Aula de redação

Situação da pesquisa científica no Brasil

Posted on: maio 29, 2008

ESCREVA SOBRE A PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL

Encontrar novas estratégias para melhorar e aproveitar a produção científica e tecnológica no Brasil é uma das grandes preocupações de Léa Velho, uma das principais referências nacionais em sociologia da ciência. Professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, ela avalia com rigor e equilíbrio temas como a cooperação internacional em ciência e tecnologia e a avaliação de políticas públicas de ciência e tecnologia. Ela é crítica, por exemplo, da participação subalterna de brasileiros em grandes redes de pesquisa e considera que seria apropriado voltar a mandar brasileiros para fazer doutorado no exterior a fim de criar lideranças capazes de participar das redes em pé de igualdade com os estrangeiros. Critica também o uso indiscriminado de índices convencionais de avaliação de desempenho da produção científica e acadêmica, que pode confundir e, com freqüência, comete injustiças.

Formada em engenharia agronômica, Léa começou a carreira como professora universitária na Unesp de Jaboticabal nos anos 1970. Seu interesse pela política científica e tecnológica remonta a 1978, quando, por razões familiares, se mudou para Brasília e foi convidada a trabalhar como técnica na avaliação de projetos de sua área do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em 1985 doutorou-se em Política Científica e Tecnológica pelo Science Policy Research Unit da Universidade de Sussex, Reino Unido. Deixou o CNPq em 1991, convidada a lecionar na Unicamp. Entre 2001 e 2005 foi pesquisadora sênior e diretora de pós-graduação no Institute for New Technologies da Universidade das Nações Unidas em Maastricht, Holanda. Casada e mãe de dois filhos e uma filha, Léa é uma estudiosa também das questões de gênero ligadas à prática da ciência e vem se dedicando com seus alunos de pós-graduação a entender por que há poucas mulheres em áreas como física, matemática e engenharias. A seguir, trechos de sua entrevista:

A senhora escreveu vários artigos sobre a participação brasileira em redes de pesquisa internacionais, como as de bioprospecção e da vacina contra a Aids. Qual é a importância dessa participação?
— No movimento recente de produção de conhecimento há uma tendência grande de pesquisa colaborativa. Ela cresce muito mais do que a pesquisa isolada, tem um índice de citação em geral mais alto, portanto, um impacto muito mais alto. Quando se olha a produção científica na Europa, por exemplo, nota-se que vem aumentando de maneira exponencial a cooperação internacional. Apesar disso, o Brasil tem se colocado num patamar de cooperação modesto. Ele cresceu, mas já está nesse patamar, em torno de uns 30% de artigos feitos em cooperação com outros países, desde o final dos anos 1980.

Trinta por cento do total de artigos?
—Trinta por cento dos artigos brasileiros publicados no Science Citation Index tem co-autoria internacional. O que isso significa? Pode significar muitas coisas, até mesmo que a gente está participando pouco desse movimento, menos do que poderia. Acho que o Brasil participa pouco. Minha experiência de participar de projetos da União Européia mostra que a parceria acontece muito mais quando eles lá, por exigência do edital, têm que incluir alguns países da América Latina. Eles sabem que você existe e falam: não quer participar? A gente acaba entrando meio marginalmente. Quase nunca tem uma contrapartida nacional para poder, por exemplo, viajar e participar das discussões lá. Veja o caso das redes de bioprospecção, sobre as quais escrevi alguns artigos. A iniciativa é tomada a partir do país do Norte e o recurso vem de lá. As pessoas dos países que detêm a diversidade biológica acabam entrando na cooperação para dar acesso aos recursos, não pela competência que eles têm.

O que um pesquisador ganha efetivamente ao fazer parte de uma rede?
— Ele adquire competências como negociar o objetivo de pesquisa, a metodologia ou o uso de equipamentos. Quando sou dona do meu nariz, isto é, trabalho sozinha com recursos que eu mesma consegui, eu não negocio nada. No máximo, mando meus estudantes fazerem algumas coisas e eles fazem. Mas negociar com alguém igual a você, que tem idéias próprias sobre o assunto, é um ganho.

Não há grupos nacionais maduros o suficiente para falar de igual para igual com os estrangeiros?
— No Brasil há vários grupos maduros que provavelmente participam de uma maneira muito mais igualitária, o que tem a ver com a sua capacidade de negociação. Quem sabe o que quer e tem recursos que preenchem a sua necessidade entra no projeto porque ele genuinamente interessa. O pesquisador entra porque tem com o que contribuir. Não é o que acontece nas redes de bioprospecção.

Também é isso o que ocorre com as redes de pesquisa de medicamentos e vacinas contra a Aids?
— No paper que escrevi sobre isso estava tentando ver como o Brasil participava dos testes clínicos de desenvolvimento de vacina. Infelizmente, essa é uma área em que falta competência no Brasil. Do ponto de vista do desenho da política, o programa da Aids é muito bem-sucedido no Brasil. Fazemos bem a pesquisa básica. Há médicos muito bons, mas ainda temos de fortalecer esse meio-campo, que é a competência para realizar testes clínicos, com laboratórios apropriados para fazer todas as análises e desenvolver protocolos confiáveis. A participação brasileira nessas redes acabou se tornando algo um pouco questionável. É preciso começar a fazer testes clínicos de medicamentos que a gente desenvolva porque, senão, vamos ficar prestando serviço para as multinacionais.

Praticamente não há medicamento desenvolvido no Brasil…
— Exatamente. Para concluir essa questão da rede, temos de resolver algumas coisas. Queremos participar dessas redes internacionais? Se quisermos, temos que fazer um diagnóstico do que está acontecendo. É o primeiro passo. Acho que os indicadores estão mandando um sinal de alerta. Os países bem-sucedidos do ponto de vista de inovação têm atividade mais dinâmica em termos de cooperação. Uma das coisas que faltam é formar mais recursos humanos no exterior, agora que já fortalecemos a nossa pós-graduação. O caminho trilhado até agora foi acertado, não estou questionando isso, mas o país não pode se fechar e dizer: hoje temos uma pós-graduação tão forte que não precisamos formar ninguém no exterior! Poucas pessoas são enviadas ao exterior para fazer doutorado pleno. E muitas vão porque a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] resolve dar 500 bolsas e escolhe o quem tem mais mérito em cada área do conhecimento. Isso não funciona, porque se diluem os poucos recursos destinados à formação no exterior e o país não dá salto em área nenhuma. Então vamos especificar as áreas, fazer uma relação e mandar esse pessoal para ser treinado lá. Refiro-me a uma política de fortalecimento de formação em algumas áreas e de inserção de algumas redes, já que nós não vamos poder participar de todas.

A queixa, em relação ao doutorado no exterior, é que os brasileiros mais talentosos recebem boas propostas e não voltam.
— Os dados do centro americano que acompanha alunos estrangeiros mostram que a maioria dos brasileiros quer voltar. Se não voltam é porque não têm chance de fazer concurso. A verdade é que poucos têm ido para o exterior.

O doutorado sanduíche, em que o pesquisador passa um período no exterior, não resolve essa lacuna?
— Não vejo muitos benefícios nesse programa e ele, certamente, não é um substituto para o tipo de relação que se forma durante o doutorado pleno no exterior. Em geral, os pós-graduandos ficam fora de seis meses a um ano e, com freqüência, não escrevem um paper em língua estrangeira. O pesquisador de ciências sociais que faz o doutorado no Brasil raramente consegue publicar um paper em inglês. Acho que a formação sanduíche pode ser boa para algumas situações do tipo: para fazer minha tese, preciso aprender uma técnica específica que ninguém domina aqui. Bom, eu vou lá e, em seis meses, aprendo a técnica. Mas daí a generalizar como política de formação dos recursos humanos…

Empresas de países como o Japão e a Coréia do Sul incentivam seus técnicos a se formar fora do país e a retornar para o exterior de tempos em tempos, para acompanhar as novidades.
— Teve muita empresa japonesa, principalmente nos anos 1980 e 1990, que mandava seus técnicos para fazer doutorado, por exemplo, no Caltech, em Berkeley ou nos grandes centros tecnológicos americanos. Quando o técnico terminava os créditos, era chamado de volta. Não se exigia que defendesse tese. Ele ia lá para obter certos conhecimentos, fazer algumas disciplinas, participar das discussões de projetos. O título não importava. Era uma questão de capacitar seus recursos humanos para obter o conhecimento. Ter conhecimento do conhecimento é uma competência importante que os doutores adquirem. É saber quem faz o que e aonde. Quando se está fazendo doutorado no exterior, você vê pesquisadores das mais variadas universidades, começa a identificar quem é quem, descobre onde essas pessoas publicam. Quem vai por seis meses não obtém isso.

Se quiser, continue

http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3423&bd=1&pg=1&lg=

EM JANEIRO DE 2008, UMA NOTÍCIA-BOMBA CORREU MUNDO. UMA MACACA, A PARTIR DE UM LABORATÓRIO NA CAROLINA DO NORTE, EUA, USANDO A “FORÇA DO PENSAMENTO”, FEZ UM ROBÔ ANDAR NO JAPÃO. O EXPERIMENTO JOGA PARA UM FUTURO NÃO MUITO LONGÍNQUO A POSSIBILIDADE DE DEVOLVER OS MOVIMENTOS A PARAPLÉGICOS. PROEZA DO NEUROCIENTISTA MIGUEL NICOLELIS, UM PAULISTANO E PALMEIRENSE ROXO, CITADO COMO FORTE CANDIDATO AO PRÊMIO NOBEL EM SUA ÁREA, QUE A CADA PASSO FAZ QUESTÃO DE DECLARAR DUAS PAIXÕES: O FUTEBOL E O BRASIL. ESPECIALMENTE O POVO BRASILEIRO, CUJO TALENTO, DIZ ELE, SÓ PRECISA DE OPORTUNIDADE PARA SE MANIFESTAR. NÃO À TOA, O HUMANISTA NICOLELIS ESCOLHEU UMA REGIÃO POBRE DO PAÍS, O NORDESTE, PARA IMPLANTAR O PRIMEIRO INSTITUTO DE CIÊNCIAS COM O QUAL ELE PRETENDE INICIAR UMA REDE QUE ATENDERÁ MAIS DE 1 MILHÃO DE CRIANÇAS.

entrevistadores camila martins, marcos zibordi, michaella pivetti, moriti neto, vinícius souto, léo arcoverde, joão de barros, thiago domenici, roberto manera, mylton severiano
fotos eduardo zappia


trecho 01

THIAGO DOMENICI Vou fazer uma provocação: o senhor acredita em Deus?
Não. O único divino que eu acredito é o Ademir da Guia [craque do Palmeiras nos anos 1960-70, apelidado de Divino pela crônica esportiva]. Aliás, tenho uma ótima relação com Deus: ele não acredita em mim e eu não acredito nele.

THIAGO DOMENICI Posto isso, vamos à infância.
Foi excelente. Nasci na Bela Vista, na parte do Bixiga, mas a família mudou pra Moema e cresci lá. Nossa grande diversão era ver avião pousar em Congonhas.

trecho 02
MARCOS ZIBORDI Era esse confronto que você tinha na faculdade?
A universidade brasileira ainda vive da hierarquia, da hipótese de que quem está à frente da classe sabe mais. E ainda não permite um canal de desafio. O que aprendi muito nos EUA é que se você está dando uma aula, e o menino do colegial que está na universidade fala que você está falando besteira, “não é assim, é x, y, z”, você tem que parar e falar “tem razão”. Esse canal de comunicação bilateral não existia aqui. Ainda vivemos do saber da autoridade.

trecho 03
MYLTON SEVERIANO Isso foi feito com animais.
Foi feito com macacos e agora temos evidências que acontece em seres humanos.

MARCOS ZIBORDI Vocês não chegaram a testar em humanos?
Não, nós publicamos um trabalho em 2004 com parkinsonianos que estavam sendo operados e criamos um eletrodo; quando você está operando o cérebro de alguém, é treinado pelo ouvido, você ouve o cérebro, as células, que se comunicam com eletricidade; mas cada célula produz um som peculiar, cada região
do cérebro tem um som. Pouca gente sabe. A gente aprende a saber onde “está” no cérebro, não só pelas coordenadas tridimensionais, mas pelo som. Se tiver um som de pipoca estalando, eu talvez te diga que lugar do cérebro é, porque passei 20 anos ouvindo…………………………………..

Aqui

http://carosamigos.terra.com.br/

Poucos lugares no Brasil concentram tantos analfabetos e têm uma taxa de mortalidade infantil tão alta quanto Macaíba, uma cidade de 65 000 habitantes a 14 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte. Quem mora lá costuma cruzar as ruas de terra batida em carroças e freqüentar o comércio local sem um centavo no bolso, apenas carregado de antigos objetos para trocar. Nesse cenário de pobreza e atraso funcionará, a partir de maio, um avançado centro de pesquisas especializado na área de neurociências. Sua localização improvável, sem dúvida, surpreende. Outro fato que chama atenção sobre ele é a rara unanimidade que, antes de ser inaugurado, já alcançou no mundo acadêmico – dentro e fora do Brasil. De saída, neurocientistas ligados aos bons laboratórios o classificaram como um dos melhores que haverá no gênero, avaliação amparada em dados objetivos. Primeiro por suas instalações, que fazem frente às de qualquer laboratório de primeira linha. O segundo e mais relevante diferencial do novo centro está justamente no tipo de pesquisa que será desenvolvido ali. Em linhas gerais, a idéia é criar próteses capazes de captar a intenção de um movimento no cérebro de uma pessoa e imediatamente o executar, algo que, se concretizado, dará nova perspectiva a quem sofre de alguma dificuldade motora. Na neurociência, nenhum outro estudo da atualidade foi tão citado e influenciou tantos cientistas, de acordo com um levantamento conduzido pela revista americana Scientific American.

Quem está à frente dele é Miguel Nicolelis, médico paulista de 47 anos, que há vinte se mudou para os Estados Unidos com o objetivo de seguir carreira como pesquisador. Foi na universidade Duke, uma das melhores na área da neurociência, que desenvolveu seu trabalho. Antes dele, os aparelhos de observação do cérebro conseguiam captar o movimento de apenas três tipos de neurônios responsáveis pela memória motora. O trabalho de Nicolelis é um avanço por ter resultado numa tecnologia capaz de descrever, simultaneamente, o padrão de comportamento de 130 neurônios – desde o momento em que há intenção de mexer um braço ou uma perna até quando de fato se executa tal ação. Com essa abrangência, as experiências conduzidas por ele, até então em ratos e macacos, mostram ser possível replicar um movimento com 90% de precisão. Isso por meio de um computador que lê as informações no cérebro e as envia à prótese, à qual está conectado. Em 2009, ele começará a testar a técnica em pessoas. A pesquisa terá como cenário os novos laboratórios de Macaíba, uma opção do próprio Nicolelis. Ele justifica a escolha pela cidade, da qual jamais havia sequer ouvido falar: “Escolhi a dedo um lugar onde, sem uma mudança tão radical quanto essa, as pessoas viveriam para sempre longe da ciência”.”

Aqui

http://veja.abril.com.br/020408/p_108.shtml

Aqui

http://www.natalneuro.org.br/imprensa/pdf/2004_12_folha.pdf

Mais texto sobre Miguel Nicolellis

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=11598

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