Aula de redação

Do Terra Magazine: a precisão na linguagem

Posted on: junho 5, 2008

Muita gente acha que as línguas têm que ser exatas, ser uma espécie de espelho das coisas. Em seu voto sobre a constitucionalidade do artigo da lei que permite pesquisas com células-tronco, o ministro Eros Grau mencionou teorias de interpretação que defendem que as palavras são ambíguas etc., mas deu ênfase a uma delas (ouvi de relance num quarto de hotel, não lembro os nomes citados), que propõe que o limite para a ambigüidade são as coisas. Isto é, que, em última instância, para decidir entre dois sentidos, vai-se ao mundo… Seu caso era a palavra “embrião”. Complicado, para dizer pouco.

A introdução parece solene, mas vou falar de questões nada profundas, como o leitor verá. Eu queria apenas, a propósito desse problema da exatidão, fazer algumas perguntas ao pessoal que fala de esporte, especialmente de futebol, nas rádios e nas TVs. Não para criticar eventuais redundâncias ou o uso de expressões típicas, quase idiomatismos, como é comum que se faça.

Por exemplo, não vejo problema algum em dizer de um time que está perdendo, especialmente quando se pensava que venceria facilmente, que “agora vai precisar correr atrás do prejuízo”. Muita gente acha isso o fim. “Onde se viu correr atrás do prejuízo?”, dizem. E acrescentam, pragmáticos: quem quer prejuízo?, como se a expressão tivesse sentido literal! Ou melhor, como se “correr atrás” significasse sempre perseguir algo para tornar-se possuidor ou dono do objeto perseguido. Se fosse assim, o time deveria querer a derrota, o prejuízo de perder o jogo. Mas ler a expressão assim seria o mesmo que interpretar “colocar as barbas de molho” como ‘fazer com que as barbas (e o que serão “as barbas”, meu Deus!!!) fiquem mergulhadas em algum tipo de molho’.

Também não acho que seja um erro – muito pelo contrário – que um narrador ou comentarista diga “essa bola” (“essa bola é indefensável”, por exemplo), em vez de “a bola” (há só uma bola, diz o idiota da objetividade), porque “essa bola” significa obviamente a bola tal como ela foi (ou é) chutada, rebatida, passada, levantada etc. numa jogada ou num tipo de jogada.

Minhas perguntas aos narradores são na verdade só duas. Elas têm a ver com precisão de linguagem, mas não para defender que ela seja literal. Lá vão:

Por que narradores (e comentaristas) de jogos de futebol acham estranho que um atacante de pequena estatura faça um gol de cabeça, mesmo se a bola chega a ele a cerca de um metro de altura e longe de qualquer defensor? Parecem achar que, para golpear a bola com a cabeça, é sempre necessário saltar, e saltar bastante, porque a bola sempre chegaria à posição em que está o atleta a uma altura muito superior à altura dele. Mas muitas vezes não é isso que acontece, como é fácil ver.

Por que, quando um atacante tenta um chute ao gol e a bola sobe muito, isto é, sai muito alta, narradores dizem que ele chutou com muita força? Uma bola rasteira seria sempre fraca? Uma bola alta é sempre forte?

***Outra pergunta vai para um interlocutor hipotético, que poderia ser o chefe da equipe de uma rede de TV: por que Müller é pago para dizer, por exemplo, “Se o Corinthians continuar jogando assim, pode até golear”, aos 30 minutos do primeiro tempo, estando o placar, já, 4 x 0? Esse placar já não é goleada, especialmente nos dias de hoje?

Outra pergunta é dirigida aos diretores de redação dos jornais: por que, se Ronaldo vai a um motel com três acompanhantes, sejam de que sexo forem, a notícia sai no Caderno de Esportes? Um caso semelhante tem se repetido muitas vezes: se Pelé vai à falência ou ganha uma grana extra fazendo bons negócios ou negócios discutíveis, por que isso se noticia na seção de esportes ou nos programas esportivos?

Finalmente, uma pergunta de torcedor inconformado: por que pagam ao Perdigão e ao Bóvio para jogar no meio-de-campo do Corinthians, em vez de multá-los por fazerem isso?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.
Foto e texto do Terra Magazine

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2928258-EI8425,00.html

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