Aula de redação

“Sem conexão, somos nada” (Dr. Wire)

Posted on: julho 14, 2008

Eu, Rose, não gosto de bancos, desses que guardam dinheiro. Desconfio de todos. Mas o Itaú ‘Cultural’ é bacana.

Este é Dr.Wires

Leia a entrevista.

Conectado por um fio

Eles estão em todos os lugares. Em casa, no trabalho, na rua. Sem eles, provavelmente, viveríamos na escuridão, o trânsito seria um caos ainda maior, diversos computadores e aparelhos telefônicos não funcionariam, muitas ligações e conexões estariam abaladas. O poder, tanto literal quanto metafórico, que os fios exercem é a obsessão do ciberneticista Dr. Wires. “Sem conexão, somos nada”, acredita. Nascido, “muitos anos atrás”, em uma “pequena ilha do norte da Inglaterra”, atualmente vive em Nova York, cidade da qual retira inspiração para explicar, de maneira simples, teorias complexas. Divulgador e defensor de uma ciência mais acessível, Wires mantém o site www.drwires.com. Ele acredita que a ciência não se tornará popular a menos que as pessoas se dêem conta de que necessitam dela em seu cotidiano “para viver melhor e mais facilmente, para estar mais conectados com os outros, para ter uma existência social maior”.

E por falar em conexão, parece haver uma entre os trabalhos dele e de outro ciberneticista, o também britânico Paul Pangaro. Segundo Wires, ambos sabem reconhecer uma boa teoria; mas as semelhanças não acabam por aí: eles carregam uma semelhança física que só não os torna a mesma pessoa devido à gravata borboleta, aos cabelos grisalhos despenteados e aos óculos fundo de garrafa de Wires. Nesta entrevista, ele evidencia a emergência presente em nossa vida, lembrando sempre a importância dos fios em tempos de tecnologia wireless.

O seu nome, Wires, transmite a idéia de conexão e de interação. Por que é tão importante estar sempre conectado e interagindo com outros elementos?
Meu pai era cantor, um tenor da Toscana, Itália. Minha mãe era telefonista. Eles não se davam bem. Então, tive de aprender sozinho o que é importante para viver, como estar conectado com as pessoas. Wire (cabo/fio em inglês) é uma conectividade elétrica, um canal criado, um meio de dar energia à outra pessoa, uma forma de dizer algo, um jeito de ouvir outra pessoa. Essas interações para nós, seres humanos, são a base para estar e permanecer vivo. Somos criaturas sociais, precisamos viver em conectividade. É isso o que significa ser humano. A mensagem do Dr. Wires é sobre a energia e a vibração de ser humano na presença da tecnologia.

O senhor costuma abordar assuntos complicados de uma maneira acessível. Qual seria a explicação mais simples para o conceito de emergência?
Emergência é um termo científico recente. Ele tenta descrever como sistemas – biológicos, tecnológicos, sociológicos – possuem regras simples das quais emergem comportamentos complexos, daí a palavra emergência. Vejamos a minúscula criatura chamada formiga. Elas não são muito inteligentes, mas a sociedade na qual vivem é muito complexa: existem colônias, elas constroem formigueiros, atacam seus inimigos, buscam alimento. Ou seja, isso mostra uma variedade extraordinária de comportamentos complexos para uma criatura que tem um sistema nervoso e um cérebro tão pequenos. Você já viu aquelas linhas com formigas se movimentando muito rapidamente em ambas as direções, algumas correndo para buscar alimento e outras trazendo comida para o formigueiro? Isso é surpreendente, mas por que acontece? Se fosse um sistema humano, você diria “Bom, deve haver um guarda de trânsito que diz: ‘Ok, pessoal, vamos todos para o sul, viramos à direita e aí para a esquerda e lá vocês encontrarão um pouco de queijo e, quando o pegarem, cortem um pedaço grande, voltem para o formigueiro, deixem-no aqui e saiam novamente'”. Claro que não é isso o que acontece numa colônia de formigas. Elas têm regras muito simples. O que fazem é se movimentar de forma aleatória, devagar, sem destino, tentando encontrar alimento e, ao encontrar, dizem “Oh, que maravilha” e voltam para o formigueiro. É aí que começa a mágica. Quando elas retornam ao formigueiro, deixam um rastro, um odor. São os feromônios, que criam uma trilha atrás das formigas, e quanto maior o número delas mais forte fica o cheiro, e quanto mais forte o cheiro mais ele atrai outras formigas e mais outras encontram o queijo e o trazem de volta, e, dessa forma, você tem uma extraordinária rodovia de formigas indo e vindo.

De que forma a emergência está presente em nossa vida, em nosso dia-a-dia, em contextos político, social e cultural?
No mundo físico – da energia, da massa, dos átomos e assim por diante -, as forças agem levando a uma evolução no sentido darwiniano, a uma evolução de um sistema, à complexidade e, claro, à vida, à emergência da vida. É necessário dizer que a emergência é um nome dado a alguns processos evolucionários atuantes, à medida que os sistemas vão do simples ao complexo. E o Dr. Wires criou esse pano de fundo como contexto, porque é exatamente esse tipo de emergência e evolução que ocorre nos contextos político, social e cultural. A rotina diária de hoje vem diretamente do que pode ser descrito como a emergência, não durante anos, e nem durante uma vida toda, mas durante milênios de mudanças culturais, desde as culturas consideradas mais primitivas até as chamadas sofisticadas. Mas é claro que o Dr. Wires não gosta de toda essa terminologia porque ela vem de um ponto de vista externo. A natureza da política, da sociedade e da cultura está toda enraizada no fenômeno da emergência.

E quanto à sua vida, o senhor se lembra de algum episódio que pode ser relacionado ao conceito de emergência?
Episódio vem do grego e significa na estrada, quer dizer, a criação do caminho, da experiência, da sensação. Há quem pense que o tempo exista na forma de segundos e horas e dias… O Dr. Wires considera o tempo como algo que ocorre e é percebido. Podemos ficar sentados por horas e horas e acreditar que só se passaram cinco minutos, podemos viver uma experiência terrível de dez segundos e achar que durou 20 minutos. Um episódio é algo memorável e uma novidade, porque é inesperado, é uma surpresa. Qualquer surpresa que aconteça pode ser atribuída a um tipo de emergência, e um episódio ocorre no momento em que eu me surpreendo com o que aconteceu. Encontrei alguém e tivemos uma conversa ótima, ou olhei para fora e notei as pessoas andando, uma criança gritando, e tudo isso junto se transformou em algo memorável. Então, na verdade, a emergência está por toda parte. É decorrente de algo que aconteceu antes e que de certa forma era simples, e o que emergiu foi surpreendente, novo. Nesse sentido, a emergência é um fenômeno do observador. Quando penso sobre os episódios da minha vida, eu diria que todos aqueles que foram importantes para mim – portanto, aqueles de que eu me lembro – resultaram de um comportamento emergente.

Emergência pode ser entendida pela formação de eventos complexos com base em regras simples. O senhor poderia nos dar algum exemplo do processo inverso, ou seja, regras complexas que resultam em eventos simples?
Sim, apaixonar-se. Na verdade, apaixonar-se é algo muito, muito simples, quando você se satisfaz nessa experiência. Porém, isso vem de precedentes muito complexos. Bom, você tem um sistema elétrico chamado sistema nervoso em um corpo, que está sentindo e interagindo com o chamado mundo externo. Você tem um sistema químico, que é todo composto de hormônios e proteínas, e toda essa mágica acontece no fluxo sangüíneo. Isso tem a ver com a emoção e a regulação dos aspectos internos do corpo. Os sistemas elétrico e químico são extremamente complexos, são muito, muito difíceis de descrever. É impossível saber, num dado instante, o que está acontecendo nesses sistemas e, mesmo assim, ao nos apaixonarmos, o êxtase, a unidade com o outro, a universalidade do sentimento, a simplicidade de estar conectado e inteiro com outro ser humano é o mais simples possível.

O que faz uma regra ser simples e um resultado ser complexo? Quem determina o tipo de classificação e qual é o critério para classificar regras e resultados dessa forma?
Uma regra, ou situação, ou um sistema não é inerentemente simples ou complexo. Somos nós que, como observadores, criamos, dependendo de como reagimos à situação, a complexidade ou a simplicidade. Pode-se dizer que o objetivo do sistema nervoso é colocar ordem na experiência. Se a cada instante de cada momento de cada dia tivéssemos de processar tudo o que está sendo sentido, não teríamos muito tempo livre, não é? O que ocorre é que temos uma visão geral do mundo. Dizemos “Isso é um objeto e ele não vai mudar, portanto, posso ignorá-lo. Aquele som é repetitivo, não vai mudar, posso ignorá-lo. Aqui vem o predador, ele está prestes a cortar minha cabeça, é melhor eu fazer algo rápido”; essa é uma diferença que faz a diferença. Todo esse ordenamento de ocorrências faz com que, com o tempo, a gente construa uma linguagem, e é ela que expressa a complexidade.

O senhor já afirmou que a inteligência não surge do previsível, mas, sim, do imprevisível. Sabendo que a imprevisibilidade é uma marca dos fenômenos emergentes, poderíamos, então, dizer que a inteligência é uma forma de emergência? Por quê?
A definição de inteligência que o Dr. Wires gosta é a de que ela ocorre numa interação entre um sistema que tem uma meta e o ambiente. Algumas formas de inteligência são comportamentos emergentes. Se eu visse uma criança de 5 anos andando pela rua e essa criança sentasse e tocasse Mozart perfeitamente, eu me surpreenderia. Agora, poderíamos dizer que a inteligência do Mars Rover, um robô que foi enviado ao espaço e pousou na superfície de Marte e se moveu, se adaptou, e fez várias coisas interessantes é emergente? Não, porque ele foi programado para isso. Algumas formas de inteligência não são emergentes, porque as compreendemos e não ficamos surpresos como o comportamento emerge.

A arte em geral pode ser considerada um fenômeno emergente?
De uma forma resumida, sim. A arte luta para criar experiências novas e faz isso numa mídia específica. Na opinião do Dr. Wires, a essência da arte é dizer algo original, algo que seja uma novidade, é expressar talvez uma necessidade humana característica da época ou do sentimento humano. Mas deve-se fazer isso de uma forma nova, porque se for repetitivo, se Bach escreve algo e o Dr. Wires escreve a mesma coisa, qual é a razão para isso? A arte, como a expressão do original, produz novas experiências, e elas são, para um observador, o emergente. Nem todos os fenômenos emergentes são arte. Mas eu diria que toda arte é emergente, caso contrário, não é novidade, portanto, não é uma boa arte.

Como transformar esta entrevista em um fenômeno emergente?
Não podemos. Ela já é isso. Você não pode transformar uma coisa em algo que ela já é. Na verdade, poderíamos transformá-la num fenômeno não-emergente, eu poderia me repetir e me repetir e continuar me repetindo, isso seria um fenômeno não-emergente. Isso tem a ver com a conversação, um fenômeno emergente.

O que é ser Dr. Wires na era da tecnologia wireless?
É uma alegria para o Dr. Wires trazer sua mensagem sobre conectividade na era do wireless. A mensagem se torna mais importante. Há uma ilusão de que não há problemas em estarmos separados. Ilusão de que estar longe de alguém, ser capaz de enviar um torpedo e dizer “Oi, mãe, estou em casa” são suficientes para se conectar. Mas isso não é verdade. Nos tempos do wireless, não estamos conectados por um sistema físico, um fio, um cabo ou um corpo físico. No entanto, para sermos verdadeiramente wireless, para estarmos desconectados no sentido metafórico, implicaria sermos não-humanos. Na distinção de Heinz Von Foerster [ciberneticista austríaco], você pode viver de duas maneiras: à parte e desconectado do mundo, o que o leva a fazer declarações do tipo “Você deveria agir assim”, e “As minhas idéias são melhores do que as suas”. Ou você pode conscientizar-se de que faz parte dessa condição de contribuição, em que o que pode emergir ao estar conectado é mais ético, mais justo. Podemos evoluir juntos, concordando uns com os outros – e, claro, discordando algumas vezes -, pois ao manter a conexão estaremos cientes desses desacordos e os entenderemos, em vez de sacar nossas armas. Devemos é sacar nossos cabos e fazer uma conexão.

http://www.itaucultural.org.br/impressao.cfm?materia=545

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