Aula de redação

A genialidade é uma invenção?

Posted on: agosto 5, 2008

Leia o texto. Escreva sua dissertação. Para isso busque responder à questão: a genialidade existe?

“O psicólogo americano Robert Weisberg, 64 anos, dedica-se a estudar a criatividade humana. Para tanto, o professor da Universidade de Temple, na Filadélfia, vem esquadrinhando a vida e a obra de gênios das artes e da ciência, como Mozart e Einstein, em busca de explicações diferentes do mito de que a criatividade é um privilégio de poucos. Em livros e artigos sobre o tema, ele tem mostrado que a inventividade dos gênios difere muito pouco daquela que o restante da humanidade emprega diariamente em tarefas corriqueiras do dia-a-dia. Para Weisberg, a produção de obrasprimas ou de grandes descobertas científicas depende de um elenco de fatores, e não apenas de inspiração. O que difere os gênios do restante da humanidade, acredita o psicólogo, é a vontade genuína de produzir algo inteiramente novo, e a perseverança para alcançar esse objetivo. Weisberg falou à ISTOÉ quando esteve em São Paulo, recentemente, para participar do Congresso Pitágoras, promovido por um instituto de ensino para discutir educação, no qual analisou a criatividade e a inovação no mundo contemporâneo.

ISTOÉ – O que significa ser criativo?
Robert Weisberg – É produzir coisas novas o tempo todo, intensamente, em grande e pequena escala. Não importa se você inventa um gravador digital ou prepara um prato juntando ingredientes de uma forma inédita. O principal é que se trata de algo novo e feito de forma intencional, não por acidente.

ISTOÉ – Uma boa parte de seu trabalho é dedicada a desmistificar a figura do gênio. Quais são os equívocos mais comuns a respeito das pessoas altamente criativas?
Weisberg – A primeira é que apenas um tipo específico de pessoa é criativa, e que ela usa processos mentais diferentes do restante dos seres humanos. Existe um mito de que os gênios usam processos inconscientes para criar suas obras ou têm patologias mentais que contribuem no processo criativo. Isso não é verdade.

ISTOÉ – Mas não se pode dizer que são pessoas comuns.
Weisberg – As diferenças existem, claro. Picasso, por exemplo. Um aspecto bem distinto dele foi sua produtividade. Ele trabalhava o tempo todo e queria, propositadamente, criar coisas novas. Quase todos nós podemos aprender a desenhar. Não acho que essa habilidade seja o que o diferencia do restante, mas talvez o desejo de produzir algo novo, que afete o mundo.

ISTOÉ – Como a ciência está ajudando a provar que as obrasprimas não são o resultado de um talento muito especial ou de um momento de iluminação?
Weisberg – Pesquisadores como eu analisam minuciosamente casos específicos, como o de Picasso e de Mozart, e os comparam com estudantes universitários comuns. A idéia é buscar similaridades entre os processos mentais desses dois grupos analisando o comportamento deles.

ISTOÉ – E o que já se concluiu com essas análises?
Weisberg – A principal conclusão é a de que os gênios sobressaem porque se comprometem de uma maneira muito mais intensa com o que querem alcançar. A vida, para os gênios, se resume ao trabalho. Todo o resto está subjugado a isso, o que torna a convivência com eles bastante difícil. Mas todos podem ser gênios.

ISTOÉ – É possível que, em algum nível, a criatividade extrema seja o resultado de algum processo inconsciente do cérebro?
Weisberg – Existem dois usos para o termo inconsciente. Um é tudo aquilo que se torna automático, como levantar e andar, ou outras coisas que você faz sem pensar. O outro é o inconsciente freudiano, no qual as conexões são mais obscuras e freqüentemente relacionadas a eventos ocorridos no passado, especialmente na infância.

ISTOÉ – Esse tipo de inconsciente está relacionado à alta criatividade?
Weisberg – Alguns pesquisadores acham que sim. Eu sou mais cauteloso.

ISTOÉ – Por quê?
Weisberg – Porque muitas das explicações que vi ao estudá-lo não são tão boas assim sob o ponto de vista da ciência. Elas ilustram uma história, mas como é possível obter comprovação científica delas? Como provar realmente que, ao pintar a Mona Lisa, Leonardo Da Vinci estava fazendo uma referência inconsciente à própria mãe? Não há evidência suficiente para afirmar isso. É apenas uma história. Você acredita ou não.

ISTOÉ – A criatividade é nata ou é possível desenvolvê-la ao longo da vida?
Weisberg – As duas coisas. Quando nós, humanos, nos adaptamos constantemente a um mundo que muda de maneira vertiginosa, estamos sendo criativos. Afinal, estamos fazendo algo que nunca fizemos antes. Isso mostra que a criatividade é nata e que todos podemos ser mais ou menos criativos. Por outro lado, também é possível desenvolver a criatividade estimulando a evolução de uma habilidade específica. Fazendo isso de forma sistemática, muitos excedem em seu campo de atuação.

ISTOÉ – Com o que se sabe hoje, é possível afirmar que a criatividade tem alguma origem nos genes?
Weisberg – Não sou geneticista, mas hoje uma série de estudos já demonstrou que a forma como o seu genoma se expressa depende do ambiente social, cultural e, sobretudo, biológico em que você se desenvolve. Dizer que a origem da criatividade está apenas nos genes ou apenas no estímulo a certas habilidades é uma premissa equivocada. Ela resulta da interação de tudo isso.

ISTOÉ – A criatividade de uma pessoa é afetada pela forma como ela foi criada por sua família?
Weisberg – Já existe evidência de que os prodígios, já em idades iniciais, contam com um grande apoio de seus familiares para desenvolver suas habilidades. Por exemplo: há pais que se mudam para o outro lado do país para proporcionar melhores professores a seus filhos. Mas há também o suporte negativo. A irmã mais velha de Mozart também tocava piano e, diz-se, era muito melhor do que ele nesse instrumento. Mas ela era mulher e, na época, todo o suporte foi dado ao desenvolvimento do pequeno Mozart. Se ela tivesse recebido a mesma atenção, talvez tivesse se saído até melhor do que ele.

ISTOÉ – Qual a influência da personalidade nesse processo?
Weisberg – Há muita discussão sobre o que constitui a mente criativa. Observando a personalidade de Picasso ou de Einstein, por exemplo, é difícil estabelecer se eles se transformaram em pessoas altamente criativas por conta de sua personalidade ou se ela foi moldada pela grande criatividade de cada um. Eu acho que se trata das duas coisas. Alguns traços de personalidade, como ser aventuroso ou inquieto, podem impulsionar um indivíduo a ser mais criativo. Por outro lado, ser criativo e bem-sucedido em uma área de atuação dá a confiança necessária para ir além de onde normalmente se teria ido.

ISTOÉ – Os processos cerebrais que culminam na produção de algo altamente criativo são os mesmos na arte e na ciência?
Wisberg – Há diferenças. A ciência lida com coisas que estão no mundo. Se James Watson e Francis Crick (os descobridores da estrutura do DNA) não existissem, outra pessoa teria descoberto a dupla hélice. Na arte é diferente. Se não houvesse Picasso, jamais haveria (o quadro) Guernica. Também é verdade que a ciência precisa de imaginação. Watson e Crick imaginaram que havia uma dupla hélice no DNA. Já Picasso precisou do mundo exterior. Ele se baseou em coisas que foram feitas no passado, como, por exemplo, a obra de Goya, para produzir os desenhos em Guernica. Nesse sentido, não é possível dizer que os processos mentais nessas duas áreas são totalmente iguais ou totalmente distintos. Eles se sobrepõem.

ISTOÉ – Qual a importância do erro?
Weisberg – Ainda não tenho certeza se os erros são realmente importantes ou se eles simplesmente acontecem. Se uma pessoa começa um projeto e não sabe tudo sobre ele, cometer erros é normal. São os erros que dizem o que não funciona. Sabendo isso de antemão, o caminho para realizar algo fica mais curto.

ISTOÉ – O sr. acha que a criatividade é supervalorizada hoje?
Weisberg – É verdade que as pessoas dão uma atenção fora do comum ao tema. Se, a partir disso, surge uma crença de que apenas poucas pessoas são realmente criativas e por isso mais importantes do que o restante, acho que, nesse sentido, a resposta é sim. Mas, se enxergarmos em uma perspectiva mais ampla, a criatividade está em tudo o que fazemos. Pensando assim, a resposta é não.

ISTOÉ – Como os pais podem ajudar a desenvolver a criatividade dos filhos?
Weisberg – Estimulando-os o tempo todo. Não os deixando loucos com coisas demais, claro, mas expondo-os o máximo possível. É preciso lembrar que a criança deve expressar suas preferências de forma natural. Ficar o tempo todo repetindo que ela vai ser um astro do esporte ou um virtuose em algum instrumento não é a melhor forma de estimulá-la. Os pais devem prover as oportunidades. Criar um ambiente propício para o desenvolvimento dos talentos da criança.

ISTOÉ – E qual o papel da escola nesse desenvolvimento?
Weisberg – Há quem diga que a escola atrapalha um pouco, na medida em que absorve demais a criança com tarefas variadas. Eu não acho que seja assim. A escola tem de mostrar às crianças o que os grandes gênios fizeram e a forma como eles alcançaram seus feitos, sem colocá-los em um pedestal.

ISTOÉ – Crianças altamente criativas deveriam ser colocadas em escolas ou classes diferenciadas, para desenvolver melhor suas habilidades?
Weisberg – Não sou um educador e por isso não tenho certeza se faria uma grande diferença separar o aluno muito criativo do restante.

ISTOÉ – Qual o papel da criatividade no ambiente de trabalho?
Weisberg – Hoje se vê que muitas empresas tentam organizar o ambiente de trabalho para enchê-lo o máximo possível com elementos que estimulem a criatividade. Algumas dizem a seus funcionários: passe 20% do tempo pensando apenas em coisas que digam respeito a você e não ao trabalho.

ISTOÉ – E isso traz resultados?
Weisberg – Claro. Em empresas que criam um ambiente propício para estimular a criatividade de seus funcionários, as grandes idéias costumam vir de baixo para cima, e não o contrário. A Toyota é um exemplo disso. Todos os funcionários, da idealização à linha de montagem, são estimulados a opinar sobre o que funciona e o que poderia ser melhorado no carro que estão produzindo.

ISTOÉ – Em ambientes de trabalho mais formais, o que se vê é o contrário: o supercriativo é deixado de lado na hora das grandes decisões. Por que isso acontece?
Weisberg – É uma questão intrigante e eu não entendo por que isso ocorre. Há empresas que são conhecidas como fábricas de idéias, onde tudo é informal. Os funcionários podem trabalhar vestindo bermudas, e ninguém usa terno e gravata. Na Califórnia existe um punhado delas. Eles têm pranchas de surfe penduradas na parede e quem quiser ir à praia pegar umas ondas pode fazê-lo sem problemas. A idéia é deixar a pessoa livre para perseguir suas idéias. É o chamado “pensamento fora da caixa” (do inglês, out of the box thinking). Acontece que isso não é a base da criatividade, e, nesse sentido, a distinção entre pessoas altamente criativas e o restante de nós está errada. Gênios podem funcionar tão bem quanto a média da população na tomada de decisões e deveriam ser estimulados a fazer isso assim como são estimulados a desenvolver seu trabalho criativo.

ISTOÉ – É comum a associação entre grande criatividade e doença mental, como transtorno bipolar ou esquizofrenia. Existe hoje evidência científica suficiente para fazer essa relação?
Weisberg – Não. E é preciso ter cuidado com essa associação. Já há evidência de que uma pessoa com tendência à bipolaridade pode ficar maníaca quando consegue atingir uma meta que foi perseguida com afinco, como pintar um quadro ou desenvolver uma nova invenção. Esse é um dos motivos pelos quais se tende a relacionar loucura e criatividade. Mas nem sempre é assim. Também se sabe que, quando estão no auge das fases depressiva ou eufórica, essas pessoas não conseguem trabalhar bem. Muitos artistas crêem que parar de tomar a medicação vai deixá-los mais criativos para produzir suas obras, e o que acontece é terrível: muitos cometem suicídio. A relação entre loucura e genialidade é complicada demais para ser reduzida a uma simples associação com a prevalência de doença mental em pessoas altamente criativas.

ISTOÉ – Os recursos disponíveis hoje para desenvolver as capacidades humanas estão cumprindo seu objetivo?
Weisberg – Eles ajudam muito. Quando, há dois séculos, um pensador cujo nome não lembro agora vaticinou que já não havia mais nada para inventar, Albert Einstein apareceu e virou tudo de cabeça para baixo. No início deste novo milênio, muito se especulou sobre o que aconteceria com a humanidade e a verdade é que ninguém sabe. Acho que sempre será assim. Quando achamos que nada mais pode ser inventado, é só sentar e esperar o dia seguinte.”

http://sementesestrategicas.blogspot.com/2008/06/todos-podem-ser-gnios.html

“Há quem acredite que os pássaros cantam melhor se forem cegos. Há quem
pense que músicos são devassos vagabundos vivendo como na valsa de
Strauss, entre “vinho, mulheres e música”. Há os que crêem que os
músicos são seres estranhos, escolhidos e privilegiados, afundados em
gabinetes escuros, debruçados sobre os seus pianos à luz de
candelabros, aguardando as epifanias que os deuses lhes soprarão nos
ouvidos. Há até quem lamente que músicos, os verdadeiros, os mestres de
tanta maravilha, já não existem mais, desapareceram com os lampiões a
gás, as carruagens e a tísica.

Em um mundo sitiado por caixas de som, já não sabemos quem são os
gênios e os vendilhões do templo, quem os criadores, quem os espertos.
E a música? Onde andará?

Filosofia

O crítico do New York Times Edward Rothstein publicou esta semana o
artigo “Mitos sobre os gênios”, sobre o livro recém lançado do filósofo
Peter Kivy “O Possuidor e o Possuído: Haendel, Mozart, Beethoven e a
Idéia do Gênio Musical”.

Rothstein salienta que os filósofos nunca questionaram a existência dos
gênios, mas o que os define. Para ele o reconhecimento da genialidade
não está sujeito às mudanças do mercado ou do gosto – um gênio pode ser
um fracasso inicial para ser aclamado no futuro. A objetividade no
julgamento deles e a sua origem em diversas culturas poderiam ser
provadas pelo reconhecimento universal e perene tanto a Shakespeare
como a Beethoven. Assim, para aceitarmos a existência dos gênios,
teríamos que admitir “a possibilidade de 1) uma hierarquia do talento,
2) julgamento objetivo e 3) autonomia estética”.

Para Peter Kivy, embora o conceito de genialidade tenha sido muito
maleável, existem dois mitos dominantes sobre os gênios na cultura
ocidental. O primeiro, proposto por Platão, é que o gênio é um
recipiente passivo da revelação divina. O segundo, atribuído a
Longinus, é o de que o gênio é um criador. Assim, para Longinus o gênio
é possuidor e para Platão, um possuído; Haendel corresponderia, então,
ao modelo do criador potente de uma música sublime, enquanto Mozart
seria uma espécie de um homem-criança repleto de inesgotáveis
revelações. Beethoven, uma síntese dos dois, aparece como um criador
iconoclasta e um profeta inspirado. “Gênios são explicados segundo os
mitos de cada época. Eles são atribuídos a inspirações etéreas, uma
capacidade extraordinária de concentração, a uma vontade poderosa, ao
inconsciente coletivo ou a dotes genéticos. A explicação mais atual é
de que eles são uma construção ideológica – gênios seriam uma ilusão
manipulativa”. A resposta de Edward Rothstein para as críticas de que
gênios e suas obras são produtos de época, de interpretação e de gosto
é ouvir as “Variações Goldberg”, de J.S.Bach, a Sonata Opus 111 de
Beethoven, “As Bodas de Fígaro”, de Mozart e os Quartetos de Cordas de
Bartók.

Dádivas do Destino

Há pessoas cujo privilégio em conhecer pessoalmente eu incorporei ao
meu currículo, gente a quem dediquei uma admiração reverente e amorosa.
Ano passado, como um presente do destino, como uma dádiva do Marcos Sá
Corrêa, conheci a escritora que marcou a formação literária dos meus
filhos e sobrinhos, que me ensinou tanto sobre como pensar com
palavras. Podem me invejar, é isso mesmo o que pretendo – eu almocei
com Ana Maria Machado um longo almoço até o fim da tarde.

Entre tantas coisas conversadas entre risos e emoção, Ana Maria
comentou comigo sobre as observações de George Steiner, ensaísta,
crítico de literatura e de cultura, sobre a onipresença da música. Sem
querer ou planejar, outro dia esbarrei em um livro dele – “Nenhuma
Paixão Desperdiçada” – em uma livraria ali ao lado de onde almocei com
Ana Maria. Pois este foi um dos livros mais intensos e inteligentes,
mais eruditos e saborosos que já li.

“O encordoamento da memória só pode ser retesado onde haja silêncio.
(…) Aprender de cor, transcrever fielmente, ler com toda atenção é
fazer silêncio dentro do silêncio. Será tarefa dos futuros
historiadores da mente humana mensurar o fenômeno da redução de nossa
capacidade de atenção e do esgarçamento da nossa concentração que
resultam do simples fato de podermos ser interrompidos a qualquer
instante pela campainha de um telefone, pelo fato ancilar de que a
maioria de nós acabará atendendo o telefone – a não ser quando
estoicamente decidimos em contrário – seja o que for que estejamos
fazendo. (…) Há estudos recentes dando conta de que aproximadamente
setenta e cinco por cento dos adolescentes nos Estados Unidos têm
sempre ao fundo um som ligado enquanto lêem (um rádio, um toca-discos,
um aparelho de tv, no próprio cômodo onde se encontram ou no cômodo ao
lado). Um número crescente de jovens e adultos confessa-se incapaz de
se concentrar em um texto sério sem um “background” de som organizado”.

E a música, maestro?

Muito embora fale muito sobre ela, no trecho que citei acima (mesmo nos
que retirei) Steiner não fala de música. O que quero ressaltar é que
não se trata de uma mera omissão – aquele som ligado ao fundo, aquele
som organizado não é música. Mesmo – e principalmente – se estiverem
tocando Beethoven.

Meu argumento é aplicar à música o mesmo critério que Steiner aplica à
literatura e que poderia, rigorosamente, ser aplicado a qualquer obra
de arte:

“A boa leitura pressupõe resposta ao texto, implica a disposição de
reagir a ele, atitude essa que contém dois elementos cruciais: a reação
em si e a responsabilidade que isso representa. Ler bem é estabelecer
uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é
embarcar em uma troca total”.

“O ato e a arte da leitura séria comportam dois movimentos principais
do espírito: o da interpretação (hermenêutica) e o da valorização
(crítica, julgamento estético). Os dois são absolutamente inseparáveis.
Interpretar é julgar”.

Não poderíamos dizer exatamente o mesmo sobre a audição de um disco ou
de um concerto? Não é assim que deveríamos ver um filme ou uma peça de
teatro, ou ver uma obra de arte?

“O significado é um atributo do ser”.

Sem saber o que ouvem todas aquelas pessoas, posso afirmar que não
ouvem música. Som organizado, som de fundo, qualquer coisa que fique
ali enquanto elas lêem – ou trabalham ou fazem qualquer outra coisa que
não seja ouvir com aquela “relação de reciprocidade” – não é música.
Mas se estão me achando muito rigoroso vamos então tentar julgar
musicalmente o que aquelas pessoas estão ouvindo.

Quem são os gênios

Talvez seja melhor estabelecer logo quem não são os gênios, já que são
comuns as confusões sobre isso. Memória enciclopédica ou fotográfica
pode ser bom, mas não são sinais nem razoáveis de genialidade da mesma
maneira que esquisitices e cacoetes variados também são, geralmente,
quase nada além de cacoetes e esquisitices. Da mesma forma, usar óculos
aos 3 anos é sinal de problemas de visão e mesas desorganizadas indicam
dificuldades de organizar a mesa. Facilidade com a matemática, escrever
com as duas mãos, cantar afinado, jogar xadrez, também não são sinais
seguros. Ser incompreendido e morrer sem vender nenhum quadro também
não vale.

Como ainda não li o livro de Peter Kivy, vou usar critérios sobre
genialidade que li há anos atrás e, desde então, os adotei como
satisfatórios. Em um livro delicioso chamado “Aqueles cães malditos de
Arquelau”, Isaías Pessotti descreve um almoço de seus personagens, onde
uma maravilhosa “fagianella” – um faisão assado – é o pretexto para
discutir genialidade. A cena se passa em uma pequena taberna do
interior da Lombardia chamada Menarost, na pequeníssima vila de
Sant’Hilario, no caminho para Santa Chiara. Decidido que os
acompanhamentos serão polenta branca, batatas ao forno e creme de maças
silvestres, os amigos incorporam à discussão sobre genética e
genealogia o amigo Giulio, dono da taberna e marido da genial
cozinheira Lisa. Depois de muito discutir as origens da receita daquela
magnífica “Fagianella de Lisa”, o desenvolvimento de suas técnicas, os
aperfeiçoamentos por ela introduzidos, as muitas descobertas, podem
chegar, então, a uma conclusão:

“Desculpe, Giulio. Entendo que Lisa criou uma receita nova e deliciosa.
Mas qual é a diferença entre novidade e genialidade de uma receita?”

“Uma receita é genial quando tem três qualidades. Ela deve ser
original, uma solução superior para obter um certo prato, e deve
produzir novas receitas ou aplicações a outros pratos. A de Lisa é
genial por tudo isso: é completamente nova, resolve melhor os problemas
do preparo do faisão, como sabor, umidade, cor, aroma e, em terceiro
lugar, já fixou um estilo, uma marca dos pratos de Lisa”.

Está bem, está bem, vão me dizer que comida não é coisa séria e que não
dá para pensar a partir de faisões no interior da Itália. Mesmo
descordando quase furioso – “sapere” é a raiz de saber e de sabor -,
vou aplicar os mesmo critérios aos criadores de música.

Por exemplo…

Se estes critérios estivessem corretos e pudessem ser aplicados aos
compositores, poderíamos classificar como gênios os que, normalmente,
já são classificados: Bach, Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Verdi,
Debussy, Stravinsky, Kurt Weill, Charles Ives, Louis Armstrong, Dizzie
Gillespie, Chet Baker, Benny Goodman, Ernesto Nazareth, Villa-Lobos,
Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Tom Jobim, Chico Buarque de Hollanda,
Guinga, entre dezenas de outros. Também poderiam passar a ser incluídos
vários músicos que são considerados “geniais” sem compreendermos
exatamente o porquê. Darei um exemplo.

Ele nasceu em uma família pobre e foi criado por tios e tias em um
lugar que, no Brasil, chamaríamos de favela. Quase não estudou e criou
problemas desde a puberdade. Suas mãos imensas e ferozmente ágeis
realizavam vibratos inimagináveis. A sua forma de afinar seu
instrumento foi inventada por ele e possibilitou uma integração inédita
com os instrumentos de sopro. Ele esteve sempre interessado em todas os
gêneros musicais de seu tempo, adorava jazz e os clássicos de todas as
épocas, mas seu preferido era Wagner. Sofreu insuportavelmente sob a
direção de empresários que não admitiam experimentação musical e seu
desejo ardente de trabalhar fez com que assinasse contratos cedendo
toda a sua obra futura (!) a bandidos disfarçados de produtores. Foi
obrigado a repetir centenas de vezes os mesmos malabarismos no palco
com seu instrumento e, para expressar sua dependência e os abusos que
sofria, chegou a representar no palco o seu seqüestro pelos agentes.
Pressionado para apresentar-se diante de platéias sempre maiores, ele
se apresentou ou gravou durante todas as noites de seus últimos quatro
anos de vida, sem nenhum descanso. Perfecionista, levava horas afinando
seu instrumento e nunca parava de estudar. Ao morrer, aos 28 anos,
deixou gravados o equivalente a 473 discos. Como se chamava esse gênio?

O resto

O resto nunca para de crescer nas duas pontas. De um lado aproximam-se
dos gênios elencos de boa qualidade, mas nada além disso, muito mal
acompanhados por irreverência juvenil e novidade comercial,
propositalmente confundidas. Na outra ponta do resto cresce, como
sempre cresceu, o que poderíamos denominar conscienciosamente de
porcaria.

Como todo o sistema musical contemporâneo se baseia no disco, todo o
pensamento crítico que deveria ser dirigido à música, acaba por se
dedicar ao disco. Experimente ler as resenhas musicais dos periódicos
que você preferir e você constatará que elas falam de disco: de onde
ele veio, quantas e quais são as faixas, o que ele representa na
carreira do seu autor, quais as diferenças para melhor ou para pior
comparado ao disco anterior, quais as razões da gravadora, como é o
show de lançamento, por onde passará a turnê, e as intermináveis
filiações e fusões desse ritmo com aquela batida, mas naquela variante
neo-new-pro-sub-rap-funk-mangue, mas coesa e coerente. É muito mais
fácil entender James Joyce no original.

O disco na era fonográfica alcançou o status de instrumento. Diga que
um DJ não é um músico e todas as pragas do Egito desabarão sobre você,
mesmo que você ache que músico já não é grande coisa.

Mas gênios para quê?

O “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” nos ensina que gênio é
“espírito que, segundo os antigos, regia o destino de um indivíduo, de
um lugar etc., ou que se supunha dominar um elemento da natureza, ou
inspirar as artes, as paixões, os vícios etc. (o g. protetor de uma
comunidade) (o g. do fogo) (o g. da música)”; ou a “aptidão natural
para algo; dom (ter o g. dos negócios)”; pode ser também uma
“extraordinária capacidade intelectual, notadamente a que se manifesta
em atividades criativas (o g. de Mozart)” ou o “indivíduo dotado dessa
capacidade (Leonardo da Vinci era um g.)”.

Se for assim, precisamos deles como exemplos e como referência. Bach
trabalhou sem parar compondo obras primas que só seriam conhecidas e
reconhecidas séculos depois; Mozart ampliou os entendimentos do que é a
humanidade enquanto criava uma nova função para o artista nela.
Beethoven? Leonard Bernstein escreveu a melhor definição que conheço
sobre Beethoven, e que poderia valer para Shakespeare ou Michelangelo:
“Há qualquer coisa certa nesse mundo. Qualquer coisa que, a todo o
momento, tem coerência, que segue consistentemente a sua própria lei,
qualquer coisa em que podemos confiar e que nunca nos deixará
desamparados”.

Ah… O nome daquele gênio? Jimi Hendrix.

Ricardo Prado é maestro.

http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0201/0296.html

“É cíclico. Volta e meia alguém me aparece com o seguinte papo: “Julio, eu conheci um gênio! Um escritor de alta, altíssima literatura – você tem de publicar”. Como se eu estivesse procurando… “Procura-se gênio: paga-se bem (tratar com o Editor)” – como se essa tabuleta estivesse pendurada em algum lugar no site… (Se vocês acharem, vocês me falam? Eu preciso tirar do ar.)

Tá, eu conheci alguns “gênios” – entre wannabes e hasbeens. No início do Digestivo, muitos colaram em mim, visando minha jugular, feito vampiros. Os gênios da vida real são um problema para a nação: produzem obras de arte, sim, mas sugam todo mundo… Já os gênios de mentira só sugam.

E eu morro de preguiça do “gênio” hoje. Do “gênio incompreendido”, então, mais ainda – porque se o sujeito viveu uma vida inteira de incompreensão, como é que eu posso ajudar?

O “gênio” ou wannabe, na forma de escrevinhador, é um fardo para editores em geral. É a contradição em pessoa: quer ser descoberto mas não ajuda nem um pouco; sabe que tem de fazer alguma coisa para melhorar (e, finalmente, acontecer) – mas não aceita qualquer aconselhamento ou direcionamento que venha de fora.

Também, pudera: quem passou toda a sua existência – até, digamos, a minha chegada – ouvindo “nãos”, apenas espera ouvir um “sim” estrondoso, amplo e absoluto (e nenhuma outra coisa). Ei, “gênios” de plantão: isso não existe, tá bom? Todo mundo precisa ser trabalhado, principalmente uma pedra bruta…

Existem “gênios” piores do que outros. Os que colocam, voilà, todas as suas esperanças na malfadada “palavra escrita”: no Brasil, estão condenados a morrer de fome. Esses se aproximam de tipos como eu, mas logo se voltam contra – acontece que o problema não é meu, nem do Digestivo, nem de qualquer outra publicação; é, outrossim, de um País inteiro que, para essa espécie de inteligência, não dá nenhum valor.

Os “gênios” vivem de altos e baixos. Logo, são difíceis de lidar. E o Digestivo, por exemplo, é um periódico, faz jornalismo… Precisamos estar atualizados, sempre “no ar”, temos compromissos com nossos Parceiros e Leitores. E, insistindo mais um pouco neste raciocínio, sabendo que tudo tem de dar certo – funcionar como um relógio –, como é que eu posso admitir alguém do tipo inconstante?

Já tive, se interessa saber, “gênio” preso, “gênio” que tentou se suicidar, “gênio” que escreveu um texto inteiro contra (dentro do meu próprio site)… “Gênio” que num minuto me ama, no outro, quer me matar… Agora, olha bem pra minha cara: acha mesmo que eu deveria aturar?

Há fases em que você está mais suscetível ao “gênio”, na realidade – acredita, também, que ele possa te salvar. Mas gênios entre aspas sofrem de “auto-sabotagem” crônica: afundam e, no passo seguinte, querem te afundar. Dos que tentaram, aqui, levar o navio a pique, reconheço alguns que insistem e que hoje afundam, por aí, outras embarcações…

Eu penso que faz parte do gênio (sem aspas, de verdade) abrir caminhos que revelem sua própria genialidade – e não ficar cobrando promoção ou consagração de outras pessoas. Em outras palavras (e de uma vez por todas): não é missão, vamos dizer, do Digestivo lançar “mentes brilhantes”. Porque acredito no seguinte: elas mesmas vão se lançar.

Além desse defeito, de esperar reconhecimento, “gênios” são afoitos e querem estourar logo (assim que têm a primeira oportunidade). Quando, historicamente falando, gênios sem aspas trabalham duro e estouram depois de uma longa caminhada. (Rimbaud talvez seja, nas letras, a única exceção que confirma a regra – a da improbabilidade do gênio literário precoce.)

“Gênios” velhos, então, é pior. Não aconteceram ainda, mas já incorporaram a mania da velhice de querer ensinar. Se os “jovens” deviam ser mais humildes por não saberem ainda nada, os “velhos” deveriam ser igualmente humildes (ou até mais) por terem tentado e, por enquanto, só falhado. Entre a prepotência e a ignorância, há alguma virtude que me foge?

O “gênio” com bagagem é tão ou mais problemático, porque ele quer usar essa “bagagem”, mostrar todos os seus dotes – e anseia por um nível de consagração muito mais sofisticado. A frustração, nessa escala, é proporcional. No mundo dos esportes – apenas a título de curiosidade –, seria algo como um atleta fechado durante décadas numa sala de ginástica que, de repente, fosse disputar uma competição outdoor. Boa coisa não ia dar…

No caso dos escritores, é ainda mais grave, porque a tendência do autor (wannabe or not) é ir se isolando cada vez mais. Quando sai dos seus aposentos para o inevitável choque com a realidade, o “gênio escrevinhador” não suporta a disparidade entre suas ambições e realizações na prática e prefere cavar ainda mais fundo suas catacumbas. Um editor pode ser esse “chamado às falas”, admitamos. Mas olhe aqui pra mim, agora (de novo): eu lá tenho cara de que quero interromper esse ciclo vicioso?

Eu tenho muita pena dos escritores, porque eles se defendem exatamente dessa forma (da rejeição): se afundando aos poucos. E podem viver uma vida inteira sem saber – ou, vá lá, até intimamente sabendo – que são um fracasso. Conheço escritores fracassados que nem em mil anos vão melhorar. Mas não tenho coragem de alertá-los (eles colocaram toda a sua vida nessa história…). Você, no meu lugar, teria coragem?

É diferente em outras profissões. Um advogado, um médico ou um engenheiro até pode reclamar de ser um “gênio incompreendido” de vez em quando, mas lá no fundo sabe que não é mesmo grande coisa – porque o reconhecimento, nessas áreas, tem de vir agora, em forma material, senão não vale. O “gênio escrevinhador” (ou “artístico”, vamos extrapolar) tem sempre a desculpa da incompreensão do mundo (mesmo que se saiba um fracasso na intimidade; ou até principalmente por causa desse fato…).

Eu tenho dó, mas não posso fazer mais do que já faço (eu faço jornalismo, cara pálida). Eu não convenço as pessoas da “genialidade” alheia, essa é que é a verdade; talvez convença da qualidade literária, mas isso, no Brasil, não basta.

Pessoalmente, não acho que o gênio – quando ele existe “por escrito” – está logo numa primeira frase, mas, ao contrário, está no trabalho acumulado. E meia dúzia de pessoas apontando para um sujeito e proclamando, em uníssono, “gênio!” também não me diz nada. Como dizia o Nélson, nosso amigo, é a tal da unanimidade. (Burra, claro.)

Eu fico cansado de ter de calibrar meu detetor de Q.I., ou de inteligência emocional, toda vez que alguém bate à minha porta e demanda: “É gênio ou não?”. Mas eu entendo, vai… eu entendo de uma maneira ou de outra. Os escrevinhadores – e o público leigo – falam mal da crítica, por hábito, mas é ela a única capaz de realmente “avaliar”. (Escrevinhadores puxam o saco uns dos outros…) Sem fortuna crítica, um autor não é nada: morre e acaba. Mesmo que venda muito. O Paulo Coelho, com todos os seus superpoderes de mago – hey, Paulo, não é nada pessoal –, tenta se vingar da crítica a cada obra, mas não adianta nada.

O selo de qualidade do Julio (ou do Digestivo) pode até ter algum valor, eu assumo – mas não funciona como uma balança de precisão em miligramas. O negócio é orgânico. O gênio vai passar pelo nosso campo de visão e, se estivermos num dia bom, vamos apontar: “Olha o gênio lá!”. O que não significa que as pessoas vão parar e olhar…

O resumo da ópera é: não tentem acelerar o compasso. Se for mesmo ocorrer, ocorrerá. E daí que o “gênio” vai se matar se demorar? Se ele for gênio mesmo, você não vai conseguir salvar. (Nem, muito menos, eu, tá?) ”

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1971

Gênios são freqüentemente acusados de falta de senso comum. Casos de gênios em determinadas áreas sendo
incapazes de “captar” conceitos corriqueiros são abundantes e antigos; Platão, no Theaetetus (diálogo) fornece uma
anedota pitoresca sobre a distração de Thales. Einstein, supostamente, muitas vezes se esquecia se tinha almoçado e
costumava calçar meias de cores diferentes. O foco intenso que um gênio coloca em um determinado assunto pode
parecer de natureza obsessiva-compulsiva, mas pode também ser simplesmente o resultado de uma escolha feita pelo
indivíduo. Se alguém está realizando um trabalho revolucionário em algum campo, a manutenção dos outros elementos
da vida pode ser logicamente relegada à insignificância. Apesar da idéia do professor distraído não ser totalmente
desprovida de valor, um gênio encontrará tantos problemas emocionais como qualquer outra pessoa. Note as
peculiaridades de figuras como Glenn Gould e Bobby Fischer.”

Texto muito bom que exigirá fôlego do aluno, vale a pena acessar o link.

http://geniosdobrasil.com/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=13

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