Aula de redação

Pediatria Radical,gravidez e tecnologia.Parte 1

Posted on: julho 6, 2008


Conversei com a Doutora Thelma*, conhecida como Dra. Relva, pela comunidade Pediatria Radical do Orkut. A conversa foi longa e, por isso, resolvi dividi-la em séries.

Aqui inicio a parte 1

Até ela abdica de seu corpo e passa a submetê-lo à “tekné”. Dra.Relva.

– Por favor, faça um resumo, uma bio.

– Sou pediatra formada em BH e mãe de cinco. Estudei em BH e moro em Brasília. Sempre trabalhei, no serviço público.

– Gostaria de mandar algum recado para as mães?

– Gostaria de aproveitar nossa conversa para falar sobre a minha comunidade de pediatria no Orkut cujo objetivo é conversar sobre crianças e suas mamães.

– Dê o link

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=1651309

Em que medida podemos dizer que a mulher grávida é dona de seu corpo? Digo isso, porque sei que, assim fica grávida, um arsenal de tratamentos, produtos, condutas e profissionais acorrem. Vamos delimitar o assunto. Escolho a mulher de classe-média, a sua clientela.

A gestante e seu bebê são um latifúndio! Todo mundo orienta essa gestante sobre o que fazer com sua gravidez. Até ela abdica de seu corpo e passa a submetê-lo à “tekné”. Aliás, ela passa a viver entre dois pólos: o da tecnologia e o das superstições e prescrições, que lhe dizem o que comer, quando e como fazer sexo; que remédios tomar; se pode ou não tingir o cabelo. Isso significa que vive, entre a cruz e a caldeirinha, e se torna espécie de refém da sociedade, todos ficam de olho nela para dar algum pitaco.


– Brasil, século XIX, início do XX. Como é que as mulheres da burguesia e das classes-médias eram tratadas, durante a gravidez? Será que se relacionavam bem com seu corpo, com a gravidez?

Eram tratadas com respeito e temor. Como tinham empregadas, ficavam de repouso. Até ganhavam uns quilinhos, coisa que era vista com bons olhos, pois significava ‘saúde’. Os filhos das burguesas eram criados pelas amas da casa. Amamentar dependia da moda de cada época. As mães eram mais ociosas, passavam o tempo escrevendo cartas, lendo, bordando. Criança não tinha o significado que tem hoje, eram simples crias.

Pintura do Século XIX

– Após o advento da indústria e, mais exatamente, quando algumas mulheres tiveram de sair para o trabalho, como é que essas grávidas lidavam com a gravidez? É importante pontuar que não me refiro à camponesa e nem à operária. Então, Doutora Relva, posso crer que, na época, a medicina já apresentava mais recursos para acompanhar a gravidez?

– Vamos ao tempo uma época remota, que tal a monarquia inglesa? A analgesia por clorofórmio foi usada pela Rainha Vitória e depois aperfeiçoada. A gravidez ‘científica’, data de quando surgiu a obstetrícia, predominantemente masculina, que induziu a mulher ao parto hospitalar e lhe concedeu a anestesia. Do alivio da dor à tecnologização total da gestante e do bebê foi um pulo. A idéia inicial era salvar a vida das gestantes, que morriam pelas gravidezes subintrantes. Era até costume a mãe deixar cartas, ou poemas, para distribuição após sua esperada morte. Com o advento do parto hospitalar, recrudesceu a morte por septicemia pós-febre puerperal, que ceifou muitas vidas… até o advento da anti-sepsia. Esta que sempre foi, juntamente com as hemorragias, a grande causa mortis da parturiente. Hoje as causas ainda são infecciosas, veja os casos de infecção hospitalar. A ascensão da ciência na década de 30 diminuiu o valor do ‘instinto materno’ como causa bastante para criar um filho. As mães passaram a ser alvejadas, por termos como vitaminas, proteínas, bactérias. Amamentar passou a ser regulado pelo relógio, fazer o bebê arrotar tornou-se uma arte, a vida ao ar livre tornou-se matéria complexa. Crianças passaram a ser pesadas e medidas em casa. Também lhe tiravam a temperatura duas vezes ao dia, como relembra Sartre com desgosto. Muitas dessas atitudes eram pedantes, supérfluas e até patéticas (ainda são…) A maternidade ‘científica’ exigia noções de higiene, sanitarismo e nutrologia. Tudo devia ter uma ‘técnica’, mesmo vaga e sem fundamento razoável. Ela e o filho não mais escaparam dos vigilantes do peso e do funcionamento global de seu filho.

– E a gravidez das índias? Tomo cuidado com o uso da palavra “índias”, porque sei que o nome “índia” cabe para várias mulheres, afinal, há várias tribos e épocas. Mas,tentando uma generalização, não tão prejudicial ao entendimento, quero saber se as índias vivem a gravidez de modo mais pleno? Por quê?

– Falemos da índia brasileira: na aldeia, ela tem gravidez e parto normais; se atendida nas cidades, estará sujeita ao SUS e ao parto hospitalar. Na aldeia ela tem parto natural. E amamenta por muito mais tempo.

Inegável que os recursos de que a mulher grávida dispõe hoje podem ser benéficos a ela. Eu mesma, por ter nascido por meio de uma cesárea, estaria condenada à morte, não fosse a época em que nasci. Então, doutora, que avanços científicos considera positivos? E negativos?

Avanços significativos: ultrassonografia gestacional, prevenção de infecções materno-fetais, detecção e tratamento da hipertensão materna, uso de ácido fólico contra defeitos medulares fetais. Negativos: a tecnização exacerbada do parto, com a cesárea atingindo cerca de 50% do total de partos. As imensas dificuldades de a mulher escolher a via de parto. A facilidade com que se desmama a criança, o culto às tabelas e gráficos de peso e altura, favorecendo o desmame. E o desconhecimento do papel da mãe como protagonista, de algo que ela gerou e sobre o qual perde total controle.

6 Respostas to "Pediatria Radical,gravidez e tecnologia.Parte 1"

Rose

muito obrigada, gravidez: un affaire de femmes!

a galera interessada também agradece seu lindo trabalho

bjs gratos e felizes

CADE A SEGUNDA PARTE??
Amei a primeira, grande iniciativa, parabéns ao site!!
Quero a segundaaaaaaa!!….
bjs gratos!
bom dia!

Dra Thelma, a Dra Relva da PR, é uma pediatra rara, vê a alma além da pessoa, a saúde antes da doença, está focada no resgate da saúde, entende que a medicina sofreu influência culturais, políticas e econômicas e passou parte dessa conta para os leigos, os clientes, os pacientes.

Uma pediatra que tenta dar mais autonomia e confiança às mães, desfazendo a dependência quase patológica que algumas têm em relação a pediatras em geral é um achado. E o sucesso da Pediatria Radical mora aí: na tentativa de desenvolver a confiança nas mães.

Eu lí duas vezes. Na primeira , a cada linha, eu agradecí por já ter lido tudo isso dela….Nas segunda, tentei ler como se fosse a primeira vez e como se eu não a conhecesse…Só esse pinguinho é uma tentação para ouvir tudo o que essa mulher tem pra dizer. Go, Tekka!

Que bom que há mais canal para divulgar a delicadeza e a simplicidade com que a Dra Bonequinha vê a saúde, a família e a criança. Espero q esta entrevista tenha 10 partes!

Beijos carinhosos,
Carol.

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