Aula de redação

Uma ponte entre a natureza e a cultura?

Posted on: maio 24, 2008

Leitura. Vou trabalhar aqui. Mas pode ir adiantando.

Um fantasma ronda as ciências humanas: o fantasma do darwinismo. O assédio começou em meados do século passado, nos confins de uma disciplina então incipiente, a etologia, que estuda o comportamento animal. O pressuposto desses pioneiros, zoólogos darwinistas, era que o comportamento contribui para um maior ou menor sucesso evolutivo, sobretudo entre os animais sociais, os que cooperam entre si. Por conseqüência, também os comportamentos devem ter sido “selecionados” em termos evolutivos. Ou seja, teriam predominado ao longo do tempo as condutas que propiciam a seus portadores viver mais e deixar prole mais numerosa.

As espécies sociais existem em vários ramos da natureza. Além das formigas, abelhas, vespas e cupins, o grupo inclui determinados peixes, aves e mamíferos – entre estes, os homens. Não tardou para que extrapolações da etologia fossem aplicadas, de maneira cautelosa e especulativa, à espécie humana. Os próprios etólogos foram os primeiros a ressalvar que, no caso da humanidade, a herança biológica se mescla à cultural, formando um amálgama impenetrável. Por imensa que seja a variação cultural entre os homens, no entanto, para esses autores ela sempre será expressão de uma matriz genética e inconsciente, adquirida de forma evolucionária nos 5 milhões de anos desde que nos destacamos dos símios.

Lançou-se, nas décadas seguintes, uma nova ciência, a sociobiologia, que se propunha a realizar um ambicioso programa: estabelecer a ponte necessária entre cultura e natureza, entre ciências humanas e ciências naturais, para enfim completar o majestoso edifício da razão materialista, tendo a física e a química como alicerces. Seu postulado era o darwinismo – a teoria visionária do século XIX que a ciência contemporânea confirmou integralmente. Seus métodos, o empírico e o matemático. Quanto a seu alvo, por mais que os neodarwinistas evitassem admiti-lo, não poderia deixar de ser as ciências sociais.

Estas reagiram com ultraje à invasão de seu sacrossanto domínio, o da autonomia da cultura. Ignoraram os arrivistas vindos do darwinismo. Quando os cientistas sociais replicaram, foi com a retórica de costume: acusaram os neodarwinistas de fazer ideologia disfarçada em ciência, e explicaram, pacientemente, que o método das ciências humanas não pode ser o mesmo das ciências exatas. Mas não parece que as humanidades se encontrem numa posição invejável, do alto da qual possam distribuir lições. Excetuada a economia, que desfruta de um crescente sucesso mundano e, ao que consta, científico, é perceptível o declínio de sua vitalidade intelectual.

As ciências sociais não se recuperaram do impacto provocado pela dissolução do experimento socialista nos anos 80 e 90. Pois não foi apenas o marxismo, que exerceu um domínio hipnótico sobre o pensamento humanístico no século XX, quem sofreu um xeque-mate com a derrocada do “socialismo real”. Foi atingido também o projeto, acalentado pela sociologia desde o início, de transformar a sociedade segundo critérios de planejamento racional, com vistas a superar a forma iníqua e perdulária de sua organização espontânea, “natural”. Desbancada de sua soberba, a sociologia passou a imitar sua colega, a economia, tomando lições de matemática. Restou incólume a história, isolada em eterna ruminação.

Após começo tão intrépido, foi um duro revés. A origem das ciências sociais é o iluminismo do século XVIII, o vibrante movimento de idéias que pretendeu aplicar a razão científica, tão eficaz nos séculos anteriores para decifrar e manipular a natureza, ao estudo e à reforma da sociedade. Condorcet, o último dos filósofos iluministas, terá sido também o mais explícito nesse sentido. Nos meses em que esteve foragido da ditadura jacobina, pouco antes de morrer na prisão em circunstâncias obscuras, ele escreveu sua última obra, um esboço de reforma das instituições sociais com base no método emprestado às ciências exatas. Adolphe Quetelet propôs em 1835 uma “física social”, que encontraria seu messias em Comte, considerado o fundador da sociologia. Toda fantasia metafísica sobre o homem e a sociedade deveria ser descartada, para dar lugar ao estudo dos fatos estritamente sujeitos à comprovação e mensuração – daí a sua doutrina ter recebido o nome de positivismo.

Mas na sociedade humana as variáveis (para falar em termos científicos) são de tal forma numerosas e entrelaçadas que o método empírico não dá conta de sua complexidade. Um outro movimento de idéias, o romantismo, inspirou a noção alternativa de que às ciências humanas caberia desenvolver um método próprio, o histórico. Do estudo comparativo de diferentes situações geográficas e históricas seria possível inferir certas regularidades, algo semelhante às leis que a ciência discernia no funcionamento da natureza. Mais promissor do que quantificar uma multidão de fatos seria compreender os processos, a relação qualitativa, sempre dinâmica e instável, entre eles.

O século XIX foi pródigo, a partir daí, em teorias sociais baseadas na evolução histórica (o positivismo, inclusive), cada uma a pleitear a sua própria sucessão de estágios, fases e modos de produção, rumo a uma superação constante. Marx e Nietzsche, antagônicos em quase tudo, concordariam quanto a isto: o homem é um animal que não está “pronto”, que ainda está-se fazendo por meio da história.

Mas enquanto as ciências da natureza prosseguiam de proeza em proeza, aumentando a população, a longevidade e o bem-estar humanos em proporção geométrica durante o século XX, os empenhos da ciência social contribuíram para dar forma a conflagrações e massacres de escala também inaudita, sob responsabilidade do totalitarismo socialista e de sua contrapartida, o fascismo. O primeiro foi inspirado no marxismo; o segundo, em parte uma reação histérica ao avanço do socialismo marxista, apropriou-se da tentativa de prescrever certos aspectos da teoria da seleção natural à organização da sociedade: a eugenia e o darwinismo social. O próprio Darwin, porém, havia desautorizado a utilização política de suas idéias. Vamos ver que idéias eram essas, capazes de deflagrar uma controvérsia que nunca termina.

***

Quando Charles Robert Darwin embarcou como naturalista de bordo no navio britânico Beagle, em 1831, a então chamada “transmutação” das espécies já era assunto polêmico na comunidade científica. A descoberta de fósseis de animais desconhecidos solapava a noção tradicional de que todos os seres(…)

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