Aula de redação

Proposta de carta a João Estrella. Leia e escreva.

Posted on: setembro 26, 2008

Alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para essa culpa? Eu negociei com muita gente de elite. É pura festa.

OI!
POSSO me sentar? Desculpem-me, mas não pude deixar de ouvir a
conversa… É que esse assunto muito me interessa. Como vocês sabem,
negociei cocaína no Brasil e no exterior por seis anos, entre 1989 e
1995. Nesse período, consumi quantidades industriais de drogas -LSD,
haxixe, cocaína, ecstasy, álcool, cigarros, cogumelos, maconha etc.
Hoje, posso dizer com tranqüilidade que estou fora de tudo isso. Mas
não foi fácil.
Fui preso em 1995. Fiquei quatro meses na Polícia
Federal da praça Mauá, no Rio de Janeiro, até sair o resultado do meu
julgamento. Na sentença, a juíza me condenou a dois anos de internação
em um manicômio judiciário no complexo Frei Caneca, também no Rio.
As
pessoas que lá nunca estiveram dizem que foi mole, que a sentença foi
baixa etc. Mas não é assim. Basta olhar o nosso sistema prisional -há
exemplos trágicos muito recentes- para entender que, no Brasil, nem
mesmo um único dia na prisão é “mole”. Aquela é uma realidade sobre a
qual ninguém pode falar de fora.
Fui condenado a quatro anos de
prisão. Se fosse cumprir essa sentença, poderia sair em um ano e meio
com bom comportamento. A juíza substituiu a pena para dois anos no
manicômio. Lá, você tem que se recuperar, porque, se não tiver uma
série de pareceres positivos, a sua pena é renovada tantas vezes
quantas o juiz achar conveniente.
São duas situações diferentes,
na PF e no manicômio. Naquela, a vida com pessoas em constante crise de
abstinência e com problemas de espaço e convivência. Neste, o convívio
com pessoas que tinham graves problemas psicológicos e eram, em alguns
casos, bastante violentas.
Na primeira situação, em que não
entravam drogas, as pancadarias eram constantes entre os presos e era
quase impossível não se envolver.
No manicômio, por sua vez, tive
o “privilégio” de conviver na mesma cela com pessoas que haviam matado
seus pais, assassinado o próprio filho com pauladas e até com
psicopatas famosos, como um que matava crianças -foram 14- e comia seus
órgãos depois que elas estavam mortas.
Além da violência, algo que
me impressionou foi que, pelo menos na época, o segredo de Justiça para
quem fizesse denúncias -tipo delação premiada- não passava de promessa
vazia. Na PF, fui colocado na cela de uma facção por (ainda bem!) não
ter denunciado ninguém. Uma pessoa que tinha feito denúncias acabou
sendo espancada -o depoimento do cara foi entregue na íntegra a mim e
às pessoas que estavam na cela comigo.
É, meu amigo, só quem não
sabe nada da prisão é que pode dizer que minha sentença foi “mole”. E
só quem não sabe nada de criminalidade pode achar que apontar a classe
média consumidora de drogas como responsável pela violência nos centros
urbanos vai ajudar em alguma coisa.
Sei que “Tropa de Elite” ajudou a levantar essa questão; mas, segundo consta, foi de forma não intencional.
Será
que alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para
essa culpa? Alguém tem a ilusão de que o consumidor de drogas possa
estar preocupado se está ou não alimentando a violência? Eu negociei
com muita gente de elite. É pura festa, meu amigo. Pura festa.
Sabe,
é fácil encontrar culpados, mas nós precisamos é de soluções. Se é para
falar de culpa, bem, a sociedade como um todo tem responsabilidade por
quem elege para administrar o dinheiro dos nossos impostos.
Mas
não é só neguinho da elite que não tá nem aí. O jovem pobre e criminoso
também não está preocupado com isso -e tem lá os seus motivos.
Ele
faz parte de uma parcela da população que, além de ser massacrada pela
miséria, ainda é esculachada pela polícia, enganada por políticos e
jogada na marginalidade mesmo quando não é bandida, pois marginal é
aquele que não participa da comunidade, aquele que é excluído. Esses
cidadãos, que são os mais combatidos e que não têm direito a cela
especial, são mais vítimas do que culpados.
Sinceramente? A cocaína e o ecstasy são problemas, sim, mas não são os mais graves que temos neste país.
Aliás,
por falar em drogas, quer tomar um “drink”? Então… Temos o álcool,
que, se não me engano, aparece em primeiro lugar na lista de
destruição: homicídios, acidentes automobilísticos fatais, demolição
familiar, violência doméstica… A cocaína aparece em quinto ou sexto
lugar na lista de ocorrências com morte.
Temos ainda a fome, a
falta dӇgua, a falta de terra, a falta de vergonha na cara dessa corja
que depena o país. A bem da verdade, quem dera nossos maiores problemas
fossem os ecstasys que a rapaziada toma nas festas e que estão na mídia
o tempo todo.

JOÃO GUILHERME ESTRELLA, 46, é cantor,
compositor e produtor. Em sua história real foram baseados o livro e o
filme “Meu Nome Não É Johnny”.

Os artigos publicados com
assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao
propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e
de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
debates@uol.com.br

 
 

4 Respostas to "Proposta de carta a João Estrella. Leia e escreva."

Roseee!! quanto tempo!

Esse filme é bem bacana! O Selton tá incrível!

Ah! Não sei se você tem paciéncia, ou se pode, de repente, tirar um tema de redação a partir daí, mas recebi um meme (no meu blog) e indiquei vc pra receber, passa lá!

bjooo

oie…bom adorei ver um filme com uma história de vida tão fascinante!com certeza foi o melhor filme brasileiro que já assisti.
sei que vc é produtor…eu eu gostaria muito de fazer uma aula de canto e quem sabe me tornar uma profissional nessa área…gostaria que vc entrasse em contato…tenho um primo que passou pelas mesmas cituações, poém não mudou até hoje!
entre em contato comigo por gentileza!!!
um abraço…

oie…bom adorei ver um filme com uma história de vida tão fascinante!com certeza foi o melhor filme brasileiro que já assisti.
sei que vc é produtor…eu eu gostaria muito de fazer uma aula de canto e quem sabe me tornar uma profissional nessa área…gostaria que vc entrasse em contato…tenho um primo que passou pelas mesmas cituações, porém não mudou até hoje!
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