Aula de redação

Repatriação de estrangeiros

Posted on: maio 8, 2008

Nas últimas semanas, a deportação de brasileiros por parte dos países ditos desenvolvidos ganhou destaque na mídia nacional, especialmente por episódios do gênero registrados na Espanha. Ocorre, porém, que esse tipo de acontecimento é mais comum do que o noticiário costuma revelar. Todas as semanas, centenas de imigrantes ilegais são reconduzidos ao Brasil. Um aspecto comum à maioria deles é o sentimento de constrangimento e humilhação imposto pelos processos de banimento. “O brasileiro deixa o país feliz como Ulisses, mas retorna como Adão e Eva expulsos do paraíso”, compara Marcos Aurélio Barbai, que investigou o tema em sua tese de doutoramento, apresentada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

Pesquisador colheu depoimentos de 25 banidos

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o estudo de Marcos foi desenvolvido na área da análise de discurso. Ele colheu o depoimento de 25 brasileiros deportados. Para isso, trabalhou durante todo o mês de abril de 2005 na área restrita do desembarque internacional do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. “Negociei durante um mês com as autoridades aeroportuárias [Infraero, Polícia Federal e Receita Federal] para obter autorização para realizar as entrevistas”, conta o pesquisador. O objetivo central da pesquisa era entender a imigração clandestina e a deportação por meio daquilo que as pessoas trazem quando vivem essa situação. Foram ouvidos brasileiros vindos dos Estados Unidos, México, Inglaterra, Bélgica, França, Espanha, Itália e Japão.

Os temas mais comuns nas falas dos deportados, segundo Marcos, são o constrangimento e a humilhação. O processo de aviltamento, revela o pesquisador, tem início no momento da detenção e se estende até a chegada ao Brasil. O período decorrido entre uma ação e outra varia muito. A deportação de um imigrante ilegal por parte dos Estados Unidos, por exemplo, pode demorar até 120 dias. “Nesse meio tempo, a pessoa permanece presa e fica até mesmo proibida de manter contato com os familiares no Brasil”, afirma. Já os países europeus e o Japão costumam ser mais céleres. Normalmente, em poucos dias o imigrante indesejado é mandado de volta ao país de origem. “A maioria chega ao Brasil sem nada, sendo que muitos sequer têm o direito de tomar banho antes da viagem”, espanta-se.

Ao analisar o discurso dos brasileiros deportados, Marcos trabalhou de forma mais detida a questão da enunciação e do funcionamento dos pronomes, pois eles lhe mostravam “um corpo em colisão com espaço e com o si mesmo”. “Ao suspender sua vida no Brasil e seguir em busca de trabalho e condições para sobreviver, o sujeito migrante torna-se um intruso que precisa viver como um imperceptível no Estado Nacional em que se estabelece. Esse processo causa uma fratura e um desencontro consigo mesmo e com o espaço”, explica o autor da tese, que foi orientado pela professora Eni Orlandi.

Os relatos, prossegue Marcos, revelam como o imigrante clandestino, que até então era um sujeito que passava despercebido, finalmente emerge sob a força do jogo do poder. “A prisão tem a função de fazer o corpo aparecer. Dito de outra maneira, é o momento em que o corpo do sujeito é utilizado contra ele mesmo”. Em seguida, surge a humilhação propriamente dita, percebida pelos deportados como orgulho ferido e desrespeito humano. “Esses aspectos ficam muito claros na fala da maioria das pessoas entrevistadas”, reforça o autor da tese. No entender do pesquisador, os relatos também deixam patente uma das funções da lei, que nesse caso é dar sustentação jurídica ao aviltamento.

Continue aqui

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2008/ju394pag04.html

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