“Não sou xiita em matéria de videogames para crianças. Claro que os jogos de luta são assustadores, com sangue espirrando, impiedade assassina, violência contra (e de) mulheres.

Entendo, todavia, que esses jogos de computador têm duas funções para as crianças, mesmo pequenas, como é o caso do meu filho de cinco anos e meio. Trata-se, em primeiro lugar, de uma das raras oportunidades que ele tem para se sentir forte e poderoso. Imagino a sensação de fragilidade, de desamparo, que o acompanha desde o nascimento, ocupante de um pequeno corpo cercado de adultos que falam alto e, basicamente, passam o tempo todo a transmitir-lhe ordens e proibições.

Em segundo lugar, um bom treino em videogames passou a ser essencial para a própria sociabilidade dos meninos. No meu tempo, bastava ser bom em futebol. Hoje, a habilidade no computador constitui igual fonte de prestígio.

De qualquer modo, não há muito como lutar contra uma característica que é básica nessa nova geração. Para o bem ou para o mal, faz parte do que as crianças hoje são, e do tipo de adultos que serão amanhã. A influência em sentido contrário –livros, natureza, etc.—se dá nas horas vagas, e não deixará de marcar as diferenças individuais contra o pano de fundo comum e cibernético.

Dito isso, começo a ver com mais nitidez os males que o uso do videogame está causando na minha precária paz doméstica. Evidentemente, aquilo vicia. Até aí, nenhuma novidade: fui viciado em histórias em quadrinhos, outros o foram em futebol ou balas de goma.

O problema é conviver com o viciado. Repentinamente, a necessidade de entrar no site de jogos se manifesta a toda hora, e ai de quem quiser regular essa atividade (minha mulher e eu queremos, claro). O comportamento do meu filho passou das manhas da primeira infância para a rebeldia adolescente. Não ouço choradeiras, não presencio esperneios: passei a ser chamado de “panaca” e presenciar cenas de mau humor.

A razão é simples: o videogame evidenciou para meu filho o contraste entre seus poderes virtuais, imaginários, e aqueles que de fato tem. É nisso que reside, afinal, o conflito básico da adolescência, admiravelmente explicado pelo meu colega de Ilustrada, Contardo Calligaris.

Mais do que isso, a vida virtual abre para cada criança um mundo próprio, no qual ela é independente de seus pais. Já não precisa que lhe contem historinhas, ou que a levem ao circo, ao cinema ou ao zoológico. Os adultos se tornam dispensáveis, desde que provenham a senha do speedy; uma banana, portanto, para o que disserem depois.

O resultado, como em toda experiência educacional, acaba sendo mais draconiano do que seria de desejar. Proibições, cortes, restrições estão a caminho. Mais um pouco e prestarei consultoria ao ministro Paulo Bernardo e outras autoridades econômicas do governo federal.