Aula de redação

Para a Verônica: um pouco sobre o neoliberalismo

Posted on: setembro 4, 2008

Vou colocar alguns links. Você estuda mais, depois que estiver na Faculdade.

http://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/neoliberalismo-1.htm

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A compreensão econômica do Neoliberalismo

Buscando compreender o neoliberalismo a partir de suas origens, pode-se estabelecer a distinção existente em relação ao liberalismo político clássico, do século XIX. Perry Anderson apresenta uma síntese bastante elucidativa a respeito: “ O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciadas como ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política.”[1]

3.2 A compreensão política do Neoliberalismo

Anthony Giddens, a seu turno, ao tratar do neoliberalismo, deixa de lado a contemporização característica com a qual analisa o fenômeno da globalização, para demonstrar o vínculo entre governos de direita e o neoliberalismo: “A direita significa muitas coisas diferentes em diferentes contextos e países. Mas uma das principais formas em que o termo é usado atualmente é na referência ao neoliberalismo – e especificamente à conservação da tradição enquanto ‘sabedoria herdada do passado’.O neoliberalismo não é conservador nesse sentido (bastante elementar). Ao contrário, ele dá início a processos radicais de mudança, estimulado pela incessante expansão de mercados. Como já foi dito, a direita tornou-se radical, enquanto a esquerda busca principalmente preservar, tentando proteger, por exemplo, o que sobrou do welfare state.” [2]

O receituário neoliberal tornou-se conhecido através das práticas de diversos governos, principalmente nos anos 80 e 90, onde a ênfase concentrava-se no enxugamento do Estado, fundamentalmente mediante a privatização de empresas públicas, retirando-o de atividades que podem ser exploradas pela iniciativa privada, diminuição dos gastos públicos sociais, eliminação de subsídios e desativação de mecanismos de controle de preços, abertura do comércio à competição externa e internacionalização dos processos produtivos, deixando o caminho da servidão aberto para aqueles que não fazem parte do mercado: párias, excluídos, descamisados, enfim todos os que não fazem parte da cadeia produtiva e de consumo de massa.

O objetivo nunca foi ocultado: “o ideário do neoliberalismo adquire predomínio mundial, como ideologia e prática, modo de compreender e agir, forma de gestão do mercado e poder político, concepção do público e privado, ordenação da sociedade e visão do mundo.”[3]

A situação paradoxal que resulta desta combinação de políticas neoliberais, onde se produz cada vez mais, e se lucra cada vez mais, é o desemprego daqueles que não produzem e a pobreza daqueles que não consome: “O capitalismo, como o símbolo mais proeminente da modernidade contemporânea, acumula miséria e pobreza.”[4]

Quanto aos efeitos do neoliberalismo, se por um lado “seria uma leviandade afirmar que o neoliberalismo é o único responsável pela pobreza mundial. – Sabe-se que a pobreza remonta a priscas eras. – Por outro lado, seria uma ingenuidade desconsiderá-lo como responsável direto pelo recrudescimento dos níveis de pobreza em todo o mundo.”[5]

Pode-se afirmar, com certeza, que “…a consolidação do neoliberalismo trouxe consigo alguns graves problemas. A desigualdade social como fator positivo, tão arduamente defendida pelo teóricos neoliberais, culminou em uma grave contradição que coloca em xeque todo o sistema. Os governos ao redor do mundo que seguem o receituário neoliberal, por necessário e inerente, têm ampliado de tal forma o número de excluídos do sistema que estes começam a formar grandes grupos, auto-interessados e não esporádicos, que se movem, ao mesmo tempo, em direção aos interesses dos governos e das oligarquias (capitalistas) no poder.”[6]

Neste sentido, já anotou o Prof. de Teoria Política da Universidade de Buenos Aires, Atílio A. Boron, que: “O mercado demonstrou ser completamente inútil para resolver estes problemas e não porque funcione mal, mas porque sua missão não é de fazer justiça, mas a de produzir lucros.”[7]

No que tange a relação entre neoliberalismo e Direito, pode-se vislumbrar, como faz Oscar Vilhena Vieira, um equacionamento complexo onde as dificuldades são logo percebidas: “A política neoliberal, que restringe o papel do Estado na distribuição de riquezas e regulamentação da economia, imposta e adotada em diversos países marcados por abissais desigualdades sociais, como o Brasil, além de não fortalecer o Estado de Direito, como pretendem os hayekianos, ainda impõem maiores dificuldades para que o Direito, como estrutura ética aceitável, se transforme num válido e eficiente instrumento de organização da sociedade.”[8]


Texto da Folha de São Paulo: leia o que puder, Verônica.

Crítica ao neoliberalismo vem crescendo na China”

RAUL JUSTE LORES
da Folha S. Paulo, de Pequim

Em maio de 1968, o maoísmo era moda no mundo inteiro e Jean Luc Godard tinha acabado de lançar seu filme “A Chinesa”, sobre universitários franceses que estudavam Mao. A China vivia o auge de sua “Revolução Cultural”, quando “capitalistas e reacionários” eram assassinados ou levados a tribunais públicos de humilhação.

Quarenta anos depois, a China se tornou sede do capitalismo mais selvagem do mundo e Mao está mais presente em souvenirs turísticos que em debates intelectuais.

Mas isso não quer dizer que a esquerda foi totalmente varrida do país. Apontado como líder da “nova esquerda” chinesa, o professor de literatura Wang Hui, 48, da Universidade Tsinghua, a segunda mais importante do país, diz que ainda há debates na China críticos ao neoliberalismo.

Wang foi editor entre 1996 e 2007 da revista “Dushu”, uma das principais publicações de debates do país, da qual foi demitido no ano passado “por não poder se dedicar em tempo integral”. Leia a entrevista que ele concedeu à Folha por email, da Itália, onde está lecionando.

*

FOLHA – Em 1968, como Mao diria, a faísca provocou um incêndio que se alastrou pelo planeta, e o maoísmo tornou-se popular até mesmo no Brasil. Quarenta anos mais tarde, porém, ainda existe algum valor que o sr. reconhece daquela era na China moderna, ou o maoísmo foi de certa maneira soterrado? O fato de a China rural e os trabalhadores migrantes, o núcleo da revolução, terem sido novamente esquecidos é uma ironia adicional?

WANG HUI – Para os chineses, o maoísmo, ao lado da revolução chinesa e do período socialista, é nossa tradição moderna. Não importa como as pessoas avaliem o legado de Mao, não podemos fugir dele. A reforma chinesa partiu da negação da Revolução Cultural e da reflexão sobre o legado de Mao. Entretanto, muitas conquistas importantes da reforma chinesa não podem ser explicadas no quadro do neoliberalismo –entre elas, a política de abertura lançada no inicio dos anos 1970 e o êxito inicial da reforma rural ainda eram uma reforma socialista. Falando de maneira geral, sem o estabelecimento da economia nacional independente através do processo de industrialização anterior à política de abertura, a reforma urbana da China e o aumento de seu PNB teriam sido mais difíceis.

Desde o final dos anos 1980, as condições sociais se modificaram drasticamente, com uma ampliação acentuada do desnível social e o fato resultante de a velha ideologia do Estado (ou seja, a ideologia socialista baseada na igualdade) ser cada vez mais contradita pela prática do Estado: cada vez mais, foi ficando difícil para o Estado seguir sua antiga agenda ideológica. O neoliberalismo, a nova ideologia dominante, entrava em conflito com as novas tendências de crítica social, que eram denunciadas como ideologia velha; os movimentos sociais e os apelos à reforma política eram reprimidos em nome da prioridade das reformas capitalistas.

Contra esse pano de fundo, protestos sociais, especialmente os protestos que contavam com a participação de trabalhadores e camponeses, apelavam ao maoísmo para justificar seus atos sociais. Baseados na necessidade de legitimidade, o Partido Comunista chinês ‘negou radicalmente’ a Revolução Cultural, por um lado, mas, pelo outro, não ‘negou radicalmente’ a revolução chinesa e os valores do socialismo, em especial o pensamento de Mao Zedong. Essa tradição tornou-se um poder confinador interno em favor da reforma do Estado, ou seja, cada transformação e processo decisório importante do ‘sistema de Estado-partido’ precisava ser estabelecida com base no diálogo e precisava combater essa tradição. Externamente, o Estado precisava enfrentar trabalhadores, camponeses e outros grupos sociais para os quais essa tradição se tornara uma força legitimadora, evocada para combater e negociar com o processo injusto de marquetização e privatização promovido pelo Estado. Assim, eles puderam limitar a expansão do neoliberalismo até certo ponto. Mas a evocação do legado socialista da China num contexto contemporâneo não deve ser entendida como chamado a um retorno ao socialismo de Estado, e sim como maneira de implementar a justiça social. De qualquer maneira, o maoísmo não é uma ideologia dominante. Mesmo para os intelectuais de esquerda, Mao é apenas uma de suas fontes de reflexão.

FOLHA – O crescimento econômico da China é elogiado em todo o mundo, apesar de ser acompanhado por uma desigualdade social crescente e alarmante. Como isso é visto no debate intelectual chinês? Existe outro tipo de crescimento possível? Ou será que vai prevalecer a idéia de ‘deixar o bolo crescer, e depois nós o repartiremos’?

WANG – A economia chinesa se desenvolveu muito rapidamente nos últimos dez anos. Falando de maneira geral, o crescimento tem sido de 10%. Mas a disparidade entre pobres e ricos, entre a região costeira e o interior, e, especialmente, entre a zona rural e a urbana, se ampliou muito. Somada à crise ecológica, a desigualdade social vem gerando muitos problemas sociais.

Desde meados dos anos 1990 vêm ocorrendo debates intensos entre intelectuais. O slogan dos neoliberais é “deixemos o bolo crescer e depois o repartiremos”, mas cada vez mais pessoas estão tornando-se muito críticas dessa tendência neoliberal.

FOLHA – Existe uma nova esquerda na China que critica as políticas neoliberais do governo chinês, para além dos esforços de construir uma “sociedade harmoniosa”? Onde está essa nova esquerda? Seus integrantes podem debater e se expressar? Existem facções ou dissensões no interior do PCC?

WANG – Eu gostaria de resumir aqui as principais diferenças entre a esquerda e a direita. Existem três questões que merecem atenção especial. Primeiro, no que diz respeito à relação entre o Estado e o mercado, os intelectuais críticos prestam mais atenção à relação complexa entre os dois, mais do que simplisticamente tomar o partido ou do Estado ou do mercado, segundo um modelo binário, neoliberal. O Estado é um ator do mercado, e o mercado funciona em relação ao Estado. O recuo do próprio Estado é uma questão política e precisa ser encarada desde a perspectiva da análise política.

A marquetização da China é realizada num processo de divisão de poderes. Enxergar o Estado como um todo homogêneo não demonstra como o Estado opera, nem pode definir o relacionamento entre as outras forças sociais e o Estado. Assim, os relacionamentos entre os diferentes níveis de governo, os diferentes mecanismos políticos e o mercado, incluindo seus grupos representativos de interesses especiais, são extremamente complexos. Existem muitos conflitos de interesses entre o governo central, os governos locais e os diferentes departamentos do Estado; cada ramo do aparato do Estado está conectado aos mercados domésticos e internacionais e outros grupos sociais de maneiras extremamente intricadas, e essas diferentes conexões também levam à multiplicação das relações de interesses compartilhados e conflitantes, que, por sua vez, se manifestam como apostas políticas e orientações múltiplas na tomada de decisões públicas. Assim, podemos detectar grande número de orientações contraditórias nas chamadas ‘atividades de Estado’, e também podemos perceber que coerência e conflito coexistem ao mesmo tempo nos processos decisórios de diferentes níveis e diferentes instituições. Nesse sentido, o método de enxergar o Estado como unidade homogênea de análise não passa de um construto ideológico.

Outra tendência política na China é a transformação do Estado e do Partido Comunista num órgão político despolitizado: em função do conflito entre a ideologia (comunista tradicional) e as políticas neoliberais, o Estado está gradualmente abrindo mão de seu papel ideológico e, cada vez, afirmando seu controle através do poder administrativo. Podemos observar um processo de desideologização ou despolitização na China hoje –embora, ao fazê-lo, o Estado frequentemente recorra a uma linguagem ideológica. Assim, atribuir tal operação do Estado e suas consequências à ideologia socialista é enganoso e não é válido. O que precisamos fazer, portanto, é avaliar melhor o novo papel do Partido-Estado, não obstante a aparência de continuidade.

Compreendemos, então, que são necessárias múltiplas explicações do Estado para compreender o status e os papéis exercidos pelo Estado na China de hoje. Precisamos imaginar uma análise política com a qual não iremos simplesmente identificar-nos completamente com o Estado nem negá-lo por completo e que leve em conta os diversos poderes políticos incluídos na categoria ‘Estado’. Nesse contexto, o que é preciso não é optar entre livre mercado e intervenção do Estado, mas considerar o relacionamento entre os dois em termos de como a função do Estado muda no ambiente do mercado. Assim, quando os intelectuais da direita lançaram um ataque contra o Estado em nome do mercado, eles esqueceram as transformações pelas quais esse Estado havia passado. Em contraste com isso, intelectuais críticos, ao mesmo tempo em que criticam a idéia neoliberal do recuo do Estado, insistiram ativamente que o Estado deveria adotar uma agenda social: que a política do Estado deveria mudar de ‘priorizar a eficiência e cuidar da igualdade’ para ‘priorizar a igualdade e cuidar da eficiência’. Acredito que esse é o construto mais positivo e mais democrático.

Uma segunda diferença diz respeito à privatização e aos direitos de propriedade. Para resumir, os intelectuais críticos são contra o dualismo dos direitos de propriedade públicos e privados. Eles sugerem, em lugar disso, que se entendam os direitos de propriedade desde a perspectiva dos relacionamentos sociais e que eles sejam vistos como uma espécie de feixe ou conjunto de direitos. O debate sobre a privatização ou a clarificação dos direitos de propriedade que está sendo travado neste momento NÃO é um debate geral sobre os direitos de propriedade. Ele está preocupado com a redistribuição da propriedade estatal no processo de desnacionalização e com a justeza dessa redistribuição. O debate não pode ser simplificado para virar uma questão de se propriedade privada ou propriedade estatal é melhor. Tampouco pode ser simplificado para a questão de se as regras de mercado ou a interferência do Estado são mais racionais. Um ponto crucial é como, na reforma, a propriedade estatal se converte em direitos de propriedade socializados, por exemplo direitos de propriedade do trabalho. Alguns economistas defendem a privatização e marquetização ilimitada, vendo-a como o único meio pelo qual a China poderá conquistar uma ordem de mercado com direitos de propriedade claros. Outros liberais descobriram que a marquetização chinesa não gerou uma ordem econômica espontânea, porque o mercado não é livre, e sim determinado, no qual a busca de renda pelo poder político é um vinculo importante. Esses liberalistas criticam fortemente a realidade e pedem justiça social simultaneamente com crescimento econômico. Entretanto, eles também simplificam a questão, convertendo-a numa questão de ponto de partida igual ou oportunidades iguais, e negam-se a fazer uma análise histórica séria do rearranjo das relações de propriedade. Como resultado dessa simplificação, presume-se que a privatização ou ‘separação’ sejam o objetivo inquestionável. A premissa da privatização como única forma viável suprime outras possibilidades sociais.

Aqui a diferença real entre os intelectuais críticos e outros não está na questão de se a propriedade privada deve ser protegida. A verdadeira diferença está em suas atitudes em relação a duas questões: primeiro, a propriedade tomada na reforma através da troca entre poder e dinheiro e outros meios ilegais vai aproveitar essa oportunidade para legalizar-se? Que tipo de mecanismo pode ser usado para calcular e avaliar a propriedade privada? A discussão recente sobre a perda de propriedade estatal na reforma neoliberal de estatais toca nesta questão. Segundo, dada a estrutura de dívida da zona rural, será que a privatização da terra levará a uma nova perda da terra pelos camponeses? Ela levará a mais um processo de fusão extremamente desigual? Antes de terem início os debates sobre zona rural, agricultura e campesinato, os intelectuais e os departamentos governamentais chineses já tinham começado a discutir a questão da privatização fundiária. Muitos economistas aprovam a privatização da terra; algumas autoridades locais que já lucraram também concordam com essa privatização, alguns funcionários e departamentos governamentais interessados em adiar a tomada de responsabilidades pelo Estado também são favoráveis à privatização da terra. Mas muitos camponeses são contrário a ela porque tiveram que manter a produção através de débito e crédito cm empréstimos; quando a privatização for posta em prática, grande número de camponeses vai perder suas terras da noite para o dia. O caso da privatização da terra nos impõe a reconsideração da questão da privatização na China contemporânea.

FOLHA – O que o sr. pensa do conceito de sociedade harmoniosa e as promessas do governo chinês de tentar corrigir as disparidades entre a China urbana e rural? A retórica é muito mais forte que os fatos, as políticas necessárias?

WANG – Em minha opinião, o conceito de sociedade harmoniosa tem dupla face: por um lado, é usado pelo novo líder do partido para trocar a velha política de desenvolvimento por mais preocupações com igualdade social, a reconstrução do sistema de bem-estar social, a crise da agricultura e questões ligados aos camponeses, à área rural e ao meio ambiente, mas por outro lado, o conceito simboliza o fato de a sociedade estar se tornando cada vez mais desarmônica.

Será que isso não passa de retórica? Neste momento, não tenho certeza. Desde 2000 têm havido muitas mudanças na política pública; por exemplo, o governo chinês anunciou uma nova política agrícola que inclui a isenção total do imposto agrícola e o lançamento da campanha de reconstrução do campo socialista. Também reconheceu o fracasso de seu sistema de assistência médica e prometeu lançar uma nova política. Por outro lado, porém, a tendência geral e o modo de desenvolvimento não mudaram.

FOLHA – O nacionalismo parece ter tomado o lugar do comunismo e é claramente estimulado pela mídia estatal. Quais são os efeitos do nacionalismo crescente, não apenas o nacionalismo ligado às Olimpíadas? O centrismo ocidental acabou? Mesmo os intelectuais estão menos capazes de criticar o governo?

WANG – Na mídia ocidental discute-se muito a ascensão do nacionalismo chinês. É verdade que o governo chinês promove o patriotismo em sua ideologia. No século 20, especialmente para o PCC, o patriotismo, e não nacionalismo, tem sido um valor fundamental. Ao mesmo tempo, há uma retomada do interesse pelas tradições chinesas. Falando de maneira geral, porém, a sociedade chinesa está muito mais aberta do que foi em qualquer momento do qual me recordo. Na sequência do desenvolvimento da economia chinesa, os conflitos entre a China e outros países, especialmente os países ocidentais, aumentaram. É verdade que existe uma tendência a um certo tipo de nacionalismo, mas as exclamações divulgadas nessas mídias sobre o nacionalismo chinês soam exageradas. Em vista do exemplo, o movimento estudantil de proteção da tocha olímpica foi defensivo, não agressivo. Acho que o movimento estudantil foi desencadeado principalmente pelos relatos enviesados publicados na mídia ocidental (não pelo que aconteceu no Tibet), especialmente pela CNN e a BBC, além de alguns outros jornais.

Esse tipo de movimentos estudantis e movimentos sociais não são controlados pelo governo chinês. De acordo com a experiência histórica do século 20, houve possibilidades de transformar esse tipo de movimentos sociais em movimentos pela democracia. O movimento de 4 de maio é desencadeado pelo resultado da Conferência de Paz de Paris em 1919. O movimento patriótico revelou ser um dos movimentos democráticos mais importantes da China moderna. Mesmo em 1989, uma das reivindicações do movimento estudantil era ser reconhecido pelo governo como movimento patriótico. Obviamente, aquele foi um movimento pela democracia e justiça social.

FOLHA – Embora alguns se queixem da crescente disparidade entre ricos e pobres na China, poucos discutem a possibilidade de uma democratização, uma abertura política no país. A democracia foi completamente adiada, mesmo pelos estudantes e pelo mundo acadêmico? Por que?

WANG – Uma das questões chaves nos debates intelectuais atuais é como compreender a democracia, se a democracia participatória é necessária e como lidar com a democracia formal. Muitos países terceiro-mundistas estabeleceram sistemas democráticos em sua forma, mas com frequência constatamos que tal democracia formal é fruto e resultado de uma aliança da elite; falta a ela um mecanismo para a participação social genuína. Portanto, contrastando com aqueles que dogmatizam a democracia, algumas pessoas desiludidas desistiram da idéia de democracia. Mas, na crise universal da democracia no mundo contemporâneo especialmente da democracia representativa, argumento que a chave para esta questão está em ampliar o significado da democracia para contextos sociais concretos, em lugar de enxergar a democracia como um formato pronto e passível de ser reproduzido.

De fato, o contraste entre democracia de elite e democracia popular é uma questão frequentemente levantada, mas não resolvida. Para dar um exemplo marcante, a idéia neoliberal doS direitos focaliza a oposição entre o indivíduo e o Estado, ou entre a propriedade privada e coletiva. Na realidade, porém, idéias de liberdade de mercado e propriedade privada muitas vezes estão ligadas ao esforço de grupos de interesses especiais para combater os esforços da classe trabalhadora e outras classes sociais de limitar a ampliação irrestrita do mercado. Assim, a agenda neoliberal muito frequentemente entra em choque com a democracia participativa, que é inevitavelmente vinculada a movimentos sociais que lutam pela autoproteção no ambiente da expansão do mercado. Por exemplo, o movimento de trabalhadores pela segurança no trabalho e pelos direitos trabalhistas, o movimento de algumas organizações para proteger o meio ambiente, etc. Os movimentos sociais exercem um papel decisivo na ampliação dos direitos democráticos.

Pelo que eu sei, em algumas regiões em que a democracia de base e as eleições em vilarejos e cidades menores estão bem estabelecidas, os movimentos que defendem os direitos democráticos desenvolvem-se mais rapidamente. Os movimentos sociais e o desenvolvimento de redes sociais locais interagem positivamente. Em algumas outras regiões, porém, a situação não é tão otimista. O problema, é claro, é que a expansão acelerada do mercado pode desintegrar a rede e as conexões sociais originais, resultando não apenas na perda dos direitos de grupos individuais mas também na desintegração da própria sociedade, com o risco de autoritarismo, porque pessoas desiludidas frequentemente recorrem a líderes fortes para conservar seus direitos sociais básicos. Em suma, a expansão neoliberal do mercado pode tornar-se um convite ao autoritarismo (a América de Bush poderia ser um exemplo disso). Nesse sentido, a transformação da política econômica (ênfase no aumento do PNB) para a política social (preocupação com a justiça social, o sistema de bem-estar social e o PNB verde, etc.) na China nos últimos anos é algo positivo.

FOLHA – O sr. precisou deixar a “Dushu”, e a desculpa da exclusividade em tempo integral não é muito convincente. Esse foi o preço pago por discutir questões delicadas na China? O espaço para dissensão está se estreitando?

WANG – Fui editor-chefe da “Dushu” por quase uma década, o que me possibilitou organizar muitas discussões nos campos da política, economia, cultura e questões mundiais. Na realidade, muitas discussões importantes partiram de discussões intelectuais na “Dushu”. Obviamente, algumas delas mexeram em nervos sensíveis. Não apenas o governo, mas também alguns grupos de interesses especiais não gostam de ver debates sendo travados. Realmente, a desculpa não é convincente.

Existem muitas censuras na China, especialmente com relação à mídia, incluindo a Internet. Mas a China vem passando por um processo de transformação profunda. A existência de censuras não significa necessariamente que não exista espaço público na China. Na realidade, até mesmo na mídia controlada é possível encontrar algumas discussões muito importantes e delicadas. Falando em termos gerais, existe pouca censura de livros, a China possui a maior indústria de tradução e publicação. É possível encontrar praticamente qualquer tipo de publicação, desde esquerdista até direitista. No mundo acadêmico a censura não se dá do mesmo modo que na mídia. Os acadêmicos podem ter seu espaço próprio para suas pesquisas e seu ensino.

Será que o espaço para a dissensão se estreitou? Não estou certo. Nas últimas décadas as restrições estiveram presentes, em alguns momentos fortes, em outros momentos menores. A verdadeira mudança é a transformação da censura de duas maneiras: primeiro, a censura vem se despolitizando cada vez mais; você não verá uma campanha política, no mesmo sentido da época de Mao. Minha saída da “Dushu” foi um exemplo disso. Em segundo lugar, a censura vem não apenas do governo, mas também dos grupos de interesses especiais, incluindo os agentes deles nos governos e na midia. De modo geral, é a censura na sociedade de mercado.

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