Aula de redação

Dissertação da Unicamp, 2003

Posted on: julho 11, 2008

Desenhos Rose

ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS A ESTE TEMA, SUA REDAÇÃO SERÁ ANULADA.
A palavra “evolução” tem sido usada em vários sentidos, especialmente de mudança e de progresso, seja no
campo da biologia, seja nas ciências humanas. Tendo em mente esses diversos sentidos, e considerando a coletânea
abaixo, escreva uma dissertação em torno da seguinte afirmação do filósofo Bertrand Russel (Unpopular Essays, 1959) :
A mudança é indubitável, mas o progresso é uma questão controversa.
1. Evolução significa um desenvolvimento ordenado. Podemos dizer, por exemplo, que os automóveis modernos evoluíram a
partir das carruagens. Freqüentemente, os cientistas usam palavras num sentido especial, mas quando falam de evolução de climas,
continentes, planetas ou estrelas, estão falando de desenvolvimento ordenado. Na maioria dos livros científicos, entretanto, a
palavra se refere à evolução orgânica, ou seja, à teoria da evolução aplicada a seres vivos. Essa teoria diz que as plantas e animais
se modificaram geração após geração, e que ainda estão se modificando hoje em dia. Uma vez que essa mudança tem-se
prolongado através das eras, tudo o que vive atualmente na Terra descende, com muitas alterações, de outros seres que viveram há
milhares e até milhões de anos atrás. (Enciclopédia Delta Universal , vol. 6, p. 3134.)
2. Quando se focalizou a língua, historicamente, no século XIX, as mudanças que ela sofre através do tempo foram concebidas
dentro da idéia geral de evolução. A evolução, como sabemos, foi um conceito típico daquela época. Surgiu ele nas ciências da
natureza, e depois, por analog ia, se estendeu às ciências do homem. (…) Do ponto de vista das ciências do homem em geral, a
plenitude era entendida como o advento de um estado de civilização superior, e os povos eram vistos como seguindo fases
evolutivas até chegar a uma final, superior, que seria o ápice de sua evolução. (Mattoso Câmara, 1977. Introdução às línguas
indígenas brasileiras. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico. p. 66.)
3. Progresso, portanto, não é um acidente, mas uma necessidade… É uma parte da natureza. (Herbert Spencer, Social Statics, 1850,
cap. 2, seção 4.)
4. Ator 1 – Com o passar dos séculos – o homem sempre foi muito lento – tendo desgastado um quadrado de pedra e desenvolvido
uma coisa que acabou chamando de roda, o homem chegou, porém, a uma conclusão decepc ionante – a roda só servia para rodar.
Portanto, deixemos claro que a roda não teve a menor importância na História. Que interessa uma roda rodando? A idéia
verdadeiramente genial foi a de colocar uma carga em cima da roda e, na frente, puxando a carga, um homem pobre. Pois uma
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coisa é definitiva: a maior conquista do homem foi outro homem. O outro homem virou escravo e, durante séculos, foi usado como
transporte (liteira), ar refrigerado (abano), lavanderia, e até esgoto, carregando os tonéis de cocô da gente fina. (Millôr Fernandes. A
História é uma história. Porto Alegre, LP&M, 1978.)
5. Na história evolucionária, relativamente curta, documentada pelos restos fósseis, o homem não aperfeiçoou seu equipamento
hereditário através de modificações corporais perceptíveis em seu esqueleto. Não obstante, pôde ajustar-se a um número maior de
ambientes do que qualquer outra criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que qualquer parente próximo entre os
mamíferos superiores, e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião, o tigre, em seus recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela
habilidade de fazer roupas e casas, o homem pode viver, e vive e viceja, desde o Círculo Ártico até o Equador. Nos trens e carros
que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz. Nos aviões, pode subir mais alto que a águia, e, com os telescópios, ver
mais longe que o gavião. Com armas de fogo, pode derrubar animais que nem o tigre ousa atacar. Mas fogo, roupas, casas, trens,
aviões, telescópios e revólveres não são, devemos repetir, parte do corpo do homem. Pode colocá-los de lado à sua vontade. Eles
não são herdados no sentido biológico, mas o conhecimento necessário para sua produção e uso é parte do nosso legado social,
resultado de uma tradição acumulada por muitas gerações, e transmitida, não pelo sangue, mas através da fala e da escrita. (Gordon
Childe. A evolução cultural do homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1966. p. 39-40.)
6. O homem pode ser desculpado por sentir algum orgulho por ter subido, ainda que não por seus próprios esforços, ao topo da
escala orgânica; e o fato de ter subido assim, em vez de ter sido primitivamente colocado lá, pode dar-lhe esperanças de ter um
destino ainda mais alto em um futuro distante. (Charles Darwin, A descendência do homem. http://www.gutenbergnet)
7. … por causa de nossas ações, os ecossistemas do planeta estão visivelmente evoluindo de formas não previstas pelos seres
humanos. Algumas vezes, as mudanças parecem pequenas. Tomemos o caso das rãs e das salamandras nas Ilhas Britânicas. Os
invernos estão mais quentes nessa região, devido a mudanças de clima causadas pelos seres humanos. Isso significa que as lagoas
onde aqueles animais se reproduzem estão mais quentes. Assim, as salamandras (Triturus) começaram a se acasalar mais cedo.
Mas as rãs (Rana temporaria) não. De modo que a desova das rãs está virando almoço das salamandras. É possível que as lagoas
britânicas em que há salamandras continuem por dezenas e dezenas de anos cada vez com menos rãs. E então, um dia, o
ecossistema da lagoa desmorona… (Adaptado de Alanna Mitchell, “Bad Evolution”, The Globe and Mail Saturday, 4/5/2002.)
8. Em que consiste, em última análise, o progresso social? No desenvolvimento do melhor modo possível dos recursos havidos da
natureza, da qual tiramos a subsistência, e no apuro dos sentimentos altruísticos, que tornam a vida cada vez mais suave, permitindo
uma cordialidade maior entre os homens, uma solidariedade mais perfeita, um interesse maior pela felicidade comum, um horror
crescente pelas injustiças e iniqüidades… (Manuel Bonfim, A América Latina: Males de origem. Rio de Janeiro/Paris, H. Garnier,
s/d.)

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