Aula de redação

Ciência no Brasil e América Latina

Posted on: setembro 21, 2008

Felizmente passou-se o tempo em que ministros de Estado afirmavam ser mais barato comprar ciência e tecnologia prontas do exterior do que desenvolvê-las no país. Após a crise econômica que assolou a América Latina na década de 1990, ocasião em que um ministro argentino aconselhou cientistas a “lavarem pratos” como carreira, a ciência na região tem presenciado tempos melhores.

Nos últimos quinze anos, a produção científica latino-americana cresceu num ritmo superior ao dos países desenvolvidos. O número de artigos publicados em periódicos indexados ou com visibilidade internacional subiu de 7 mil, em 1990, para 18 mil, em 2004. No mesmo período, a formação de doutores em ciências e engenharias saltou de 1,6 mil para 7,8 mil. De acordo com o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, a produção científica brasileira teria atingido, em 2006, números que colocam nosso país na 15ª posição dos países que mais publicam artigos científicos.

Estranhamente, ao longo do período de 1990 a 2004, os investimentos em Ciência e Tecnologia (C&T) não acompanharam o crescimento do número de publicações. Nestes anos, as inversões brasileiras no setor permaneceram estagnadas em 1% do PIB, enquanto as dos norte-americanos correspondem a 2,4%. Ainda, os recursos recebidos pelos cientistas brasileiros, em média, neste período, seriam 75% menores que nos Estados Unidos.

O paradoxo gerado entre a limitação de recursos neste período e o crescimento vertiginoso da ciência na América Latina é discutido pelo biólogo Marcelo Hermes-Lima em artigo intitulado Para onde vai a América Latina?, publicado no periódico da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB Life) em abril de 2007. A análise do cientista apresenta uma realidade indigesta: trabalhos publicados por latino-americanos, estatisticamente, têm qualidade inferior e refletem alto custo humano.

Ao verificar o número de citações por artigo publicado, os trabalhos brasileiros teriam sido citados em média 4,7 vezes, em comparação com as publicações norte-americanas — que teriam rendido a média de 13 citações. Com este dado, é possível deduzir que a qualidade e, portanto, a visibilidade da pesquisa científica não estão intimamente relacionadas ao número de publicações do país, mas aos investimentos no setor. Afinal, o que justifica a falta de visibilidade das publicações nacionais? Não estamos produzindo ciência de qualidade?

É necessário publicar pelo menos dez artigos a cada três anos, para manter uma bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. É insustentável dedicar-se constantemente a pesquisas inovadoras e de grande impacto, com tal obrigação

Sem oportunidades no setor privado, cientistas permanecem em universidades, criando uma demanda cada vez maior por bolsas e investimentos de órgãos públicos. O modo pelo qual as instituições de fomento selecionam os pesquisadores que serão atendidos baseia-se em critérios estatísticos, dentre os quais o número de artigos publicados por período. É necessário publicar pelo menos dez artigos a cada três anos, a fim de manter uma bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em algumas áreas. É insustentável dedicar-se constantemente a pesquisas inovadoras e de grande impacto com a obrigação de manter tal quantidade de publicações.

Altas cobranças, baixos salários, dependência financeira em relação ao governo e dificuldade em comprar equipamentos necessários para pesquisa são fatores que, somados à burocratização, falta de agilidade na importação e alto custo de produtos e de insumos de pesquisas científicas, colocam muitos cientistas em posição nada competitiva, quando comparada às de países desenvolvidos.

Ainda que em condições desiguais, o cientista brasileiro tem sido responsável por pesquisas científicas bastante relevantes no contexto mundial. Um exemplo de conquista nacional nos últimos anos é o Biophor. Pigmento branco desenvolvido em 2005 a partir de nanopartículas de fosfato de alumínio, o material promete trazer novas perspectivas ao mercado mundial de tintas à base de água. A pesquisa foi conduzida pelo professor Fernando Galembeck, em uma parceria entre o Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a empresa Bunge. O material compete com o dióxido de titânio, substância atualmente empregada na confecção de tintas de cor branca. Dentre as vantagens do material desenvolvido no Brasil, constam a redução de preço – o valor é de 10 a 15% mais baixo que o dióxido de titânio –, a durabilidade e a facilidade de aplicação da tinta, além de poder ser produzido sem agredir o meio ambiente e sem gerar resíduos.

Um outro exemplo de como a ciência nacional permite o desenvolvimento de tecnologias que ganham mercado interno e externo, beneficiando o meio ambiente, é o motor bicombustível flex. O motor, desenvolvido em esfera nacional desde 1991, com apoio da Bosch, oferece flexibilidade na hora de escolher o combustível. Apesar de ser baseado em um projeto norte-americano, não sendo uma idéia completamente original, pesquisadores brasileiros tiveram o mérito de adaptá-lo à nossa realidade e de reduzir drasticamente seu custo de produção.

Como conseqüência do desenvolvimento de tecnologia nacional em motores flex, nove engenheiros brasileiros foram contratados pela General Motors para adequação da tecnologia ao território norte-americano. Mais do que nos alegrarmos pelo reconhecimento de nossos cientistas por países desenvolvidos, este acontecimento deve ser visto como um problema. Não basta que o Brasil invista em ciência, tecnologia e forme pessoas. É fundamental que haja mercado e demanda internos preparados para absorver a mão de obra altamente qualificada produzida, com condições salariais justas.

http://diplo.uol.com.br/2008-09,a2520

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: