a ter mais iniciativa, a se expressar mais. Eles têm um tom muito poético para dizer as coisas e isso também foi importante para nós, a atitude da comunidade com a natureza. A natureza ensina muito. É capaz de mostrar-lhe coisas que te acompanham por toda vida, basta olhar. Eu descobri na Sierra Maestra que eu tinha sombra. Quando eu caminhava pelas ruas de Havana, eu não tinha consciência da minha sombra. Na montanha, você caminha sozinho e descobre que atrás de você, ou ao seu lado, está a sua sombra: você tem uma sombra. Isso é importante, porque é parte de você. Se olhar para o céu, verá que está repleto de estrelas, coisa que não vê na cidade. Você está perto do rio, o arroio da serra. E assim, vivemos o dia-a-dia da montanha, muito perto da naturaza, de muita sinceridade e gente terna.Também criamos uma escola, o Centro de Estudos para Comunicação Comunitária. Formamos os jovens que vão trabalhar na TVS e os que ficam passam a integrar os Grupos Alternativos de Criação. A televisão funciona como grupo de criação, onde se discutem os projetos a realizar. Em cada município da província, temos esses grupos formados por jovens de outras profissões, mas que apresentam suas idéias em projetos para a TVS.

Houve algum tipo de interferência por ser um projeto de comunicação independente?
Na realidade, não. E a princípio, estávamos vinculados à UNESCO. É um projeto cultural, mas claro que também o fazemos critico. Certa vez, denunciamos a contaminação do rio e tivemos problemas com um funcionário do governo que não gostou do que falamos, mas isso acontece em toda parte. Também nos deparamos com alguns dirigentes que não acreditavam no projeto, mas por sorte, desapareceram a tempo e os novos dirigentes que os substituíram foram muito mais visionários e entendiam o significado do processo de criação que estávamos fazendo, o resgate cultural de uma zona importante do país. Mas sempre encontramos o que chamo de “Comissão Internacional de Obstáculo”, que existe em todo mundo, ramificada em comissões nacionais. É muito interessante porque seus membros não se conhecem, não organizam congressos, não elaboram estatutos, mas têm uma prática igual no mundo inteiro. Diante de um projeto novo: não pode, não recomendo, vamos ver mais tarde. Que bonito está, mas agora não tem dinheiro. Sempre não, não, não. É o Grupo Especial para o Obstáculo à Criação. Sempre existirão enquanto existir gente retrógrada no mundo. São gente manca, entende? Manca da cabeça. Mas ainda assim, não abro mão da Televisão Serrana com todos os seus problemas. Eles passam e a televisão continua, porque é um projeto de criação artística e de cultura para o país. É preciso defendê-la porque essa é a idéia fundamental de criação desse país: a defesa daqueles que nunca tiveram nada ou sempre tiveram muito pouco.

Como o projeto sobrevive hoje?
Ele está vinculado ao Instituto Cubano de Rádio e Televisão. Quando idealizei a TVS, eu trabalhava lá, mas sentia que podia avançar mais. Meu sonho é poder fazer muitas televisões serranas pelo país. Manter um projeto assim é muito difícil. Recebemos recursos para os salários da equipe e no mais, é muito amor. Agora mesmo, temos problemas com transporte, precisamos de peças, o dinheiro não aparece e temos que esperar. Mas sobretudo, 15 anos depois, a Televisão Serrana mantém o mesmo espírito de sua criação: uma televisão da montanha feita pelos homens da montanha. Temos que apoiá-la e produzir seus conteúdos com qualidade, respeitando os códigos da linguagem audiovisual para que possa ser vista pelo resto do país e do mundo. Quem vê nossos programas, imediatamente fica enamorado. E na minha opinião, isso tem que ver com o fundamental que é buscar a essência da realidade que você quer transmitir. Muitas obras permanecem só na superficie e não buscam o mais profundo.

A Sierra Maestra é uma região muito especial, não é?

Mágica. A Televisão Serrana está na zona que foi comandada por Che Guevara. Quando estava procurando pelo lugar para implantar o projeto, eu vivia com os camponeses e fazia reportagem para rádio. Era uma região muito isolada. A Revolução levou telefone e energia elétrica para as montanhas. Se não fosse isso, um projeto assim não seria possível. Além do difícil acesso, havia o Período Especial, mas apesar disso, começamos a trabalhar. Andávamos a pé ou em mulas e comíamos muito pouco. Havia muitos apagões elétricos e nossos horários de trabalho ficavam dependendo da energia. Se a energia chegava de madrugada, a gente se levantava para editar e carregar as baterias das câmeras. A TVS é uma experiencia única de comunidade audiovisual que promove o desenvolvimento cultural das comunidades de camponeses da montanha, contribuindo também para diminuir o êxodo. A Revolução deu oportunidade de estudo para os jovens camponeses. Antes eles não saíam da montanha. Nasciam ali e ficavam ali. Hoje, os jovens saem para estudar e não voltam mais. Isso tem gerado problemas na produção. A experiência tem revelado ao país o quanto as pequenas comunidades são importantes para a cultura e o desenvolvimento. Em outras sociedades, isso não importa, ninguém os reconhece como seres importantes para a produção e a cultura do país.Cláudia Nunes

http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed133/geral_cuba.asp

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