Aula de redação

Posted on: setembro 5, 2008

“Um dos maiores mistérios da evolução humana é a domesticação dos animais. A teoria mais aceita afirma que o homem começou a dominar e a confinar porcos, ovelhas, cavalos e bois há aproximadamente 10 000 anos. Num processo que durou milhares de anos, o ser humano selecionou

os animais segundo seu tamanho e sua capacidade de reprodução, visando principalmente à sua alimentação. Experiências realizadas na Rússia, que só recentemente começaram a ser conhecidas no Ocidente, mostram que esse capítulo da história pode ter sido bem diferente. Baseados em dois

longos estudos com colônias de ratos e de raposas, cientistas russos chegaram à conclusão de que talvez o homem não tenha se esforçado tanto para adestrar os animais. Tudo o que precisou fazer foi conviver com os que toleravam sua presença. Desse convívio harmonioso, novas raças surgiram e deram origem aos animais que conhecemos hoje. (…)” Retirado trecho de um livro do Col. Bandeirantes. São Paulo.

“Se alguém parar e olhar fundo para os olhos de seu cão em particular, poderá encontrar uma infinitude de sentimentos, mas que são seus, não do seu cão. Tendemos ver nos cães o que precisamos ver e receber. São as nossas emoções e nossos sentimentos que estão ali depositados”.
Ou, em resumo: nos olhos do cão, o dono vê seu próprio olhar. Seria basicamente este o vértice, se fosse possível resumir, do que é postulado neste “Cães, Donos e Dores Humanas”, da Médica Veterinária Synara Rillo.
Do alto de sua intensa atividade profissional, a autora corajosamente levanta questões intrigantes a respeito do “sentir” do cão e seu dono. Em se tratando de experiência, é preciso ressaltar a atividade de Synara na televisão, apresentando um quadro onde aborda esse e tantos outros temas em seus programas. O presente livro nasce – também – como uma resposta aos questionamentos mais freqüentes dos telespectadores. Assim, as habilidades da comunicadora contribuíram para que as questões ganhassem profundidade na escrita dos textos, que agora nos apresenta neste livro.
De algum tempo para cá, o cão tem sido um “fiel depositário” do sentimento humano. Mais do que isso: uma prótese, um lenitivo para a solidão, o vazio e as dores do existir. A coragem da autora se observa ao questionar o “mundo pet”, a humanização que (paradoxalmente) sofrem os cães. E vai mais longe: o adágio “O cão é o melhor amigo do homem” é aos poucos dissecado pelo bisturi certeiro da cirurgiã.
Synara Rillo nos afirma – apenas para exemplificar – que “os cães não são nossos melhores amigos. Amizade é além de submissão e sensações corporais. É desprendimento da alma – e isso eles não conseguem nos dar. Vamos olhar esse dito tão popular pelo ângulo oposto: o homem é que é, e deve ser o melhor amigo do cão. Isso é fato concreto. Se pensamos, raciocinamos e sentimos pelo coração somos capazes, então, de nós compreendermos a espécie canina, e não exigir e tentar partilhar com ela o que não é da sua natureza”.
Só que a autora nos mostra questões como essa lentamente, para não ser mal compreendida. Ou apedrejada. Com sabedoria, passo a passo, pega o leitor – e o cão – e vai passear com eles: do pátio das casas grandes do interior até o interior dos apertados apartamentos da capital. E a gente tem que concordar: no trajeto, já pouco latindo, o cão está quase desaprendendo a ser cão.
Pelo viés do homem, o comportamento canino normal, instintivo, passa gradativamente a ganhar sintomatologia humana por semelhança, a ponto de medicações psiquiátricas serem prescritas. Mas leia-se: os comportamentos medicados (por inaceitáveis), assim o são pelo humano. A natureza, que se saiba, não foi consultada. Se fosse, diria que inadequada está a leitura do homem: quanto mais civilizado, menos natural.
Uma recorrência muito pertinente nesta obra é a solidão do homem e suas buscas compensatórias. E é basicamente neste espaço aberto pela vida agitada – onde estamos povoadamente sós – que muitos buscam no cão o humano que o cão não tem.
Ler é arte de pensar com um pouco de ajuda. Neste belíssimo e cativante livro, Synara Rillo nos ajuda (um muito) a refletir sobre várias situações que acabaram nos soando “normais”, apenas por estatística e repetição. Desde a apresentação do livro, onde discorre brevemente sobre sua trajetória profissonal – e mostra de onde o embasamento destas proposições – Synara Rillo vai aos poucos revelando-se uma autora convincente em cada uma das idéias postuladas. Discorre, sem que a mão escape do traçado cirúrgico, pela interação do homem com o cão desde “o oco do mundo” (como dizia Apparício Silva Rillo). Desenvolve com talento e clareza as idéias que poderão até mesmo romper paradigmas. Lido com atenção e o merecido vagar, será difícil que não concordemos. Não são idéias abstratas: Synara nos oferece um álbum com fotos. Cruas, irretocáveis. As polêmicas, se surgirem, creio que terão em seu nascedouro pedaços de parágrafos “editados” do livro, frases isoladas ou fora do contexto. No conjunto, as idéias estão muito bem costuradas. Com nylon cirúrgico.
E é com exatidão de cirurgiã que a autora nos ensina: os cães expressam o sentimento – sentido exclusivo do homem – através do que ela batiza como “afeto sensorial”. Só este postulado, por sua enorme carga de síntese e clareza (que a leitura, adiante, oferecerá), já justificaria, por si só, a existência desta obra”

http://synararillo.com.br/?p=147

De todos os animais que conhecemos, o cachorro é o que mais se uniu a nós. Sejam príncipes que lhe dão farta comida e leito de plumas, ou mendigos que dormem ao relento e só podem oferecer-lhe uma pequena parte das suas próprias migalhas: idêntica é a sua afeição e dedicação, e com igual amor lambe a mão ornada de jóias e os dedos trêmulos, consumidos de doenças e de fome.

Para o cachorro o tempo parou. O que vale para ele é ainda o coração, e sua devoção provém de uma época romântica. Sua alma, incólume ao século nervoso das bombas atômicas e das viagens interplanetárias, não conhece nem malícia nem falsidade; com a mesma alegria natural ele nos acompanha na chuva torrencial e no forte calor: sempre o amigo mais fiel do homem.

Mas esta sua entrega completa ao homem e o nosso domínio absoluto sobre um ser que não tem alternativa de optar por um ou outro dono impõem-nos, além da obrigação de dar-lhe comida e teto, o dever de tentar compreendê-lo, de descobrir seu gênio, enfim, de amar, este escravo que encadeamos à nossa existência.

A inteligência do cão, o seu caráter, o seu poder de observação e a sua capacidade de agir com uma aparente compreensão íntima não devem, no entanto, iludir-nos. Ele continua a ser um animal que a natureza criou. Se ela o dotou de grande devoção, da boa vontade de subordinar-se e da tendência a obedecer a um espírito forte, então cabe a nós coordenar estes dons e fazê-los úteis.

As boas intenções às vezes falham. Por quê? A falta de conhecimentos mais familiarizados e do bom senso indispensável são quase sempre os motivos que forçam o cão a levar uma vida que não corresponde à sua natureza. Conseqüência: o animal, não se sentindo bem, torna-se renitente; o homem interpreta a renitência como sinal de mau caráter; as relações, já pouco satisfatórias, pioram e passam para a desconfiança mútua: o homem desanima, o cachorro está estragado.

Todavia, o mesmo animal na mão de uma pessoa que lhe proporcione existência mais congenial — que tente penetrar a psique canina e saiba transmitir-lhe de modo inteligível suas intenções — desenvolver-se-á num ótimo cachorro­, manso, disciplinado, incondicionalmente dedicado ao seu patrão.

Realmente, não existe uma única razão para que cada um de nós não possa ter um cão bondoso, infalível amigo da família. São as nossas próprias atitudes que — via de regra e apesar das boas intenções — nos conduzem, às vezes, a malogros.

O norte-americano Will Judy, que serviu de juiz em exposições caninas em quase todos os países sul-americanos e que é, sem dúvida, um dos maiores conhecedores de cães, respondeu assim à pergunta “Por que adquirir um cão?”: “A fim de esquecer-se dos desgostos ou das preocupações do dia quando, ao voltar à casa, for recebido por um animal cujo coração só bate por você e que não acredita na possibilidade de uma separação”. Em outra ocasião, respondendo à mesma pergunta, Judy afirmou: “Para que os filhos, crescendo junto dos cães, tenham na benignidade e na solicitude, na dedicação e na obediência — qualidades inerentes ao cão — bons exemplos para a própria vida”.

De fato, não é exagero afirmar-se que um cachorro pode formar um homem.

É bom lembrar que dono e cão vivem melhor juntos desde que os temperamentos correspondam. Quem é dotado de caráter vivo não gostará muito de um cão pacato, que precisa sempre de estímulo para locomover-se. E aquele que aprecia uma vida calma por certo se sentirá desesperado quando o seu cão, impetuoso, pular para lá e para cá, convidando-o a todo momento para brincar. Mas há os que nunca se dariam bem com cachorros: os coléricos e nervosos. Estes estragariam cada cão que possuíssem.

O dono é um deus para o seu cão. Incondicionalmente e negligenciando a própria vida, é-lhe dedicado e não deixa passar uma única oportunidade sem lhe transmitir a sua declaração de amor. O cão pode tremer de medo na mesa do veterinário que lhe aplica uma ligeira injeção, mas tolera calmamente um tratamento bastante doloroso nas mãos do seu patrão. Somente este tem sua plena confiança e ao seu lado ele jamais temerá uma tortura.

Os culpados somos nós — Nunca se deve deixar que um cão se desenvolva fisicamente sem passar pelo menos pelas instruções básicas. Com “instruções básicas” quero dizer, em primeiro lugar, “civilizar”, iniciar a educação do filhote. Tirar, enfim, certos hábitos — em nosso sentido desagradáveis —que do ponto de vista do cão são passatempos, freqüentemente bem divertidos.

Por exemplo: achamos engraçado se um filhotinho brinca com um sapato maior do que ele. Com toda a energia, ele tenta puxar este “monstro” com seus dentinhos que quase não têm força para dominar a presa. Quando, porém, o mesmo cachorro alguns meses mais tarde rasga o sapato, aborrecemo-nos e o castigamos. Por quê? Como o cão pode saber que não deve mais brincar com estas coisas, justamente quando é capaz de parti-las com os dentes? Quem tem culpa? O cachorro cometeu o mesmo “crime”. Só que uma vez achamos graça e na outra o condenamos.

Por isto, um conselho: não acostume o pequeno a aventuras que você não quer ver no adulto.

Lembre-se também de que no cachorro, ao lado de suas paixões principais — comer e reproduzir-se — desenvolve-se, sem dúvida com grande vantagem para nós, um capricho especial: a vontade de agradar. Um cão nunca esconde seu orgulho por um trabalho bem executado e depois sua alegria quando é elogiado pelo dono. Explorando estas qualidades do nosso amigo e prevalecendo-se de sua satisfação você conseguirá ótimos resultados na difícil arte da instrução canina.

http://br.geocities.com/chaplin_pugmania/theogygas_relacoescaninas.htm

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