Aula de redação

Raça e Cultura, Gilberto Freire. Para estudar.

Posted on: maio 17, 2008

Este texto é só para estudar.

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RAÇA E CULTURA

Os estudos de sociologia e anthropologia social, ainda tão em começo, muito têm soffrido, não do contacto, que lhes é essencial, com a biologia, a genética, a psychologia, a hygiene, mas da intrusão de alguns biologos, de hygienistas, de sugenistas e até de simples clínicos no campo estrictamente sociologico e anthropologico. Entram ahi com a maior sem-cerimonia deste mundo; e dão-se ao luxo das generalizações mais afoita sobre os processos sociaes .

Até a terminologia dos anthropologistas sociaes e dos sociologos elles querem que seja não á desenvolvida por esses estudos mais proximos da vida do homem, mas a terminologia delles, com todo o seu terrivel ranço scientificista.

Dahi certa sociologia biologico-maniaca, que tem ido a exaggeros grotescos. Exaggeros derivados da tentativa de applicação dos resultados de experiencias, muitas vezes ainda na sua primeira phase, a factos sociaes e a problemas humanos cuja complexidade cultural os mysticos do laboratorio geralmente desprezam. Dahi o absurdo de muita generalização sobre raça e sobre hereditariedade, partindo não de anthropologistas nem de sociologos authenticos, mas de biologos como East, de eugenistas como Wiggam, desgarrados nas sciencias sociaes.

Mas são os próprios estudiosos de genética que contêm os excessos de tagarelice de parentes tão mal comportados: Jennings, que nega os taes “unit characters” em que se baseia todo o messianismo eugenico de East; Pearl, director do Instituto de Biologia da Universidade de Johns Hopkins, para quem phenomenos complexos e heterogeneo como a miseria, a prostituição, o crime, a loucura não se deixam explicar pelo mecanismo mendeliano, simplista e “inteiramente hypothetico; “Morgan, que se inclina a considerar genéticas varias differenças individuaes, mas que se sente sem base scientica para affirmar a superioridade ou a inferioridade genetica de raças ou povos inteiros. E ainda Myerson e Carlson.

Os resultados das pesquisas anthropologicas e sociologicas modernas, que dão relevo menor á raça, e maior ao meio ou á cultura – o criterio de Haddon, de Schmidt, de Boas, de Wissler, de Kroeber – não se chocam com os de nenhuma pesquisa seria de genetica, e sim com as generalizações, não já de genetica, mas de anthropologia e de sociologia, de desertores e até traidores de sua especialidade scientifica.

Até que ponto os traços indesejaveis do negro serão inatos? É a grande pergunta de Boas que nenhum laboratorio de genetica, de anthropologia physica ou de psychologia respondeu até hoje, offerecendo evidencias scientificas da inferioridade innata da raça preta. Não os offerece, ao meu vêr, o estudo historico e sociologico do colono africano do Brasil ou o do mulato brasileiro do ponto de vista da anthropologia physica já rehabilitados pelos estudos dos professores Roquette Pinto e Fróes da Fonseca, que foram os primeiros a quebrar o “tabú” da inferioridade do nosso homem de côr. Degradado pela sua condição de escravo, o africano há ainda assim reagiu contra as forças de inferiorização economica e social que o opprimiram em nosso paiz, contribuindo, elle e, em muitos casos, o seu descendente mulato ou cafuso, para a cultura nacional com valores estheticos dos mais ricos e com elementos moraes e materiaes nada inferiores aos recebidos do portugez e do indio. Contribuindo também – e notavelmente -para a beleza e o vigor physico do brasileiro.

Para o Sr. Azevedo Amaral se afigura impossivel – ou indesejavel? – a harmonização das tres culturas que formaram o Brasil, parecendo-lhe que a “lucta triangular” só terminará com a victoria de um dos elementos. Salienta a attitude do branco, que aqui não se impoz imperialisticamente. Perturba-o talvez, nesse ponto, a influencia remota de Gunplovicz. Influencia que se surpreende em certo trecho do seu artigo “O Brasil Africano”: “as raças, como todas as coisas no universo, não coexistem na harmonia da cordialidade, mas enfrentam-se na lucta perpetua com as suas phases de batalhar sanguinario e as pausas em que a crueldade victoriosa mantém os vencidos subjugados na escravidão. “Mas Gunplovicz, darwinista até a alma, era dos que identificavam raça com cultura; e via na lucta entre as raças, com a victoria da mais forte, uma condição de saúde e pujança social. Muito bom do imperialismo idealizado á custa dos exaggeros da biologia darwiniana.

O imperialismo occorreu na formação brasileira, mas o imperialismo meio molle, a attenuado pelo facto da colonização portugueza se ter operado com gente escassa e quasi sem mulheres brancas: crearam-se, assim, largas zonas de confraternização social a que o negro se viu admittido na pessoa doce e cheia de attractivos sexuaes da preta Mina. Dahi, principalmente, a maior approximação, entre nós, das tres raças e tambem das tres culturas que se foram interpenetrando longo, e tendendo para a harmonização e para o equilibrio. Mas não sem attrictos. Não sem o choque de antagonismos. Antagonismos de raça? Creio que principalmente de cultura. E, dentro dos antagonismos de cultura, a vermelhando-se mais do que nenhum outro motivo – os motivos economicos. Os motivos economicos de sempre. O povo explorador pretendendo justificar-se moral e intellectualmente da violencia contra o povo explorado, pela allegação de pretextos; outrora francamente mystico-religiosos, ethnicos, nacionalistas; hoje, ainda mysticos, mas disfarçados em scientificos – pureza de raça, eugenia, hygiene, civilização.

O ambiente de contemporização entre o conquistador branco e os povos de côr; a reciprocidade cultural ao lado da miscegenação, reciprocidade que se verifica pelo mais leve exame dos nossos complexos de cultura, quasi todos envolvendo elementos ou camadas de origens diversas – o complexo do milho, o do culto dos santos, o da palmeira – não deixou de soffrer perturbações. Turvaram-n’o preconceitos de branquidade que aqui existiram, não só nos termos coloniaes como no Imperio. Não tão forte como na América Inglesa, é certo: porém, poderosos bastante para se fazerem sentir em restricções brilhantes. Os santos padres jesuítas do seculo XVII não queriam saber de alumnos pardos em seus collegios. E ainda hoje ha collegios no Brasil, collegios elegantes e seraficos de freiras, de freiras boazinhas, doces religiosas, christãs, que não admittem menina de côr. Theatros, dancings, pavilhões de patinação, cinemas que não admittem pretos. Dizem-me que o barão do Rio Branco, negro retinto ou mulato chapado, podia ser um Talleyrand que elle não nomeava para a representação diplomatica do Brasil. Só mestiços muito disfarçados, “mulatos côr de rosa” do typo do illustre Domicio da Gama; negros e pardos, não. Euclydes da Cunha, quando exalta em “Os Sertões” o elemento não-europeu na formação brasileira, é só caboclo que idealiza. Cobre um santo, descobrindo o outro. Exalta, ás vezes, o mestiço de branco com indio á custa de virtudes roubadas ao mulato e ao cafuso. E o folk-lore brasileiro está cheio de trovas, quadrinhas, dictados, contos em que o negro é levado na troça, posto em situação de inferioridade e de ridiculo. Elle e alguns dos traços ou elementos mais caracteristicos do seu physico e de sua cultura. O cabello pixaim. A venta chata. E o berimbau, por exemplo:

“Sua mãe é uma coruja,
Que mora no ôco do páu;
Seu pae um negro d’Angola
Tocador de berimbau”.
(Colhido por A. Brandão, Alagoas)

E ainda:

“Negro velho quando morre
Tem catinga de xexéu
Permitta Nossa Senhora,
Que negro não vá p’r’o céu”
(A. Brandão, Alagoas)

Em Pernambuco, ainda alcancei a modinha:

“Por isso é que eu digo
Que negro não presta
Não presta para nada
Neste mundo inteiro” .

E o velho folk-lorista Rodrigues de Carvalho, o homem que melhor conhece as superstições e a poesia popular do Nordeste, communica-nos a seguinte:

“Negro não nasce, apparece,
Negra não pare, “estóra”;
Negro não dorme, cochila;
Negro não come, babuja;
Negro não fala, resmunga”.

Ainda mais typico do desprezo pelo negro é este outro exemplo de folk-lore nortista, tambem indicado pelo illustre pesquizador parahybano:

“O branco come na sala
Caboclo no corredôr;
O mulato na cozinha;
E o negro no cagadô
O branco bebe champagne,
Caboclo vinho do Porto,
Mulato bebe aguardente,
E negro mija de porco”.

Sempre o branco exaltado, com o caboclo em segundo logar. Mas o negro estourando, babujando, resmungando, comendo no “cagadôr” bebendo mijo de porco.

Não compreendo que o Sr. Azevedo Amaral escreva que entre nós não exista preconceito nenhum contra o negro, nenhum “tabu” o racial, dando a entender que a ascensão social da gente de origem africana evidente se faça no Brasil sem o menor obstaculo. Facil e docemente. O banco e o caboclo desertando dos melhores postos e o afro-brasileiro avançando sem o mais leve esforço na champagne e no vinho do Porto, e installando-se na sala de visitas.

Devo, por ultimo, salientar que não escrevi “Casa Grande & Senzala” por motivos sentimentaes; para fazer-me de apologista do negro. O que procurei estudar não foi o negro ou o afro-brasileiro isolado – no que vem se especializando o talento admiravel de Arthur Ramos. O objectivo daquelas paginas foi o estudo em conjunto dos movimentos diversos que se pregaram no Brasil, “violentamente associados por vicissitudes historicas”. E uma vez reunidos, contemporizaram de varios modos, embora hostilizando-se outros. Mas sobre os antagonismos, predominaram as forças de contemporização e de reciprocidade cultural, desenvolvendo-se, para os varios elementos, um ambiente de liberdade creadora, que talvez não exista tão ampla em nenhum outro paiz de gente mestiça. Cumpre-nos, porém – e este foi o sentido social do primeiro Congresso Afro-Brasileiro tornar cada vez maior essa liberdade. Completa. Não para que prepondére um dos elementos ethnicos hoje inferiorizados, mas que todas as forças de cultura entre nós tenham inteira opportunidade de expressão creadora, contribuindo para o desenvolvimento de uma cultura brasileira, original e autonoma.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Raça e Cultura. Folha de Minas. Belo Horizonte, [19–].

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