Aula de redação

Educação planetária

Posted on: setembro 25, 2008

Educar para uma civilização planetária

Ubiratan D’Ambrosio *

Este é um roteiro para estimular e orientar as reflexões que farei sobre a possibilidade de uma visão humanística da educação reflexiva, conciliando o que chamamos as ciências exatas e a tecnologia com o que costumamos chamar ciências humanas. Como fruto de uma excessiva especialização e um certo deslumbramento com os assombrosos avanços das ciências e da tecnologia, criou-se a imagem de duas culturas: as ciências e tecnologias e as humanidades. Essa dicotomia é falsa e a sobrevivência da civilização no planeta Terra depende de reconhecer esse equívoco.

Cenários sócio-político-econômicos para o século

Um século é um período longo. No decorrer deste século deve haver o surgimento de uma nova ordem social, política e econômica. Estamos vivendo esse processo, embora muitas vezes se tenha a impressão de ser impossível mudar.

É evidente a fragilidade da atual organização da sociedade, na qual os excluídos logo serão a maioria da população. É necessário reverter o quadro, indo em direção à não-existência de excluídos. Em outros tempos, o confinamento e a eliminação eram as práticas para lidar com a presença incômoda de indesejáveis. Hoje, essas soluções são impraticáveis e as sociedades deverão evoluir para permitir que todos se beneficiem da civilização moderna. Muitos dizem que sou um otimista ingênuo. Há indicadores dessa tendência. A análise da história da humanidade mostra a irreversibilidade dessa tendência, embora esse não seja um processo linear. Há altos e baixos. Sem dúvida, estamos vivendo um momento de baixa. Mas essa análise não pode ser feita num período curto de tempo.

Sobre a educação

O sistema político funciona ancorado em duas bases: legal (Constituição, leis, códigos, normas, regulamentos e semelhantes) e representativo (Executivo eleito, parlamentares eleitos e, cada vez mais, cargos burocrático-administrativos preenchidos por eleição ou concurso – que é uma variante de eleição). Os resultados nesse processo de escolha para a gestão da sociedade dependem, em grande parte, de educação.

A educação atual está tendo como grandes objetivos a inclusão das populações no mercado de consumo e alguns indivíduos, selecionados, no setor de produção. Surgem marginais e excluídos, graças à ineficiência da educação. Desses marginais e excluídos, que crescem em número, surgirão os elementos capazes de mudar a sociedade. O progresso “corre por fora”, a reação se organiza no sistema.

Sobre a economia

A economia baseada no capital e no sistema de produção capitalista só pode prosseguir com melhoria de poder aquisitivo por maior número de indivíduos. O capital, que cresce baseado num sistema de juros, acarreta má distribuição de riquezas. A produção, que com o desenvolvimento tecnológico aumenta e ao mesmo tempo gera desemprego, gera uma contradição insustentável entre emprego e salário. Indicadores dessa contradição são os chamados salário-desemprego, renda mínima e as permanentes argumentações a favor do aumento de salário-mínimo como necessário para aumentar o poder aquisitivo. Simplesmente, o aumento da produção não pode se dar sem aumento de consumo. Em outras palavras, sem aumento de poder aquisitivo e de capacidade de consumir, o capitalismo não se sustenta. Salário está diretamente ligado a poder aquisitivo. Educação está diretamente ligada à vontade e à capacidade de consumir.

A questão maior a ser resolvida é: “combinar menos horas de trabalho com mais empregos e maior poder aquisitivo”. As teorias econômicas conhecidas são incapazes de lidar com essas contradições. Indicadores dessa incapacidade são os desencontros e desmandos de propostas de escolas econômicas diferentes. Uma nova economia se faz necessária. Provavelmente substituindo capital por produção participativa.

O futuro

Em 1993 foi criado o Instituto de Estudos do Futuro, como resultado de um grande evento internacional “Educação do Futuro/Educação para a Paz” realizado em 1992 no Memorial da América Latina, em São Paulo. A Comissão Organizadora decidiu, após o evento, manter-se ativada, analisando e fazendo avançar as idéias e propostas ali apresentadas. A forma de se manter ativada foi a criação de um Instituto, sem sede permanente, sem quadros permanentes, sem fins lucrativos, aberto a todas as posições ou opiniões expressas em caráter pessoal, jamais preocupado em algo que representa consenso, exceto o fato de todas as posições e opiniões terem como objetivo atingir paz para a humanidade, paz em todas as suas dimensões: paz interior, paz social, paz ambiental e paz militar. Pretende-se agir como a consciência daqueles que têm poder de decisão.

Não há como propor um modelo substitutivo dos modelos vigentes, em qualquer área. É possível procurar, num enfoque transdisciplinar, entender a condição humana, as condições da sociedade e da economia, sugerindo medidas para atingir a paz total, nas suas dimensões cósmica, planetária, social e individual. Acredito na possibilidade de um futuro com dignidade para toda a humanidade.

As mudanças profundas são o resultado de um processo. Não há mais possibilidades de grandes revoluções. Os meios de informação, de comunicação, de transporte, isto é, a globalização efetiva, tornam inviável uma revolução radical. Além do que revolução significa uma substituição de poder e, como a história nos ensina, o novo poder entra no mesmo comportamento. O poder, no sentido tradicional, é inviável na globalização. A transição para um novo modelo, na linha daquele sugerido acima, está ocorrendo. Há evidentes indicadores dessa transição. É uma transição lenta. Num momento avança um pouco, há um progresso, logo vem a reação e há um regresso. Mas o regresso nunca elimina todos os ganhos do progresso. O saldo é positivo e esse saldo, acumulado, é o que define o novo cenário. A transformação é permanente. Aqueles que têm poder de decisão deveriam ser capazes de antecipar o que será o saldo residual inevitável, isto é, o novo cenário, e incorporar esse novo na sua prática de hoje. Em outras palavras, perceber o futuro. É nisso que os estudos do futuro, como uma especialidade acadêmica, pode ajudar. É ingênuo o líder (político, dirigente, educador) que não busca essa ajuda.

A depredação do hábitat

Há inúmeros estudos técnicos sobre a possibilidade de reversão do quadro de degradação e destruição ambiental que estamos vivendo. Mas os processos, embora tecnicamente conhecidos e relativamente simples, são longos, mais que o período que os torna atrativos para os políticos. Como dependem de decisão política, esses processos não são deslanchados. Mas serão inevitáveis ações ambientais decisivas. Por exemplo, a contradição entre a qualidade e suntuosidade dos edifícios que estão sendo construídos nas marginais torna intolerável o convívio das empresas ali instaladas com o rio poluído. Terá que ser resolvido. Ao se resolver isso, estará sendo encaminhada a solução dos problemas que afetam as populações marginais nas cercanias do rio. O empecilho é uma legislação arcaica, um Judiciário lento e inoperante, e quadros políticos muito vulneráveis.

Haverá condições de evitar a catástrofe? Acredito que sim e estamos próximos à conjugação de interesses da economia com o fortalecimento dos poderes públicos, o que tornará possível corrigir o quadro atual. O caminho mais seguro continua sendo a educação. Mas obviamente uma outra educação, de caráter transdisciplinar, objetivando criatividade e crítica. Quando falo em educação, estou me referindo à educação de crianças, jovens e adultos, incluindo daqueles já em posição de decisão. Nessa educação, tanto de crianças como de jovens e adultos, o papel da mídia é fundamental.

A ciência e os cientistas estão ainda presos aos modelos cartesianos e newtonianos, já desgastados e evidentemente incapazes de lidar com a complexidade do mundo moderno. Há um grande progresso com novos estudos no mundo científico, que surgiram na última metade do século XX, sob denominações as mais diversas: teoria das catástrofes, teoria do caos, teoria de sistemas, complexidade, transdisciplinaridade. Aos poucos, essas teorias vão se incorporando ao mundo acadêmico. É o progresso. A reação se organiza e cientistas tradicionais tentam barrar esses avanços. É o regresso. Mas, como eu disse acima, o saldo é positivo, e se notam grandes transformações no mundo acadêmico e escolar. E, como conseqüência, o cotidiano, as empresas e os sistemas de produção vão avançando com relação à imobilidade e à reação do mundo acadêmico.

Ainda sobre a educação

Um indicador da inocuidade das reações e protestos do mundo acadêmico e dos setores mais conservadores é a grande expansão dos sistemas privados de educação, que prosperam porque respondem mais rapidamente às demandas do mundo atual, sobretudo respondendo às necessidades dos setores empresarial e de produção. Sobretudo na educação superior, o discurso dominante, de uma qualidade arcaica, vai se esvaziando. Parece intolerável o convívio do mundo fora da escola e do mundo escolar. O exemplo dado acima, de poluição de rios, serve também para descrever os problemas da educação. Embora sabendo o que deve ser feito, o processo é longo, mais que o período atrativo para políticos. O apego ao tradicional se manifesta, sobretudo, nos mecanismos de credenciamento e de avaliações (“provões”) alimentados pelo Ministério de Educação. São mecanismos arcaicos e insustentáveis que, além de retardar o progresso, dão uma aura, falsificadora, de seriedade no lidar com os problemas educacionais.

O salto de conhecimento para o qual o homem está se preparando para dar, ainda que inconscientemente, é resultado de toda a sua evolução biológica e intelectual.

A evolução biológica e intelectual continua. Comportamentos e conhecimentos estão em permanente evolução e, como não pode deixar de ser, são contextualizados, inseridos na totalidade em que estamos imersos. Hoje dispomos de poderosíssimos instrumentos materiais e intelectuais para captar informações de uma vastíssima porção da realidade, processar essa informação e compartilhar o resultado desse processamento praticamente com toda a humanidade. Hoje cada indivíduo pode compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos com um número surpreendente de outros indivíduos espalhados pelo planeta. Esse número deve crescer, chegando eventualmente a atingir toda a humanidade. Inconscientemente, estamos incorporando esse compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos na nossa evolução biológica e intelectual. Estamos, inconscientemente, chegando à civilização planetária.

Inúmeras evidências nos são dadas pela história e servem de base para minhas críticas e observações sobre o presente. A análise do passado serve de apoio para minhas reflexões otimistas sobre o futuro.

NOTAS:

* Professor Emérito da UNICAMP.

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