Aula de redação

Por que a guerra? Freud e Einstein

Posted on: maio 24, 2008

Caputh junto a Potsdam, 30 de julho de 1932
Prezado Professor Freud
A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para a Cooperação
Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha própria escolha, para um franco
intercâmbio de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me
excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira
como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de
enfrentar. Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É
do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu
significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante,
apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em
lamentável fracasso.
Ademais, acredito que aqueles cuja atribuição é atacar o problema de forma profissional e
prática, estão apenas adquirindo crescente consciência de sua impotência para abordá-lo, e agora
possuem um vivo desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na busca da
ciência, podem mirar os problemas do mundo na perspectiva que a distância permite. Quanto a
mim, o objetivo habitual de meu pensamento não me permite uma compreensão interna das
obscuras regiões da vontade e do sentimento humano. Assim, na indagação ora proposta, posso
fazer pouco mais do que procurar esclarecer a questão em referência e, preparando o terreno das
soluções mais óbvias, possibilitar que o senhor proporcione a elucidação do problema mediante o
auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem. Existem determinados
obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever,
cujas inter-relações e filigranas ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido
de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos
objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos.
Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de
abordar o aspecto superficial (isto é, administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo
internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar todo conflito que surja entre
nações. Cada nação submeter-se-ia à obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a
recorrer às suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas decisões e a pôr em
prática todas as medidas que o tribunal considerasse necessárias para a execução de seus decretos.
Já de início, todavia, defronto-me com uma dificuldade; um tribunal é uma instituição humana que,
em relação ao poder de que dispõe, é inadequada para fazer cumprir seus veredictos, está muito
sujeito a ver suas decisões anuladas por pressões extrajudiciais. Este é um fato com que temos de
contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se aproximam
mais da justiça ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos
são pronunciados), na medida em que a comunidade tem efetivamente o poder de impor o respeito
ao seu ideal jurídico. Atualmente, porém, estamos longe de possuir qualquer organização
supranacional competente para emitir julgamentos de autoridade incontestável e garantir absoluto
acatamento à execução de seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princípio; a busca da
segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as nações, em determinada
medida, à sua liberdade de ação, ou seja, à sua soberania, e é absolutamente evidente que nenhum
outro caminho pode conduzir a essa segurança.
O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última
década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores
psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar.
O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer
limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas
atividades, de um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário.
Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação,
composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra,
a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses
pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.
O reconhecimento desse fato, no entanto, é simplesmente o primeiro passo para uma
avaliação da situação atual. Logo surge uma outra questão: como é possível a essa pequena súcia
dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a
serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os soldados, de todas
asgraduações, que escolheram a guerra como profissão, na crença de que estejam servindo à defesa
dos mais altos interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.)
Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, possui
as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e
dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma minoria.
Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução completa.

O texto é longo, mas você deve ler. Se precisar, leremos juntos.

Continue aqui. ( PDF)

http://www.bernardojablonski.com/pdfs/graduacao/por_que.pdf

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