Aula de redação

Textos filosóficos. Do Café Impresso.

Posted on: junho 25, 2008

Texto do meu antigo site, o Língua do Brasil. Resolvi transcrevê-lo aqui, em especial, porque é bom. Além disso, apresenta questões filosóficas. O texto faz parte duma série de entrevistas. Aqui é com Antonio Caetano, do site Café Impresso. Ele é jornalista e escritor. Um amigo a distância, que conheço desde 2001.

http://www.cafeimpresso.com.br/

Desde pequeno eu queria ser cronista. Enquanto meus amigos queriam ser Pelé, Roberto Carlos, Emerson Fittipaldi, eu queria ser Rubem Braga. Há quase cinco anos, publico crônicas semanais no jornal carioca Tribuna da Imprensa.

1) Gostaria de saber se você vê alguma grandeza na espécie humana. Por favor, leia o texto do existencialista Albert Camus e oriente o vestibulando sobre o tema que você depreenderá da leitura.

“Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quer ser qualquer coisa, tem de ser nesta vida. Agora sei, aliás, que embora conquistadores falem algumas vezes de vencer e de exceder, o que eles querem sempre dizer é “excederem-se”. Suponho que sabem o que isto quer dizer. Em certos momentos, todos os homens se sentem iguais a um deus. É assim, pelo menos, que se diz. Mas isto vem do fato de eles terem sentido, num instante, a espantosa grandeza do espírito humano. Os conquistadores são somente aqueles homens que sentem a sua força, o bastante para terem a certeza de viver constantemente nessas alturas e na plena consciência dessa grandeza. É uma questão de aritmética, de mais ou de menos. Os conquistadores são os que podem mais. Mas não podem mais do que o próprio homem quando ele o quer. É por isso que eles nunca deixam o crisol humano, mergulhando no mais ardente da alma das revoluções”.

Aurélio, crisol:
1.Cadinho.
2.Fig. Aquilo em que se apuram os sentimentos.
3.Fig. Aquilo que serve para evidenciar as boas qualidades do indivíduo.
4.Tip. Recipiente das máquinas fundidoras e compositoras, onde se derrete o metal-tipo; caldeira.

Aurélio, cadinho:
1. Quím. Vaso metálico ou de material refratário, utilizado em operações químicas a temperaturas elevadas; crisol: &
2.Fig. Lugar onde as coisas se misturam, se fundem.

Albert Camus, in ‘O Mito de Sísifo’


O homem é um mistério para si mesmo. Acredito nessa grandeza humana apontada por Camus. Para o bem e para o mal. É inegável a íntima conexão entre a mente humana e o mundo. Você veja aonde chegamos em menos de 500 anos, depois que o conhecimento se tornou acessível a qualquer um pela matematização. É incrível como, por meio da matemática, chegamos ao âmago da matéria, por exemplo.

Alcançamos o impossível: assistimos, em tempo real, ao que se passa na China, falamos de viva voz com Nova York, registramos o instante em fotografias, somos centenas de milhões virtualmente conectados pela Internet; com alguns quilos de urânio somos capazes de aniquilar uma cidade de um milhão de habitantes em segundos. Se, há cem anos, alguém dissesse que qualquer dessas coisas seria possível, seria chamado de louco.

Então é inegável que o homem tem parte com o divino. Por outro lado, somos capazes das maiores atrocidades e mesquinharias. O mesmo homem que, estudando com afinco durante cinco, seis anos, é capaz de dominar a física quântica, também é capaz de torturar e matar.

2) Há quem diga que o homem é insaciável em seu querer. A gente já viu, em aula, que a sociedade de consumo tem uma parcela de responsabilidade pela deterioração do humanismo. Leia a coletânea a seguir e estabeleça uma relação entre o pensamento dos autores e, por favor, faça uma análise deles.


“Cada desejo enriqueceu-me mais do que a posse sempre falsa do objeto do meu desejo” (André Gide)
“O desejo floresce, a posse faz murchar todas as coisas”. (Proust)
“Quando desejamos pomo-nos à disposição de quem esperamos”. (La Fontaine)
“Arriscamo-nos a perder quando queremos ganhar demais”. (Idem)
“A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo”. (Flaubert)
“Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere”. (Idem)
“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos”. (Wilde)
“Há duas tragédias na vida. Uma é a de não obter tudo o que se deseja ardentemente; a outra, a de obtê-lo”. (Bernard Shaw)
(fonte: O citador.Site português)

Lembrei da Quarta Meditação de Descartes, que a gente pode dizer que é a o ponto de partida de toda a psicologia moderna, Freud inclusive. Depois de concluir que o intelecto humano não pode errar, porque é de origem divina, Descartes se interroga por que efetivamente erramos. A respostaé desconcertante: erramos, porque nossa vontade é infinita, e nosso entendimento, finito. Logo, ao menor vacilo do entendimento, a vontade nos arrasta e começamos a ver não o que é, mas o que desejamos que seja.

Quando digo que essa Meditação é origem de toda a psicologia moderna, não exagero. Esse simples resumo que apresentei já dá margem para muita especulação. Repare, por exemplo, o quanto nossa mente é instável, o quanto é propensa a se deixar levar pela vontade. A única e frágil alternativa é mantermos nosso entendimento alerta. Numa palavra: atenção.

Por outro lado, perceba que ser infinito é um atributo da divindade. Nossa vontade seria, portanto, nosso “elemento de ligação” com Deus. Agora, pergunto: como pode uma vontade infinita alcançar satisfação em um mundo essencialmente finito?

Uma última observação: repare que há um duplo sentido para vontade aqui. Acredito que só mais adiante é que esses sentidos se desdobrariam em dois termos: “vontade”, que designaria essa força guiada pelo entendimento, e “desejo” que, ao contrário, seria essa força “livre” e caprichosa.

3) “Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência” (Aristóteles)
Gostaria de que você definisse a palavra consciência. Posso pensar que consciência tem a ver com ética? Ou com a moral? Se puder dê exemplos.


Engraçado, foi com se a gente já viesse preparando essa pergunta desde o começo, não é? Na primeira resposta, inclusive, eu cheguei a usar a palavra “mente” para evitar o termo “consciência” justamente por conta dessa ambiguidade que ele foi ganhando com o tempo… Aliás, isso já seria tema para um longo papo: a evolução das palavras, a deterioração dos sentidos… É estranho, mas as palavras estragam também… Mas, voltando à “consciência”. De imediato, consciência é sinônimo de mente, alma, eu. Isso lá em Descartes, ao menos. Um dado importante: consciência é sempre consciência de algo – o que nos remete àquela relação privilegiada do homem com o mundo de que falamos na primeira pergunta.

Que essa consciência das coisas se torne uma consciência moral não é de estranhar. Todo mundo aqui, quando criança, já deve ter ficado horas observando as nuvens, vendo com elas mudando de forma: gato que virava barco, que virava velho, que virava camelo… O que quero dizer é que aparentemente qualquer coisa que a gente observe com atenção durante um tempo acaba ganhando um sentido, uma forma… Que será intensamente subjetiva e estética num primeiro momento: “Isto é belo para mim” até evoluir para uma conclusão ética: “Isto é bom” ou moral: “Isto é bom para todos”.

Quando digo “subjetivo” imediatamente lembro-me da “vontade infinita e caprichosa” da segunda pergunta, lembram? Pois é… Nessa passagem da impressão subjetiva para uma estética e daí para uma ética é que está a origem de toda a discórdia. Porque o passo seguinte é assimilar “moral” e “verdade”. É com se as nuvens do nosso exemplo, ao final de tantas observações, passassem a ser obrigatoriamente definidas como perigosos animais mutantes…

Uma última observação: fiz uma distinção entre ética e moral que não é, de fato, rigorosa. Ao pé da letra, ética e moral são a mesma coisa – um conjunto de regras adotadas por um grupo. Fez depois uma distinção meio forçada em que moral passou a ser a prática e a ética a teoria. Se é pra haver distinção, prefiro esta que adotei aqui: moral coletiva, ética individual.

4) *Há vários motivos para não amar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece”. (Carlos Drummond de Andrade)
Discutimos em aula a temática do amor. Fiquei surpresa com a postura de um casal de aluno que não acredita nesse sentimento. Eles justificaram, dizendo que o que não é possível mensurar ou aferir, provavelmente, seja uma fantasia humana. A garota fez uma redação criativa. Num trecho ela dizia que, porque a humanidade padece muito, seja com com as guerras, a fome, a crença no amor é uma ideologia que ajudar a suportar melhor a dor. Falta amor à humanidade neste início de milênio?

– Engraçado, não? Acabamos de falar em atenção. Outro dia, numa crônica, eu disse que “amor” é “atenção”, só isso. É aquele mesmo olhar ao mesmo tempo intenso e desinteressado que dedicávamos às nuvens. Como esse ímpeto de fixar-se em algo é próprio da consciência, logo é fácil concluir que estamos condenados ao amor. Para quê? Para alimentar as estrelas, eu gosto de dizer de brincadeira, sem, calro, o menor rigor científico. A gente pensa que o sol só nos dá seu calor e sua luz, mas ele também se alimenta de nós, dessa intensidade que geramos ao amar.

O amor é uma força, enfim, que pode tomar muitos nomes, segundo sua qualidade: amor (de mãe, de pai, de filho, de amante, etc), inveja, ódio, ciúmes. Mas é sempre amor – e é isso que importa para as estrelas. Então nossa atenção fala mais de nós do que do objeto propriamente. Se amamos coisas e não pessoas, por exemplo, essa ânsia de consumo queé uma forma de inveja, a qualidade de nosso amor é muito baixa, porque seu movimento não é para fora, um doar-se, mas um querer para si. E como a gente viu, o bacana é dirigir a mente, a consciência, a atenção para fora, para o mundo, e não para dentro, para si mesmo. É aquela coisa que a gente cansa de ouvir, mas custa tanto a fazer: “Deixa de caraminholas na cabeça e vai tomar um sol”.

5) O pensamento seguinte deu muita discussão aqui em aula. Gostaria de que lesse e fizesse uma análise, buscando fazer um recorte do tema.

“O ódio, a inveja e o desejo de vingança ligam muitas vezes mais dois indivíduos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade. Pois está em causa a comunidade de interesses interiores ou exteriores e a alegria que se sente nessa comunidade – onde é muitas vezes determinada a essência das relações positivas entre os indivíduos: o amor e a amizade – é sempre relativa e não é em nenhum caso um estado de alma permanente; mas as relações negativas, essas são, a maior parte das vezes, absolutas e constantes. O ódio, a inveja e o desejo de vingança têm, poder-se-ia dizer, o sono mais ligeiro do que o amor. O menor sopro os desperta, enquanto que o amor e a amizade continuam tranquilamente a dormir, mesmo sob o trovão e os relâmpagos. (Arthur Schnitzler).
(fonte: O Citador. Site português)

“Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses. Aquela criança, descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés, não era tão grande a minha revolta”. (Antonin Artaud)

Há quem diga que na natureza não há injustiça, caem morros, vulcões entram em erupção e matam; o tigre come o pobre macaquinho. Leia o Artaud e perceba que ele acha injusto a criança descalça. Fala um pouco da justiça. O professor Dalmo de Abreu Dallari, do Largo de São Francisco, na Usp, afirma que o direito é inerente à espécie humana, esta que, se não for protegida, perecerá. É maravilhoso o jeito que ele defende os direitos humanos.


– Putz! Mais uma vez a gente foi se antecipando às questões, hein? Acabei de falar sobre as formas de amor e vem o seu Schnitzler dizer que “o ódio, a inveja e o desejo de vingança ligam muitas vezes mais dois indivíduos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade.” Eé verdade. A gente vê isso… O que eu digo é que bastaria um simples, simples mesmo, exercício de vontade para a gente passar do ódio, da inveja ao amor. O mistério é: por que bloqueamos essa passagem? Eu tenho minhas hipóteses, mas prefiro deixar isso para um outro papo, mais longo, mas antecipo que uma palavra resumiria tudo e responderiaà indignação de Artaud: egoísmo. Por que, enfim, escolhemos o egoísmo? Tem a ver com a resposta da primeira pergunta, as tentação de uma vontade infinita e caprichosa, mas não é só… Outra hora falamos mais…

A questão da justiça se encaixa aí. Digamos que a justiça é um elemento fundamental da natureza humana. Sem justiça não há civilização. Há, no máximo, uma horda comandada por um tirano e sua gangue (com o que acontece em alguns morros e bairros da periferia). A justiça é principalmente a alternativa à lei do mais forte – que é a lei natural, digamos assim. O leão quando caça busca preferencialmente a cria ainda pequena ou o animal mais velho, porque são as opções mais fracas e, portanto, mais fáceis.

Os homens se juntam e criam um conjunto de leis com o intuito de abolir a lei do mais forte e criar uma ordem racional, comum e inteligível – que não varie segundo a vontade caprichosa do tirano.

6) Agora quem vai fazer a pergunta é a Isabella, (ex! já concluiu o curso) aluna de direito na Usp e de Rádio e TV na Cásper Líbero.

Você tem uma filosofia de vida, Antonio?

– Sabe, você me fez me dar conta que “filosofia de vida” é a melhor definição de “ética” que eu conheço. Obrigado!

Mas o que é uma ética, uma filosofia de vida? Uma ética é um horizonte possivel, a roupa de domingo de nossa alma. São os limites que a gente se impõe para estar no mundo.


Eu tenho uma filosofia de vida, uma ética, sim, que pode ser resumida numa frase: “Só por hoje“. Porque só hoje existe. Isso me cria um desapego pelo passado e pelo futuro e me fixa aqui e agora e então eu posso amar o que está próximo porque é só o que de fato eu tenho. “Só por hoje” cria um foco para a minha atenção no aqui e agora. É dificil, é ideal, é contra todo o movimento da sociedade em que a gente vive, mas é algo que pode ser praticado aos poucos até se tornar uma prática diária.

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