Aula de redação

“Plantados no chão”

Posted on: maio 5, 2008

Leia trechos da entrevista feita com a jornalista Natália Viana, dona do Blog “Plantados no Chão”.

Escreva um texto analisando o caso dos assassinatos políticos no Brasil.

Anote idéias, fatos. Seu texto precisa conter exemplos da coletânea.

“Como surgiu a idéia de lançar um livro com esta temática, de assassinatos políticos no Brasil?

O Plantados no Chão nasceu de uma proposta que os editores da Conrad me fizeram: vamos fazer um livro, uma espécie de lista dos casos de assassinatos políticos no Brasil hoje. Isso porque o Anderson Luís, presidente do Sintrafrios, sindicato de trabalhadores em Frios e Laticínios da baixada Fluminense, tinha acabado de ser assassinado e havia um sentimento de revolta que assassinatos assim, por conta da militância política, ainda acontecessem no Brasil tantos anos depois de derrubada a ditadura. Só que quando comecei a pesquisar, descobri que não havia tal levantamento, e o pior: não havia nem mesmo um conceito estabelecido de assassinato político contemporâneo. Muita gente que procurei falava imediatamente de casos de políticos assassinados, o que não é nem de longe a mesma coisa.”

“Porque você classificou estes casos como crimes políticos?

Para nós, sempre esteve claro que o assassinato político tem como raiz a ação política de um grupo, ou seja, um indivíduo é morto porque age politicamente em nome de um grupo. Adotamos o sentido de política usado pelo sociólogo Chico de Oliveira, que diz que “política é a reclamação das partes pelos que não têm parte”. Assim, a política, ou democracia, como prefiro chamar, é a disputa entre grupos dentro do Estado de Direito. Nesse sentido, o assassinato político de hoje em dia tem uma função praticamente oposto ao da ditadura. Se na época da ditadura a repressão era considerada necessária para manter o regime, hoje em dia o assassinato político é um golpe contra o atual regime, um golpe contra a democracia. Ou, como diz no prefácio do livro a jornalista Jan Rocha, que foi correspondente do Guardian e da BBC no Brasil, “A morte de um líder não é simplesmente a eliminação de uma pessoa inconveniente. mas um golpe contra a esperança. Contra o futuro”

“Como você vê, em termos gerais, o Brasil, como a oitava economia do mundo, uma democracia consolidada e, mesmo assim, ainda com números tão altos de assassinatos políticos principalmente no campo?

Basicamente, acho que o alto número de assassinatos políticos mostra que a nossa democracia ainda está no caminho da maturidade, estamos ainda no estágio em que atores políticos legítimos são vistos como criminosos e onde em muitas regiões disputas políticas ainda são resolvidas a bala. Em anos recentes, os movimentos sociais compreenderam o seu papel na sociedade, e estão reivindicando legitimidade e apoio dos poderes para agirem de acordo com o que são – atores políticos de pressão. De certo modo acho que o problema é que os poderes em geral – inclusive a mídia – demoram um pouco em perceber essa mudança. As pessoas ainda não perceberam que em muitos casos quem está forçando a aplicação da lei são os movimentos populares.”

“O que fazer, em sua visão, para combater a impunidade neste tipo de crime?

Olha, é um problema complexo que inclui várias instâncias e vários atores. Como jornalista, o que eu pude fazer foi chamar a atenção para o problema e tentar propor um debate para que se busquem soluções. Mas a pesquisa do livro me leva a crer que, para acabar com os assassinatos políticos é preciso, primeiro, que se reconheça e inclua os movimentos como atores políticos legítimos e importantes para o funcionamento da democracia. Os assassinatos de militantes só são possíveis em um contexto em que os líderes populares, organizações e movimentos sociais ainda podem ser taxados de baderneiros e criminosos. O primeiro passo seria esse.
Outra possibilidade que ainda não foi usada é a federalização dos casos, cuja possibilidade foi aprovada em 2004 para todos os crimes em que há grave violações de direitos humanos – todos os assassinatos de defensores de direitos humanos, poderiam de encaixar nessa lei. Só que o pedido de federalização tem que ser feito pelo procurador-geral da República, o que só foi feito em um caso desde a lei ter sido aprovada: no caso da Dorothy Stang, e foi negado pelo STJ. Federalizar os casos de assassinatos políticos poderia ser uma boa maneira de combater um problema sério nas justiças locais, onde a influência regional de muitos dos possíveis executores dos crimes, como fazendeiros, madeireiros e empresários pode perverter o rumo da justiça.”

” Porque estes casos foram escolhidos como emblemáticos?

Cada um dos seis casos relatados no livro foi selecionado por um motivo de modo que a reunião dos seis casos ilustrasse diferentes aspectos do problema. A escolha de Dorothy Stang foi óbvia pois, além da repercussão, e até por causa dela, foi um caso que andou rápido e de maneira exemplar na justiça. Para contrastar, achamos interessante relatar o massacre de Felisburgo, um episódio brutal em que o próprio fazendeiro, segundo testemunhas, entrou na terra ocupada para matar a sangue-frio um ex funcionário e outros sem-terra. A coisa ainda está parada principalmente no processo contra o próprio fazendeiro. Depois, achamos bom incluir também um caso envolvendo conflitos por terra indígena, que também são muitos dentro do quadro de violência por questão de terra. Aí encontrei o caso dos Xukuru, que aponta como a justiça repetidamente criminalizou esses indígenas ao longo dos anos, com vários Xukuru respondendo processos judiciais. Muito indígenas foram assassinados, mas há poucos assassinos punidos. Um dos assassinos dos jovens Josenilson e José Ademilson, em 2003, por exemplo, foi inocentado e o outro já está em liberdade depois de ter cumprido quatro anos de cadeia.”

http://www.conradeditora.com.br/plantados/


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