Os últimos acontecimentos divulgados pela imprensa trouxeram à tona um debate há muito deixado de lado pela sociedade: a questão indígena. A “luta” em torno da reserva Raposa Serra do Sol, o espancamento a facão sofrido por Paulo Fernando Rezende -engenheiro da Eletrobrás- e as fotos de uma tribo indígena ainda não identificada, no Acre (fronteira do Brasil com o Peru), em 23 de maio, expuseram uma faceta do governo Lula, e dos governos capitalistas como um todo, que alguns poderiam acreditar não existir mais: a política de genocídio implementada pelo Estado sobre a comunidade indígena.Quando o Ministério da Justiça definiu pela desocupação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima (em 27 de março), por arrozeiros, para torná-la, de fato, uma reserva, intensificou-se uma guerra já existente em torno da terra. A disputa se dá entre fazendeiros extremamente bem armados e seguidos por um bando de capangas, contra índios, com seu armamento artesanal e suas tribos cada vez mais minguadas.

Só para lembrar que a “justiça” voltou atrás em seu mandado de desocupação e que, desde então, a mídia fortaleceu o discurso governamental do risco que corre a soberania do Brasil em ter, nas zonas de fronteira, reservas indígenas. Ou seja, as regiões de divisa entre o Brasil e outros países precisam ser defendidas pelo braço armado do Estado – o exército – ou por outros de seus auxiliares -empresários e latifundiários- que cumprem, muitas vezes melhor que o próprio exército, a função de defesa incondicional do Estado burguês e de seus interesses.

O engenheiro da Eletrobrás, Paulo Fernando Rezende, esteve em um encontro para discutir a construção da hidrelétrica de Belo Monte, na cidade de Altamira (sudoeste do Pará) em 21 de maio. Apresentou o projeto do governo, uma das obras prioritárias do PAC, de construção de uma hidrelétrica no Rio Xingú. Ao terminar sua explicação, foi surrado a golpes de facão pelos índios presentes, expressando o quão oprimidos e excluídos os indígenas se sentem dentro da civilização “branca”, urbana e capitalista. Eles têm sido permanentemente expulsos das regiões onde habitam. São empurrados para as cidades, vivendo marginalizados e em situação de indigência, ou em aldeias de constante interferência “branca”, sendo assim “aculturados” e deixando de lado seus costumes, tradições e o conhecimento que possuem quanto à sobrevivência fora da sociedade capitalista.

Mas a descoberta dos índios “invisíveis” na fronteira brasileira, ao contrário dos episódios citados acima, não representa qualquer ato de violência ou hostilidade da parte dos indígenas. Entretanto, ainda que a simples exposição de fotos de grupos até então desconhecidos pelo governo e entidades responsáveis pela questão indígena não aparente nada de extraordinário, não podemos negar a essência de alguns pontos levantados. A imprensa e o governo vêm utilizando-se de uma seqüência de acontecimentos para defender que as reservas indígenas não podem ser em regiões de fronteira – pois isso compromete a defesa do território nacional. Também não poderiam ser em áreas “produtivas” – o que desestabilizaria as relações de Lula com os latifundiários. O último argumento é que os índios seriam agressivos, selvagens, mas cidadãos como quaisquer outros, devendo, portanto, serem punidos como tal caso pratiquem algum ato que atente contra as normas sociais.

Que os explorados e oprimidos decidam seu futuro

Aqui queremos esclarecer que, independente das opiniões a respeito, as regras de convivência entre as tribos indígenas não são iguais sequer entre elas mesmas, o que dirá em comparação com as regras da sociedade capitalista. Os Estados do continente americano tomaram medidas para lidar com essas diferenças: o extermínio, como o praticado nos EUA no início do seu processo de construção enquanto nação, ou a marginalização, como a praticada no Brasil.

Entretanto, os anos em que os índios vêm sendo esquecidos e ignorados em suas aldeias agora cobram o seu preço. Essas aldeias têm sido invadidas por empresários e latifundiários que buscam maior território para seus investimentos, promovendo um verdadeiro genocídio sobre esse grupo, seja diretamente, através do assassinato resultante da luta armada, seja indiretamente, com o seu refúgio em zonas onde não conseguem desenvolver-se plenamente, sofrendo de doenças como desnutrição, tuberculose, alcoolismo.

Só para se ter uma idéia, entre 2006/2007 o índice de índios assassinados aumentou 64% nacionalmente sendo que, só no Mato Grosso do Sul, esse índice chega a 99%, conforme dados divulgados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em abril desse ano.

Logo, o governo brasileiro, além de não ter condições de resolver os problemas indígenas, contribui para esse genocídio silencioso que vem ocorrendo há anos. E o governo Lula assim faz, pois lucra com isso: os latifúndios são um grande centro de lucro para o governo, tendo grande parte de sua produção destinada à exportação. De outro lado, as reservas indígenas não rendem absolutamente nada para o Estado, já que produzem para sua subsistência. Conseqüentemente, não interessa ao governo desapropriar os latifundiários e suas lucrativas propriedades. E quem perde com isso não são somente os índios.

O ataque aos índios é um das formas de expressar o preconceito e a violência desse Estado contra a classe trabalhadora como um todo, sendo ainda mais cruel com determinados setores que sofrem opressão por sua orientação sexual (como os homossexuais), pelo seu gênero (as mulheres) e pela sua raça (negros e indígenas). Defendemos que esses setores devem ter suas políticas próprias para lidar com esses problemas, buscando uma saída revolucionária, de ruptura com o capitalismo e de busca por uma sociedade sem exploração e opressão.

Nesse sentido, as tribos que buscam viver em reservas, devem ser atendidas e ter sua vontade respeitada, para viverem de acordo com suas próprias leis. Se isso significa a divisão e, quem sabe, a diminuição do território brasileiro, podemos estar certos de que o território brasileiro hoje é ameaçado de maneira muito mais assustadora por outros setores. É o governo Lula e são os banqueiros e empresários que entregam nossas riquezas. São eles nossos inimigos, ao permitir que nosso petróleo, carvão, aço, ferro, água e todo o resto fiquem na mão das multinacionais.

Os índios já foram quase dizimados, foram humilhados, estuprados e explorados… Nós defendemos que eles, junto com os demais explorados e trabalhadores do Brasil, lutem para derrubar o governo e o capitalismo, que são a causa disso tudo. Mas, se sua opção for qualquer saída que vá ao sentido de autodeterminar-se como nação, são eles quem devem poder decidir sobre isso. O prejuízo não será dos trabalhadores pobres do Brasil se os índios virarem as costas ao estado que os esmaga. Quem sai perdendo com isso serão aqueles que concentram terras e exploram mão-de-obra barata, ou seja, os mesmos que, além de inimigos dos índios são os inimigos de todos nós trabalhadores.”