Aula de redação

O feijão com a Rose

Posted on: junho 13, 2008

O feijão com a Rose

texto suspenso

ESTE TEXTO APRESENTA ERROS. AMANHÃ EU CORRIJO

ASSINADO …EU, ROSE

Rose Marinho Prado

Sei que o sonho de Oswald de Andrade era o povo um dia comendo os biscoitos finos da sua poesia. Idéia boa, para dar um basta no esnobismo da elite. Valeu, ó, grande Oswald de Andrade! Mais que valeu!

Assim como valeu o alerta dos lingüistas para as variantes e todos os falares. Mas desconfio de que quem foi prejudicado com a desatenção à gramática normativa foi o povo.

Explico melhor e aproveito a noite fria para relatar minha experiência como professora de Português e declarar a minha paixão pela Gramática culta.

Na juventude, fui adepta das gírias, esqueci mesmo o aprendizado do colégio. Nos anos setenta, empregar a gíria e os erros nos tempos verbais nos ajudava na inclusão social, no ato de fazer parte dum grupo que buscava, desesperado, inventar um jeito de ser.

Lembro meu pai criticando: “Rose, não entendo mais o que você fala” – ele tinha motivo para não entender. Eu caprichava no desdém pelo vernáculo culto: “Tô ligada!”

Ocorre que, no começo dos anos oitenta, fui cursar Língua e Literatura na Puc. E lá descobri que os professores também não eram “chegados” à gramática escorreita. Uh!

A princípio achei bom, mas mudei de idéia, em especial, quando comecei a dar aulas particulares.Os alunos careciam da língua culta, não só os meninos do colégio, mas também os adultos que visavam aos concursos. Então, descobri que havia uma contradição – uma aberração – a EXXXXXXXXXXERREI…ESTOU CANSADA. ARRUMO ISSO AMANHÃ.

HÁ OUTROS ERROS …SÓ PERCEBI AGORA NA AULA DE ANTONIO ALONSO…LI EM VOZ ALTA. ESSE EXERCÍCIO, O DE OUVIR O TEXTO, É PERFEITO…NÃO LEIA ESTE TEXTO …ESPERE QUE EU O CONSERTE AMANHÃ….um conteúdo valorizado em testes, concursos. Naquele tempo, a Fuvest cobrava – muito- os saberes ligados à concordância verbal e nominal, a próclise e a mesóclise. E, nos concursos, perguntava-se coisas tais como o feminino de peixe-boi ( aí já é exagero, show de um milhão de inutilidades).

E, porque precisasse trabalhar, comecei a estudar, em frenesi, a gramática. E, com o tempo, soube que, na medida em que eu escrevia – e falava – de acordo com as regrinhas gramaticais, meu pensamento ficava mais concatenado, mais claro para mim mesma. E as pessoas me entendiam mais.

Com o tempo, descobri que, quanto mais eu aperfeiçoa o vocabulário, as idéias avançavam e eu tinha acesso fácil a textos complexos. Mas, mesmo dominando a norma culta, tomava cuidado para não me tornar pedante, por isso, adequava a fala ao grupo, ao momento. E seguia ensinando, na labuta que era o dia-a-dia duma jovem professora particular de português, uma espécie de treinadora para provas em Língua Portuguesa.

No início da vida profissional, anunciei as aulas em jornais populares, em cartazes afixados, nas farmácias. Daí o fato de minha clientela ir se compondo com alunos do colégio Bandeirantes, Etapa, mas também de gente provinda de camadas com baixo poder econômico. Descobri que estes valorizavam o português culto e o mais importante: o tanto que evoluíam como pensadores, na medida em que acertavam na conjugação dos verbos, ou no emprego das preposições corretas.

Foi quando me apaixonei pela Língua Portuguesa e, em especial, pela norma culta.

E exalto, sem pudor, o quanto amo substantivos, adjetivos, verbos, o meu feijão com arroz. E gosto da engrenagem da sintaxe, embora eu a saiba falha – não dá conta de explicar os meandros da língua.

A normativa propõe que verbos intransitivos se bastam, porque apresentam sentido completo. Não é verdade. Se eu digo “O marido bateu.”, a frase fica incompleta. Falta a mulher. Ele bateu na mulher. Mas, se o verbo bater é intransitivo, a mulher, além de apanhar do marido, ainda vira termo acessório, uma mera mulher “adjunto adverbial de lugar”.

Os gramáticos vivem atritos. Há quem postule – aí para o caso da surrada Etervina , a infeliz das sovas- o transitivo circunstancial. Ela é só uma circunstância. Ocorre que ela é fundamental para a besta que nela bate.

E assim é. Há falhas na norma da língua. É, por isso, que muito aluno fica boiando na sintaxe e passa a detestá-la. Porém, quando se explica a ele que a regra tem falhas, o ensino flui.

Costumo dizer, nas aulas, que as regrinhas da sintaxe funcionam como sinais de trânsito, dão setas “ entre por aqui, por ali,mas cuidado nunca à esquerda, porque o receptor do que você! fala – ou escreve – não vai entender nada.

“E não corte as veias entre as palavras! Porque a engrenagem da sintaxe permite o fluxo dum sangue que, impedido de passar mata idéias.

No ano passado, a ESPM perguntou numa proposta de redação o porquê de o mercado valorizar os profissionais que dominam a norma culta. Outro dia, dei essa proposta para alguns alunos . Eles não souberam me explicar a vantagem de conhecer tanta regrinha “chata”.

Foi quando eu lhes expliquei a importância de conhecer, por exemplo, a mesóclise: “Como é que vai entender um texto do século XIX, que usa mesóclise?

A hierarquia das empresas mudou de padrão. Ai da chefia que não possa contar com as idéias dos trabalhadores! Empresas navegam à deriva, num momento de economia instável; muda uma regra no mercado e elas “quebram”.

– A empresa fale?

– Não, a empresa não fale, Rodrigo. Porque o verbo falir é defectivo, não tem o presente do indicativo na terceira pessoa do singular. A empresa “quebra”, vai “pra cucuia”! E vivam as gírias e todos os barbarismos! Mas, sobretudo, valei-nos as capacidades de todos, porque um chefe que não é poroso à troca de idéias com os subordinados fica à mercê de sua burrice. Porque todos somos obtusos e , portanto, precisamos das idéias de todos para continuarmos “navegando” num mercado de águas perigosas.

Pergunta o chefe:

– Estamos sem saída, Otônio. Olha só as estatísticas.

Otônio, sim, ele leu Hume e refuta o chefe:

– Estatísticas não são certezas, nada é certo, Doutor Benedito, Hume dizia que nem o pôr-do-sol é preciso. Confie que amanhã é outro dia.

E Otônio acalma o patrão que, conhecendo Hume, pensa que tudo pode mudar. E melhorar!

E o pessoal descansa e noutro dia ajusta planos inéditos e…a empresa continua firme!

Mas pergunto: como é que Otônio podia conhecer a filosofia de Hume, se não dominasse um vasto vocabulário? Como avançaria, num texto de sintaxe complexa, se não soubesse a engrenagem do sujeito, o funcionamento das vírgulas?

Sequer um pastor protestante compreenderia bem sua Bíblia, caso não dominasse bem as regras gramaticais! Sem elas, o rebanho da igreja tornar-se-ia mero repetidor de palavras.

( continuo outro dia)

2 Respostas to "O feijão com a Rose"

Bom elogio à gramática, sem entanto, desdenhar os barbarismos e gírias, que são o sal dos idiomas, o tempero das palavras. O culto à norma culta não pode cercear o dinamismo das invenções neologísticas que brotam como plantas na floresta das palavras. Dizem que no auge da Latim, meados da idade média, se falava muito bem o português. Quer dizer, outra língua nascia sob a hegemonia da língua culta.

Do Luiz

O culto à norma culta não pode cercear o dinamismo das invenções neologísticas que brotam como plantas na floresta das palavras.

Rose – Também achoLuiz. Quero a norma e a invenção. No equilíbrio, o feijão com o arroz.

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