Aula de redação

Para meu ex-aluno Diogo

Posted on: agosto 4, 2008

“Ah Rosa!

eu não sei..mas não consigo me sentir nesse grupo de médicos..de estudantes d medicina. Minha cabeça não bate mto com a cabeça deles, de verdade. Idéias, modo de ver a vida, tudo é tao diferente.

pra vc ter uma ideia, la na facul eu quase nao ando com o pessoal d med..as amizades q eu fiz mesmo são com um pessoal de farmácia e T.O.

me sinto em outro mundo..eh meio ruim. Quantas vezes já pensei em largar a medicina por não ter tanta vontade de aprender essas matérias, por não encontrar alguém q tenha ideias parecidas com as minhas!

O que eu realmente gosto na medicina é essa relação + íntima com a outra pessoa! É a capacidade de fazer a outra pessoa se sentir melhor, em todos os aspectos.

“Todos” na medicina dizem q, com o passar do tempo, a gente muda esses pensamentos. Se for verdade, espero poder ser uma exceção no futuro.

Realmente, é dificil viver num mundo que não é o seu. Mas é pra isso mesmo q o sorrir existe, certo?”

Diogo,

escutar os outros tem serventia. Mas requer cautela. Em especial, quando se é jovem.

Gastei a juventude dando ouvidos aos outros, cujos vaticínios me assustaram. Fui e vim em ziguezague sôfrego. Onde é a saída?

A escolha da profissão é a hora em que as opiniões avolumam. Ciências Sociais, Rosa? Vai pra cadeia, menina! Ingressar neste curso já a coloca com ficha o Dops! Olha o futuro! A maioria dos cientistas sociais acaba na banca de jornal. Hoje eu até gostaria de ter uma banca de jornal. Mas, naquele tempo, eu me queria grande. E ponha grande nisso!

Cursei um ano. Abandonei. Depois o Direito. Abandonei. A turma de artistas já caçoava: “Que curso mais careta! Por que não faz Belas Artes? É a sua cara!


Ainda não lhe contei da adolescência. Hoje quando visito fotos antigas eu quase choro. De dó da mocinha linda, cabelos cacheados e muito magra. Nada de me aceitarem. Por que não alisa o cabelo? Você é bonita, mas é magra demais. Baixinha. Precisa comer mais!

O bacana era ter corpão. Eu tinha, mas não dava na vista. O que abundavam eram as críticas. “Ela é bonita, dona Brígida. Mas a timidez é que estraga”.

A última frase quem disse foi o diretor da escola. Que tratava de me aconselhar. Mamãe no desamparo: “Rosa, quando encararem você, pelamordedeus, não baixa os olhos. Baixou o outro manda!”

Arranjei um namorado só pra dar satisfação pra galera. O primeiro namorado! Tão violento. Dirigia em disparada! Eu ia gritando pelo caminho. Não fazia idéia de que existiam rapazes calmos. E o primeiro namorado imprime marca. E a dele não foi das melhores.

Por isso, Diogo, não se importe quando lhe disserem que, com o tempo, o estudante de medicina perde a sensibilidade, vira máquina de curar!

Grande parte dos médicos trata o paciente como se frango fosse. Depenam, besuntam-no de óleo. O cara sai cacarejando. Ou vai pro frigorífico! (Ah! Mas a alma dele vai atazanar o médico, se vai!).

Tive um aluno, o Nicolas – o tipo de cara de humanas. E, biológicas. Quando entrou na medicina me escreveu. “Rosa, não estou agüentando. A turma vê o doente de modo bruto. Doente não é máquina. Fora isso, jogam futebol. Ninguém fala em Guimarães Rosa! Será que você pode voltar a me dar aula? Sinto falta de pensar.

Escrevi um e-mail. Pedi que agüentasse. Que a vida não era moleza. Aula que nada!

Nunca mais me escreveu. Deve estar no quarto ano.

Você lembra, Diogo, o dia que pedi pra parar de fazer aula comigo? Magoei você e mais, a mim. Pra falar a verdade, eu o achava cabeça-dura. Estávamos, a um passo do vestibular, e nada de você acreditar que eu podia ensinar. Você duvidava. Eu não conseguia lhe estender a mão. Você sofria, eu sofria.

Porque o que você queria era colo. Como é que a professora que conhecera ano antes podia lhe ensinar pra medicina? Não tive dúvida: “Não quero mais lhe dar aula!”.

Perdemos contato. Não fosse a internet, você ainda teria de mim a imagem de bruxa. Mas o que eu fiz foi lhe dar um pontapé em direção à rá ré ri ró rua!

Não me arrependo. A rua era o seu amadurecimento. Porque nunca vi um garoto tão sensível e carinhoso. Brincalhão. A cada graça que eu fazia você me beliscava. Engraçado, né? Como é que um menino ia agüentar a faculdade?

E hoje você me diz que o pessoal da faculdade é frio.

Diogo, manda esse pessoal pentear macacos! Porque o coro é o que menos conta. Aprenda o ofício de curar, assim como quem aprende a fazer calças. Molda corta. Alinhava direito. Porque o que precisa é competência.

Há uma música do Milton Nascimento, assim: “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada. Agora não espero mais aquela madrugada. Vai ser vai ser faca amolada. Um brilho cego de paixão e fé, faca amolada”.

Canta?

Uma verdade. Você precisa lidar com facas. Cortar para curar. Untar para aplacar a dor.

Se um dia eu precisar de médico, vou procurar você.

E, se eu lhe contasse que caí na minha profissão por acaso? Virei professora e sou feliz. Na felicidade que me cabe.

Fui aluna velhona nas letras. Quando entrei já tinha 27 anos. Mas pergunta se nessa época dei ouvido a alguém? Eu já sabia que qualquer caminho que escolhesse seria pesado. Cursei letras assim como se aprendesse a fazer bolo. Lembra das minhas aulas?

Amor e consideração. Muita diversão e açúcar. De triste basta o mundo.

Professora particular não tem recreio, nem sala de professores. Mão única. É ela e o saber, os alunos.

Conforte seus pacientes, estude muito, descubra a cura. A humanidade agradece.

Um beijo.

http://www.youtube.com/watch?v=6TMj7EN60aU

1 Response to "Para meu ex-aluno Diogo"

Este blog …não me permite mais acessá-lo. Já pedi ao wordpress. são textos meus, coisas subjetivas, coisas que escrevi para alunos. Já pedi. Não adianta. A tecnica claro deixa tudo muito ao deus-dará.

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