Aula de redação

Leia aqui ‘Cultura como realidade, R. Damatta

Posted on: maio 21, 2008

Leia o texto e escreva uma dissertação curta ( dois parágrafos). É um exercício de leitura. Defina cultura e civilização, de acordo com o autor.

.A cultura como realidade
por Roberto DaMatta
Publicado no jornal O Globo em 14/05/2008

Tem muita gente que não “acredita” em cultura. Para quem pensa assim, há povos sem cultura, como haveria pessoas “sem personalidade”. Um psicólogo diria que ser triste ou apagado não seria sinal de ausência, mas de presença e um certo tipo de personalidade.

O mesmo ocorre com o conceito de cultura. Todas as sociedades têm cultura, mas nem todas têm as mesmas artes e, sobretudo, a tecnologia capaz de destruir o ambiente, as outras sociedades ou o planeta. Por isso, poucas tomam seus hábitos de vida como o supra-sumo do refinamento e da “civilização”. No Brasil, confundimos “cultura” com “civilização” e ambas com refinamento, de modo que deixamos de problematizar certos costumes locais como o nepotismo, o poder como segredo, a condescendência, situando-os como costumes a serem automaticamente erradicados pelo advento civilizatório. Não há dúvida de que boas instituições e leis engendram boas condutas mas, como estamos fartos de saber, nem sempre o governo esperado, o partido político que traria a utopia, o regime mais “civilizado” se vê livre dos velhos costumes que insistentemente retornam.

Não se deve inventar a roda, mas os processos de mudança efetivos só ocorrem quando algo de dentro se combina com alguma coisa de fora. Por exemplo: uma economia globalizada, dinamizada por técnicas que demandam transparência, pressiona hábitos sociais implícitos – por exemplo, o nepotismo, a condescendência e o segredo como apanágio do poder -, tornando-os discutíveis e promovendo sua transformação. Como é possível saber instantaneamente todos os meus telefonemas e não saber quanto o prefeito da minha cidade gasta com seus assessores? Se adotamos a racionalidade como centro do gerenciamento público, como calar diante de um governador que leva a sogra numa viagem para o exterior num avião fretado, a pedido de sua jovem esposa?

Seria o retorno um sintoma de imutabilidade? Penso que não. Mas isso não significa que é fácil substituir hábitos tidos como naturais por outros, vistos como mais práticos ou racionais. Um caso de desentendimento cultural exemplar foi o da Fordlândia. Vale relembrá-lo neste momento em que a agressão à floresta amazônica e aos seus habitantes tradicionais faz a mídia. Ademais ele é instrutivo, porque ocorreu num contexto geral de promoção do progresso econômico, dentro de uma motivação industrial e não política ou ideológica.

No final da década de 1920, o magnata Henry Ford decidiu ser auto-suficiente em matéria de borracha. Implantou, na região do Rio Tapajós, em plena Amazônia, numa área de 10.000 quilômetros quadrados, a Fordlândia. Ali, a floresta amazônica e seus habitantes foram submetidos aos meios de produção cultural de Detroit. Em plena mata, surgiu uma comunidade na qual os prédios principais eram a biblioteca, o hospital e um campo de golfe, não a igreja ou o palácio do governo. Tal como na Ford, todos foram obrigados a usar um distintivo de identidade. A jornada de trabalho, que era marcada pela coleta do látex e não por hora, passou a ser como a da fábrica: de 9h às 17h. Se os automóveis Ford saíam de esteiras, as seringueiras que produziriam a borracha seriam plantadas em linhas, não em blocos, como seria desejável. A invenção de um espaço ideal – estilo Brasília, cidade para uma sociedade sem classes – levou a imaginar uma comunidade do Meio-Oeste americano: monogâmica, sem álcool ou fumo (estávamos em plena lei seca americana, que durou de 1920 a 1933), mas com clubes de leitura de poesia e de canto que substituíam as festas locais.

O extremo, porém, ocorreu na comida. Banida a comida amazônica – peixes, pirões e caldos – comia-se não em pratos, mas em bandejões que individualizam o alimento, alface, tomate, batatas, ervilhas e, principalmente, espinafre. Servida sem sal ou “tempero”; sem a vestimenta de “pratos” e comensalidade, a comida foi o ponto de partida para uma violenta revolta dos operários. Rebelião pelo gosto e pelos costumes, não pelo horário de trabalho ou salário. A revelar que a “cultura”, quando mexida de fora para dentro em pontos sensíveis (mas insuspeitos), adquire realidade e poder. Aquilo que para os engenheiros da Ford era um exemplo de refinamento e racionalidade, tornou-se para os trabalhadores locais um explosivo traço de intolerável humilhação. Afinal, como diz o velho ditado, nem só de economia, digo, de pão vive o homem.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

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