Aula de redação

Jefferson Ribeiro de Andrade, entrevista de 2004

Posted on: julho 12, 2008

lINKS PARA JEFFERSON RIBEIRO DE ANDRADE E ISABELA , NO PÉ DA PÁG.

Jeferson de Andrade

Nasci em Paraguaçu à beira do rio Sapucaí. Não foi num hospital. Foi na casa da fazenda de meu avô. Ela ainda existe. Como me tornei escritor, olho, às vezes, para aquela casa e me lembro que ainda não escrevi nada sobre ela. Está faltando este livro entre os dez já escritos e publicados, além de mais três inéditos. Moro em Belo Horizonte e hoje me considero mais belo-horizontino porque mais tempo aqui residi, após passar quinze anos no Rio de Janeiro, quatro em São Paulo e ter saído da terra natal aos 19 anos. Há sete anos edito um jornal de bairro: Folha do Padre Eustáquio. Pago contas e aluguel, além das cervejas usuais com a renda deste jornal. Tenho quatro filhos, Julius, Juliano, Isabela e Isadora. Duas netas, Sophia, do Julius, e Beatriz, do Juliano. E há muito não sou casado com ninguém, o que estou achando ótimo.

Paraguaçu, sul de Minas Gerais

http://www.oiaqui.com.br/

1 Você é feliz quando escreve?

Escrever não é bem ser feliz. Não escrevo para ser feliz. Fico satisfeito, me sinto contente quando busco alguma palavra para terminar uma frase e a encontro. Ou sinto alegria quando um trecho de um texto maior fica como acho que deveria ser. Às vezes, termino uma crônica ou um conto e fico satisfeito com o resultado, torcendo para que o leitor também goste, claro. Mas é uma alegria passageira, pois logo depois já estou amargurado para terminar outra frase, outro conto, outra crônica. Assim, como é que fica a felicidade? Ela não chega nunca, não é mesmo?

2 As perguntas agora são da Isabella, ex-aluna, formada em Rádio e Televisão na Cásper Líbero.


– Jéferson, o que o instigou a escrever?


– A leitura. Comecei a ler com sete anos e aos nove resolvi escrever um conto. Ou melhor, vi um filme, não gostei da maneira como terminou e escrevi a história novamente, fazendo o meu fim.

– Desde quando escreve?


– Desde os nove anos, portanto.

-O que falta na literatura brasileira?


-Educação. O Brasil resolver o seu grave problema da educação. Porque literatura nós temos, não temos são leitores. Quem tem a sorte de ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade verá que não falta nada para a literatura nossa ser grande.

-O quE acha que deve ser feito para os jovens brasileiros lerem mais? Já que isso parece um cultura “atrasada”, pois a maioria passa milhões de horas só na frente da tecnologia (computador ou tv… ) não se informando, mas apenas entretendo-se?


– (Já respondi na pergunta anterior).(…) Mas, infelizmente, temos agora um presidente da República que lá chegou sem ter lido e estudado assim acha que pode ser para todos. Infelizmente, temos um presidente que não gosta de ler e faz chacota sobre os livros, enquanto o anterior pronunciou a célebre frase “esqueçam o que escrevi.“

3 Você nasceu numa cidade do interior, Paraguaçu, Minas. Nessas cidades pequenas, as pessoas fofocam muito. Mas surgem, também, histórias lindas, plenas de oralidade. Se a gente pensar que quem conta um conto aumenta um ponto, quantos pontos você precisou aumentar pra construir suas histórias escritas? Em outras palavras, o ambiente daquela cidade permitiu que você criasse suas histórias?

-O escritor precisa pegar um fato real, às vezes, e usar a imaginação para recriar o fato, transformando-o em ficção. De certa forma, assim são todas as minhas histórias. Aumentei várias vezes muitos pontos. E surgiram alguns livros, fora dois que são documentos históricos, como Anna de Assis, história de um trágico amor e Um jornal assassinado, a última batalha do Correio da Manhã.

4 Você faz parte da geração de escritores que sonhou muito porque lutou pra livrar o país da ditadura. E hoje Jeferson diga lá: você ainda sonha com um Brasil do Darci Ribeiro? Escute só o Darci, será que ele delirava?

“Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em sia mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas a s culturas. E porque assentada na mais bele e luminosa província da Terra”. (Ribeiro, Darcy. O povo Brasileiro).

– É, Darci delirava sim. Participei da entrevista que o jornal Pasquim fez com ele logo que voltou do exílio. Falava com volúpia. E era muito vaidoso, achava-se inclusive imortal. Não compartilho dessa esperança de Darci quanto ao futuro desse país. Ainda não escapamos da ditadura. A que existe agora é outra. A do dinheiro. Do mundo globalizado. Do FMI. De um país que faz a guerra quando quer, mentindo para o mundo. E o que vejo, nos jovens? Alienação pura. Não sabem o mundo em que vivem. Dançam a música que toca e não questionam. Continuo lutando, mas sem sonhar.

PERGUNTA 5 : SUMIU! DESCULPE! A ENTREVISTA ESTAVA GRAVADA. MAS MISTERIOSAMENTE UM TRECHO DESAPARECEU.

O DESENHOZINHO ABAIXO EU FIZ PARA ESTA ENTREVISTA. A MOCINHA, EU QUERIA QUE FOSSE A ANNA DE ASSIS.

6 Qual é a importância do futebol? Fala do livro do Zico.

-Sou torcedor fanático do Flamengo, morei no Rio e acompanhei toda a carreira do Zico.Escrevi Para Sempre, Flamengo, um romance-reportagem a respeito da vida de torcedores de futebol, acompanhando de perto a carreira de Zico no Flamengo e seleção brasileira. Escrevi também A falta que faz um gol, uma visão diferente para a derrota do Brasil no jogo contra a Itália na Copa do Mundo de 1982. Nunca fui alienado por causa de futebol. Pelo contrário, uma das poucas coisas que traz alegria para o brasileiro, o futebol de um domingo com estádio cheio.

7 Jeferson, o livro Ana de Assis, resume pra gente.

É a história de uma mulher que aos trinta se apaixonou por um rapaz de dezessete anos. E ela era a mulher do mais importante escritor brasileiro da época, Euclides da Cunha que tentou matar Dilermando de Assis e foi morto. Ela foi julgada e condenada pela época, pelo preconceito e por gerações e gerações de estudiosos da literatura de Euclides da Cunha que a julgavam culpada pela morte do imortal autor de Os Sertões. Mas a sua defesa está em poucas palavras ditas à filha Judith Ribeiro de Assis com quem, em parceria, escrevi o livro: Eu não errei. Eu amei.

8 Deu trabalho escrever esse livro? Afinal ele envolveu pesquisa.

Muito. Não foi só envolvimento profissional de pesquisa, mas também emocional. Deverá ter nova edição em 2005.

9 Você fica todo descabelado na hora de escrever? Eu tenho aluno que o-dei-a pra valer! E você: escreve e rasga?

Não fico descabelado. Quando me sento para escrever, já sei o que vai sair. Está tudo armazenado na cabeça. O trabalho de contar o que existe na minha memória é só encontrar as palavras adequadas. Risco ali e aqui. Mas nada de jogar tudo fora. Depois de tudo passado para o papel, vem o trabalho de lapidar. Este é mais demorado e trabalhoso. Chega a ser braçal. Apesar de estar respondendo as perguntas diretamente no computador, aviso que nunca escrevo direto no computador minhas criações literárias. Nem nunca escrevi à máquina. Só escrevo na mão. Chego a escrever e reescrever um mesmo texto até cinco vezes, na mão. Depois é que passo para o computador.

10 Você achou bonito o amor de Ana de Assis por Dilermano? Será que hoje em dia esses amores trágicos podem acontecer? Aliás, você acredita no amor? Uns alunos disseram que amor é invenção pra entreter a humanidade sofredora.

Que bobagem dizer que o amor não existe. Se não existisse não haveria uma história como a de Anna de Assis. Leiam a frase que ela disse. E amores trágicos temos todos os dias, nos jornais, na televisão, na imprensa. Romeu e Julieta renascem todos os séculos. Por ser trágica, uma história não deixa de ser bonita.

11 Vamos terminar a conversa. Essa pelo menos. Mas antes faça um exercício de redação pra gente ver que tu é bão.
Descreva um personagem chamado Odilon. Narrador em 3a pessoa, por favor.

Odilon é o dono de um bar que convive com o mistério que existe na alma humana. Um homem bebe trinta e sete cervejas, come uma coxinha e abandona o bar, deixando para trás uma interrogação impossível de ser respondida – quem é aquele homem que permaneceu durante todo o dia em seu bar e parte da noite e saiu sem dizer palavra? E a resposta também não existe para o escritor, autor do conto, e muito menos para o leitor. Literatura é assim.

LINK PARA O BLOG DA ISABELA

http://peixedentrodagua.blogspot.com/

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Texto do Jeferson de Andrade no Digestivo cultural

http://www.digestivocultural.com/comentarios/default.asp?codigo=13307

6 Respostas to "Jefferson Ribeiro de Andrade, entrevista de 2004"

Em primeiro lugar quero dar-te os parabens pela entrevista que para mim, foi bastante oportuna.. Sou da mesma terra de meu amigo e escritor Jeferson e concordo plenamente com ele.. Precisamos mudar o quadro de educação pois, com toda mudança a fazer ainda demandará muito tempo para que possamos colher frutos..Mas, em algum momento temos que mudar….digo mudar pois, nossos representantes quando la estão, esquecem que um dia ja estiveram onde nós atualmente estamos….Dai o que é resolvido jamais beneficia o nosso aluno ou povo. Acho tambem que o Jeferson foi brilhante em seu ultimo trabalho…parabens…Abraços a todos. e obrigado

Gabriel , não existem todos. Só eu, Rose Marinho Prado. E fiz a entrevista sozinha.

O tom bacana ele deu.

Tb sou da mesma terra dele.

Preciso mandar o link dessa entrevista pra ele. Eu estava na comunidade do orkut, mas acabei saindo. Não gosto de comunidade paradona.

Vou ver se volto …até pra discutir um pouco a literatura dele…

Se souber o email do Jef. Mande o link pra ele.

Canjiquinha: de canjica, de origem controversa. Pode ter vindo do português canja, que por sua vez procede do malaio kanji, arroz com água; do ameríndio acanijic; ou ainda do quimbundo kandjika ou do quincongo kanjika, papa de milho grosso cozido. A canjica é doce típico da culinária brasileira. É consumida o ano inteiro, mas a demanda é maior nas festas juninas. O dicionário Aurélio a define assim: “Papa de consistência cremosa feita com milho verde ralado, a que se acrescenta açúcar, leite de vaca ou de coco, e polvilha com canela”. Já a canjiquinha mineira, também feita de milho, porém quebradinho, é salgada e seus ingredientes incluem sal, cebola, alho e pimenta. O jornalista e escritor mineiro Jeferson Ribeiro de Andrade (62), um dos intelectuais que mais lutaram contra a censura na ditadura militar pós-64, em Nunca Seremos Felizes, aberto com a frase “o futuro é um amanhã que nunca chega”, diz do acepipe: “A canjiquinha com costelinha é um dos pratos mais típicos das nossas Minas Gerais inteira. É apropriada para uma ocasião como esta, já que nem precisamos ter um acompanhamento, como o arroz. Faço com duzentos gramas de canjiquinha e um quilo de costelinha. Uso uma colher de gordura, uma de alho, uma de urucum”.

Caro Jefferson este foi o modo que encontrei para agradecer as emoções que senti e ainda sinto ao ler e várias vezes reler o livro sobre Anna de Assis. Eu que sempre fui romântica, sempre acreditei no amor e que misteriosamente sou saudosa de uma época em que não participei, fiquei muito emocionada com os relatos de Judith. Me envolvi tanto com essa história que passei a pesquisar mais, porém fico muito triste em ver que ainda hoje lançam comentários maldosos e preconceituosos.Fazia faculdade de Letras em 95 e jurava que minha tese seria sobre esse amor que o destino traçou com linhas tão suaves quanto a beleza e ao mesmo tempo tão rudes quanto às tragédias.Mas, infelizmente não pude terminar o curso,porém, continuo pesquisando…é importante pra mim. Procuro “sentir” tudo o que se passou e entender cada pessoa envolvida,buscando os momentos bons,a vida familiar e principalmente esse sentimento de amor, de cumplicidade que se deu tanto entre Anna e Dilermando como entre mãe e filhos. Os valores de coragem e luta…de pessoas que infelizmente foram vítimas de um destino impiedoso, mas que ainda assim conseguiram seguir em frente e provar para muitas pessoas que o amor é capaz de romper qualquer barreira,qualquer preconceito…e ainda resistir ao tempo. Muito obrigada por todo esse sentimento que juntamente com Judith conseguiu transmitir através de uma literatura simples e transparente e com certeza digna de todos os elogios. Que Deus os abençõe sempre.

mANDEI SEU TEXTO PARA O GERAÇÃO EDITORIAL, TALVEZ CONSIGA FAZÊ-LO CHEGAR ATÉ O JEFFERSON,.

Eu, estou lendo NUNCA SEREMOS FELIZES, e estou gostando muito.

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