Aula de redação

Pediatria Radical, a comunidade. Parte 4

Posted on: julho 6, 2008

– Gostaria que falasse sobre a sua comunidade no Orkut: sobre o que conversam?

Esta sou eu, a Rose – que entrevistou a Dra. Relva

– Olha isto aqui. É um pouco do trabalho.

Minha comunidade tem uma coisa importante que é ser um espaço para que as interessadas se manifestem. Não é um consultório virtual, é um local de troca de informações e de solidariedade. Lá elas aprendem que toda mãe tem dificuldades e alegrias. Trocam conversas sobre as fases do desenvolvimento infantil, manifestan-se sobre modalidades de parto, repensam sua capacidade de amamentar. Como são muito inteligentes, trazem enorme contribuição sobre suas próprias vivências. A troca afetiva é intensa e se criam grandes amizades virtuais e reais, nos “orkontros”, que podem ser visitas, ou telefonemas. Tento também transmitir qual é o plano da natureza para com as crianças, que não são doentes em potencial, mas seres com grande capacidade de aprender e dotados de grande vitalidade.

– O que é preciso desmistificar em relação às tantas idéias relacionadas à gravidez?

Que a mulher não é capaz de parir e de amamentar! É claro que é! São esses os maiores desafios. Os outros são conseqüência.

Por que ultimamente temos tanta notícia de mães que abandonam bebês? Isso está ligado a algum transtorno pós-parto? A gravidez não aflora instintos que garantem a proteção do bebê? O que acontece?

– Em condições normais, sim, mas há fatores intercorrentes de natureza psicótica… E – quem sabe – o desespero de uma gravidez indesejada ou economicamente inviável. Sempre houve abandono de bebês, havia até locais próprios para deixá-los. Hoje se fala em ‘parto anônimo’, a mulher leva a gravidez até o fim e depois doa o bebê. Um filme recente – Juno – trata dessa atitude. O chamado instinto materno é uma construção social precedida pelos hormônios. Em família constituída, ou quando a mulher tem condições de aceitar bem o bebê, a coisa se dá quase naturalmente. Mas não é no “automático”, é preciso um meio favorável e muita ajuda externa.

Mary Cassat

– Relva, toda mulher tem talento para ser mãe? Posso crer que algumas podem ser boas, digamos, “parideiras” – desculpe a expressão vulgar – mas não, boas mães? Como a mulher que até curtiu dar à luz, mas não, da experiência da maternidade livra-se da culpa?

raphael-ladonnagravida

– Toda mulher tem condições para ser mãe, por dispor de útero e ovários. Mas é possível ser mãe de várias formas: adotando, “alugando” uma barriga, recebendo inseminação artificial. Ser “parideira” é uma coisa bem animal, fisiológica. Há mulheres que tiveram vinte gravidezes.

Já ‘ser mãe’ exige investimento afetivo, emocional, físico, requer dedicação, tempo e recursos financeiros. É um empreendimento não tão simples como quer a natureza, nem tão difícil como se faz acreditar. A culpa vem desde Eva, e precisa ser trabalhada. A mãe sempre se cobra se está sendo suficientemente boa para aquele filho. A culpa a acompanhará eternamente: se tudo der errado, foi sua culpa. Se der certo, ninguém vai se lembrar.

– Seu trabalho tem um propósito libertador? O que exatamente você deseja libertar? Quais são as opressões pelas quais passa a mulher grávida, além dessas que você já citou?

Além da culpa, tem todo o trabalho físico e emocional que lhe é exigido, meio sobre-humano. Ninguém liberta ninguém, caminha-se junto, pensa-se, em conjunto, os percalços vão aparecendo no meio do caminho de cada uma e vão sendo trabalhados, pra usar uma palavra meio vaga. A maior opressão é o trabalho em regime de tempo integral e, dedicação exclusiva. Essa longa permanência no trabalho leva à abdicação de qualquer outro projeto pessoal. E quanto à mulher que fica em casa, cuidando do bebê, diz-se que ela “não trabalha”!

– O que tem a dizer para a grávida que sente muito medo de dar à luz? Há algum perigo real, ainda há? Para essas mulheres, a cesariana não é a melhor opção? Quem está anestesiado não sente medo, certo? rs

– As gravidezes tendem a ser normais e sem muitas intercorrências, digamos em mais de 90%, o que é válido também para o parto. Quando a criança só era conhecida ao nascer, as coisas eram mais leves, hoje a mãe tem uma sobrecarga de informação para o bem e para o mal. O mal é porque, ao se descobrir grávida, desenvolve uma vocação trágica, cercada de medo por todos os lados. O perigo reside nas gravidezes subintentrantes (raras hoje) e em certos eventos pós-parto: hemorragias e infecções, estas últimas mais freqüentes nos partos hospitalares.

– Suponha que, no futuro, uma barriga tecnológica possa abrigar o feto até o nascimento, o que a mulher perderia – ou ganharia – não vivendo os nove meses de gravidez?

– Se a mulher se adaptaria? Não sei, a tarefa de carregar o feto dentro de si é um dos aspectos mais queridos à gestante. Mesmo um bebê de proveta precisa de um útero funcional e nutridor.

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